Publicado na Época

Autor de 46 anos consegue manter sucesso com mulheres vestidas e homens incapazes de bater em sua amada, mesmo que com uma flor

PARA CASAR
O escritor Nicholas Sparks, vestido para encantar suas
leitoras. Para ele, há sexo demais na literatura atual
(Foto: divulgação)

Excitado com o sucesso mundial da trilogia erótica Cinquenta tons de cinza, o mercado editorial decidiu não pensar em outra coisa. Desde que os romances da autora inglesa E.L. James transformaram as algemas e os chicotes em apetrechos fundamentais para uma boa história de amor, as livrarias sofreram um ataque sadomasoquista: além dos três volumes de Cinquenta tons de cinza, que dominaram as listas de mais vendidos, outros livros eróticos tentam se aproveitar da nova moda literária. Nesse cenário dominado por sexo e chicotes, o que restou aos leitores que não estão prontos para ir direto aos finalmentes? Onde foi parar a ficção que faz declarações de amor, dorme de mãos dadas com o leitor e deixa o sexo para depois do casamento? Resposta: nos livros de Nicholas Sparks.

Esse americano de 46 anos consegue se manter nas listas de mais vendidos com mulheres vestidas e homens incapazes de bater em sua amada, mesmo que com uma flor. Romancista à moda antiga, ele se concentra menos em descrever os raros momentos de intimidade de seus protagonistas e mais em criar contratempos que atrapalhem a felicidade do casal. Seus livros são conhecidos por alternar momentos de romantismo com reviravoltas trágicas, calculadas para arrancar lágrimas dos leitores. “Livros em que os casais conseguem ficar juntos são muito chatos”, disse Sparks a ÉPOCA. “Não importa a idade ou a origem dos personagens: o fundamental é que algo dê errado.” Quanto maiores os obstáculos ao amor, mais emocionante (ainda que comportada) é a redenção final. A fórmula converteu-o no maior sucesso recente da literatura romântica, com 90 milhões de livros vendidos em todo o mundo e traduzidos para 45 idiomas.

A recém-descoberta sede dos leitores por sexo não parece incomodar Sparks. Pelo contrário. Em vez de mudar seu estilo para se adaptar à nova moda, como outros autores, ele aproveita o momento de descoberta do erotismo para marcar posição como o último baluarte da pureza – ao menos nas listas de best-sellers. “A literatura hoje em dia está dando importância exagerada ao sexo”, afirma. “Escrevo livros de que me orgulho. Quero que pessoas de qualquer idade possam ler meus livros e que mães possam recomendá-los a suas filhas. Acredito que boas histórias e conflitos interessantes podem ser mais atraentes ao leitor do que qualquer acrobacia sexual.”

Até o adultério, tema principal de grandes clássicos da ficção, é malvisto por Sparks. “Há livros demais que recorrem a esse tema. É um recurso pouco criativo para criar drama. Sei que o adultério existe no mundo inteiro, mas não vejo motivo para enaltecê-lo”, afirma. Seu conservadorismo tem raízes fora da literatura. Católico, costuma ir à igreja todos os domingos com sua mulher e seus cinco filhos. Ele já doou mais de US$ 10 milhões para a criação de uma rede de escolas cristãs.

Muito antes de E.L. James transformar o sadomasoquismo em moda literária, Sparks converteu dezenas de autores a seu romantismo bem-comportado. Até as capas de seus livros, que mostram jovens casais em cenas bucólicas de amor, foram imitadas à exaustão por aspirantes ao sucesso literário. Na batalha entre o amor inocente e o erotismo, Sparks prefere lutar sozinho. “Li alguns livros de autores que imitam meu trabalho, mas nenhum deles me agradou”, diz Sparks. “Eles podem até copiar as capas de meus livros e tentar imitar meu estilo. Se não souberem escrever bem, não conseguirão conquistar meus leitores. O que importa é o conteúdo.”

AMOR VERDADEIRO
À esquerda, o autor e suas fãs em abril na Carolina do Norte. O sucesso das livrarias se repete nas telas. À direita, uma cena do filme baseado no livro Um porto seguro, próxima estreia de Sparks no cinema
(Fotos: AP e James Bridges)

Nas livrarias, a guerra entre o romantismo água com açúcar e a ficção apimentada já está declarada. Apesar de estar convencido de que o erotismo excessivo não é um bom caminho para a literatura, talvez Sparks tenha de reconhecer a derrota. Seus livros, que há alguns anos estreavam no topo das listas de mais vendidos, agora têm de se contentar com posições mais modestas, abaixo de E.L. James ou Sylvia Day. Para vencer nas prateleiras, resta a ele apostar numa nova mudança de costumes. Ainda é cedo para dizer se a moda da literatura erótica permanecerá por muito tempo, apesar de sua glória recente. Os romances de Sparks, nas listas de best-sellers desde 1996, com O diário de uma paixão, já estão consolidados entre as preferências dos leitores. Quando a atual onda de pornografia light passar, é provável que as leitoras se voltem novamente a seus livros, em busca de suspiros.

Antes da batalha pelo futuro, Sparks deverá enfrentar a ficção erótica nas telas. O filme baseado em Cinquenta tons de cinza, ainda sem data de lançamento, já é uma das produções mais comentadas de Hollywood. A badalada equipe de produtores responsável pelo filme A rede social já foi escalada. E.L. James é consultora. Não importa em que ano o filme seja lançado, será difícil escapar da concorrência com Sparks: sete de seus livros já foram adaptados ao cinema e outros dois deverão chegar às telas em breve. Sparks anunciou neste ano que se dedicará também às séries de televisão. Para dar conta do novo trabalho, criou uma produtora e abriu mão de trabalhar por conta própria. Mesmo nos filmes baseados em seus livros, ele costuma ter a palavra final sobre o roteiro, o elenco e a direção. “Trabalhar em televisão é um esforço coletivo. É uma experiência um pouco frustrante, mas tenho certeza de que dará certo”, diz ele. O baluarte da pureza não está sozinho. Para superá-lo nas telas, os sadomasoquistas terão de sofrer.

Dica da Luciana Leitão

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments