Vivian Whiteman, no Ilustrada

O sofá é uma invenção burguesa. Assim como o são os banheiros privativos com descarga e os quartos de dormir.

No livro “O Século do Conforto – Quando os Parisienses Descobriram o Casual e Criaram o Lar Moderno”, a escritora Joan DeJean conta como essas criações entraram para o cotidiano das pessoas e de que forma ajudaram a modificar as relações sociais e o conceito de privacidade.

Tela do pintor François Gerard retratando senhora da alta sociedade francesa em seu sofá (Divulgação)

Tela do pintor François Gerard retratando senhora da alta sociedade francesa em seu sofá (Divulgação)

Entre 1670 e 1765, Paris liderou a escalada do conforto, segundo a pesquisa feita por de DeJean.

E a ideia de uma casa que oferecesse ambientes menos duros, mais adequados à conversa e a momentos de descanso, diversão e sedução se desenvolveu sobretudo graças à influência de duas amantes do luxo.

E essas senhoras que amavam o luxo eram também amantes de reis.

A marquesa de Maintenon, que tinha um caso com Luís 14, e a marquesa de Pompadour, a “outra” de Luís 15, botaram os arquitetos e designers para trabalhar e deram um novo significado à ideia de decoração.

Lançaram moda, por assim dizer, já que a tendência foi logo abraçada e amplamente difundida pelas mulheres de nobres e negociantes endinheirados da época.

Um dos mais célebres ancestrais do sofá como o conhecemos hoje, por exemplo, foi criado em 1671 para o palacete da marquesa de Montespan. Ela, que um dia fora governanta da malvada e pérfida Maintenon, se tornou a amante predileta do reconhecidamente infiel Luís 14.

SEDUÇÃO

A ilustração mais antiga de um sofá próximo dos moldes atuais, porém, só apareceu em um anúncio de mobiliário datado de 1686.

Interessante notar como na costura de DeJean a privacidade aparece ao mesmo tempo como necessidade e luxo.

Os reis, sobretudo Luís 15, responsável por uma das mais significativas reformas empreendidas no palácio de Versalhes (criando cômodos “secretos” e instalando encanamentos, por exemplo), queriam um espaço para realizar atividades não públicas. Ou seja, que dispensassem os protocolos reais que pautavam o comportamento da classe alta da época.

Os interesses das amantes, por sua vez, eram outros.

Elas desejavam embelezar e tornar mais confortáveis os seus espaços de sedução.

O sofá, por exemplo, era o lugar perfeito para que duas criaturas sentassem lado a lado, numa proximidade que estava entre a abordagem pública e as intimidades típicas da alcova.
Centenas de quadros do período retratam senhoras e senhores languidamente esparramados nos seus elegantes “móveis de sentar”.

DUCHAS E DESCARGAS

Noutra ponta dessa evolução, a chegada da água corrente permitiu o surgimento de objetos e engrenagens como duchas e descargas.

Foi o que transformou o banho de simples procedimento higiênico periódico em experiência prazerosa.

Além de “enfeitar” a tarefa de despachar dejetos com o mínimo de contato.

Entre curiosidades e conexões históricas bem sacadas, Dejean destaca ainda a gênese do que se conhece hoje como moda parisiense, a mais influente do mundo.

Para aproveitar esses espaços de conforto, as burguesas afrouxaram os vestidos, abandonaram os corpetes e criaram modelos informais.

As peças eram considerados ousadas porque, apesar das matérias-primas luxuosos, tinham a aparência de roupas de dormir ou trajes das classes inferiores.

Nascia ali, entre sofás e flertes, a moda casual.

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