O poeta Décio Pignatari

Publicado na Folha de S.Paulo

O corpo do poeta, ensaísta e tradutor Décio Pignatari foi enterrado ao meio-dia desta segunda-feira (3) no cemitério do Morumbi, em São Paulo, após velório que começou por volta das 8h.

“No Brasil, foge-se como o diabo da cruz dos juízos de valor”, disse Pignatari
Análise: Pignatari esteve na proa das vanguardas em mais de 50 anos de publicações

Pignatari morreu na manhã deste domingo (2), aos 85 anos, em São Paulo. Internado no Hospital Universitário da USP desde a sexta (30), ele teve insuficiência respiratória e pneumonia aspirativa (infecção pulmonar).

Durante o enterro, Serena Pignatari, filha do poeta, contou aos mais de cem presentes que seu pai não queria “nenhum sacerdote, nenhum padre” na cerimônia.

“A única coisa que ele gostaria de escutar neste momento é uma música que ele gostava muito, ‘Peixe Vivo'”, afirmou Serena. Em seguida, começou a cantar e logo foi acompanhada pelos presentes.

“A memória recente dele estava completamente comprometida, mas da memória antiga ele lembrava tudo: de artistas, dos filmes, do Humphrey Bogart e de coisas importantes da literatura que não se apagaram”, disse à Folha Lilla Pignatari, 80, viúva do poeta. Além de Serena, Pignatari deixa outros dois filhos e dois netos.

Décio Pignatari foi um dos principais nomes da poesia concreta, ao lado dos irmãos Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos, 81 –com quem editou a revista “Noigandres”, no anos 1950. Também com os irmãos Campos publicou “Teoria da Poesia Concreta”, em 1965, “Mallarmagem”, em 1971, e “Ezra Pound – Poesia”, em 1983, entre outros.

O maestro Júlio Medaglia, que foi se despedir do amigo, afirmou que “era filho intelectual dele”. “Ele era brilhante porque tinha domínio de todo o tipo de assunto e conversava comigo sobre música com muita autoridade e conhecimento.”

Para o compositor Lívio Tratenberg, “é preciso tomar cuidado para não folclorizar essa coisa da personalidade forte do Décio”. “Por trás dessa personalidade havia muitas ideias. Ele possuía muita crença no que dizia, por isso era tão convicto e não fazia o jogo social de agradar. Quando não concordava com algo, ele era muito claro. Por isso, para mim, se tornou uma referencia ética.”

“O Décio foi, sobretudo, um descobridor de novos caminhos. Ele chegava com ideias que, de início, pareciam estranhas, mas depois comprovavam que ele estava na vanguarda”, avaliou o escritor, tradutor e ensaísta Boris Schnaiderman. “Ele antecipou muita coisa que depois foi vista como normal, mas que não era quando ele propôs.”

“[O livro] ‘Informação, Linguagem, Comunicação’ me abriu perspectivas novas, quando estudante, e desde então sempre acompanhei suas pontadas de lança de múltiplo alcance. Gosto muito de poemas como ‘O Jogral e a Prostituta Negra’ e ‘Femme'”, disse José Miguel Wisnik, escritor, compositor e professor de literatura brasileira da USP. “Conheci a sua generosa solidariedade em momentos pessoais difíceis, mesmo não sendo próximo dele. Tenho saudades de quando havia debate literário no Brasil”, completou.

O cantor e compositor Tom Zé conta que houve uma época em que se encontrava duas ou três vezes por semana com Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos para tomar um chope. “Nessa época, o Décio teve a ideia da capa do meu disco ‘Todos os Olhos’, que reverbera até hoje, com aquele c*, que é um olho…”, lembra. “Os próprios poetas concretistas se diziam influenciados pela poesia provençal, que eu também trato no meu disco recente, ‘Tropicália Lixo Lógico’. A influência deles é a mesma dos poetas populares de Irará [cidade natal de Tom Zé, na Bahia].”

Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments