Raquel Cozer, na Ilustrada

Dois anos bastaram para o britânico Ken Follet, 63, organizar nas 880 páginas de “Inverno do Mundo” (Arqueiro) quase duas décadas de vivências de 98 personagens, entre reais e fictícios, espalhados por dez países.

E isso sem esbarrar em incorreções históricas nem contradizer o que ele mesmo havia escrito sobre os protagonistas nas 915 páginas de “Queda de Gigantes” (2010), volume anterior de sua superlativa trilogia “O Século” -o terceiro “Edge of Eternity”, ainda está sendo escrito.

O que garantiu o ritmo, diz Follet, foram ferramentas que inexistiam nos anos 1970, quando estreou como escritor. Em especial o Excel, programa para criar tabelas e calcular dados no computador.

O autor com estátua em sua homenagem na catedral Santa María de Vitoria, Espanha (David Aguilar/Efe)

O autor com estátua em sua homenagem na catedral Santa María de Vitoria, Espanha (David Aguilar/Efe)

“Fiz uma planilha para seguir as pistas dos personagens”, diz o autor à Folha. “Toda vez que um personagem aparece, coloco nome e idade na tabela, além da descrição física. A planilha calcula as idades para o tempo que passa. Assim não erro.”

Follet também se deu ao direito de checar uma ou outra coisa nas imagens via satélite do Google Earth, embora tenha visitado ao longo da vida praticamente todos os cenários descritos nos livros.

O Excel pode tirar algo do romantismo esperado da criação literária, mas, dado o tamanho do empreendimento, é um método compreensível.

Na trilogia, Follet acompanha cinco famílias -americana, alemã, russa, inglesa e galesa- ao longo de três eventos centrais do século 20: as duas grandes guerras mundiais e a Guerra Fria.

O “Inverno do Mundo” começa em 1933, quando os bebês nascidos no primeiro livro já são adolescentes, e segue até 1949, quando os adolescentes de 1933 já se tornaram adultos com sua própria prole -que deve assumir papeis centrais no terceiro livro.

Os jovens protagonistas do segundo volume, como Carla von Ulrich, filha de alemão com inglesa, e o inglês Lloyd Williams, vivem efeitos da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial.

Estão sempre à beira dos grandes acontecimentos. Filhos de parlamentares ou diplomatas, testemunham situações como a decisão dos EUA de responder aos ataques japoneses a Pearl Harbor.

Abordar com esse nível de intimidade eventos tão recentes exige de Follet cuidado ainda maior que o dedicado a seu maior sucesso, “Os Pilares da Terra” (Rocco, 1992), que se passa na Idade Média.

“Tenho de ser mais cuidadoso. Na Idade Média, se quisesse dizer que um dia o rei foi ao campo, eu poderia: ninguém sabe bem onde o rei estava na maior parte do tempo. Agora, se quero dizer que o presidente Roosevelt foi a tal lugar tal dia, tenho de ter certeza. Alguém em algum lugar sabe onde ele esteve em cada dia de sua presidência.”

E os leitores fazem questão de mostrar que sabem. Em seu site, ele abriu uma página para corrigir erros apontados em seus quase 30 livros.

De “Inverno do Mundo”, lançado em 18 países, por ora só um erro foi registrado: o time de baseball de Washington no início do século 20 não era o atual Nationals, e sim um anterior que, embora se chamasse Washington Nationals a partir de 1905, era conhecido como Senators.

Como se vê, os leitores são implacáveis.

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