Jaqueline Silva, que decidiu escrever um livro sobre desemprego quando ficou sem trabalho, afirma que é preciso “mudar mentalidades” e que “as pessoas têm de se redefinir enquanto profissionais” para se adaptarem à realidade.

Publicado no Diário de Notícias

Jaqueline, agora com 31 anos, estudou nos Estados Unidos e em Espanha antes de concluir o mestrado em Gestão, em Lisboa. Conta que teve “o percurso ideal face aos dias de hoje”: estudou em “boas universidades”, começou por trabalhar em ‘start-ups’ e depois integrou uma multinacional nos Estados Unidos.

Nessa grande empresa esteve durante três anos, e – recorda, em entrevista à agência Lusa – “a partir de determinado ponto, já não havia mais evolução possível”, acabando por ficar desempregada.

Nos meses em que esteve desempregada, decidiu procurar livros sobre o assunto e percebeu que eram todos sobre o mesmo – “como fazer um currículo ou como ir a uma entrevista” de trabalho.

“Tudo o resto não estava enquadrado. Nenhum livro me dava as ferramentas necessárias para lidar com todo o processo: o estigma e a frustração (…) Nem com as burocracias: como é que eu lido com o centro de emprego e com o IEFP [Instituto de Emprego e Formação Profissional? É uma aventura”, disse.

Para Jaqueline Silva, que é atualmente coproprietária de uma micro empresa, “hoje em dia, a grande diferença entre o que é o trabalho e o que é o emprego é uma mudança das próprias mentalidades das pessoas”

“Estamos numa estrutura em que temos de seguir um determinado padrão e fomos educados a ter um curso e um emprego para a vida, um emprego estável, a não arriscar muito. Isso faz parte da nossa cultura. Nós não temos de deixar de ser quem somos, mas temos de nos reajustar à nova realidade”, defende a jovem.

No livro “Estou desempregada, e agora?”, lançado este mês, Jaqueline Silva questiona a importância de ter ou não ensino superior para se ter trabalho: “Não sei se a licenciatura é, nesta fase, um fator fundamental para se conseguir trabalho”, afirma.

“Por exemplo, um canalizador. Tive lá [na empresa] um canalizador que, por meia hora [de trabalho] cobrou [um valor que] eu não ganho à hora. Temos aqui uma mudança do paradigma: passamos de um sistema de doutores e engenheiros para [um de] profissões mais técnicas e com mais saída, porque ninguém quer fazer esses trabalhos, e quem faz pode pedir o que quiser”, resume.

Hoje, Jaqueline tem uma empresa própria, que fundou com um sócio. O espaço “Entre nós, petiscar e conversar” tem uma parte de restauração e outra de mercearia, com “produtos de pequenos produtores portugueses que não estejam no circuito”.

Com este projeto, a empresária criou o seu posto de trabalho e outros dois a tempo inteiro, além de que, temporariamente, contrata mais pessoas, em função das necessidades do negócio.

Para já, emigrar não é uma solução para Jaqueline, mas a jovem também não afasta essa possibilidade para o futuro: “Não sei qual é a solução para cada uma das pessoas, sei qual foi a solução para mim e sei que, se as pessoas se redefinirem enquanto profissionais e mudarem um bocadinho aquilo que foram ensinados, talvez existam soluções cá [em Portugal] como em qualquer outro sítio.”

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