Mauricio Peixoto no Yahoo Notícias

A s lojas de compra e venda de livros usados, conhecidas como sebos, resistem bravamente à chegada dos e-books ao mercado brasileiro e à concorrência de grandes livrarias. O Centro concentra esse comércio tradicional, mas a Tijuca faz parte do roteiro dos fãs de “páginas amarelas”. A Caverna do Saber (que fica dentro da Livraria Eldorado, na Rua Conde de Bonfim 422), o Livreiro Saens Peña (em frente ao antigo Cine Carioca, na Rua das Flores) e a Livraria da Cultura (Rua Uruguai 268-B) são alguns dos locais mais visitados por quem prefere ler em páginas de papel e busca bons preços e exemplares raros nas estantes.

Ilson Perez, funcionário do Caverna do Saber, conta que o sebo, aberto há quatro anos, tem cerca de 20 mil livros, com preços que variam de um real a R$ 2.400. O exemplar mais caro da loja foi publicado em 1902. Escrito em francês por Paul de Musset, é intitulado “Viagem pitoresca à Itália” (em tradução livre). Uma outra relíquia do estabelecimento é “Rio de Janeiro: Formação e desenvolvimento da cidade”, encomendada pelo governo do estado em 1965 como parte das comemorações pelos 400 anos da cidade. Está à venda por R$ 300.

– Nós avaliamos o preço de um livro de acordo com sua raridade e importância. Mas fazemos promoções, oferecemos bons exemplares por um real, R$ 5 ou R$ 10 para ganhar clientela – informa Perez.

Segundo ele, os livros à venda em sebos têm algo nem sempre encontrado em exemplares novos: charme.

– Muitos têm lindas dedicatórias e trechos importantes sublinhados. Nós guardamos diversos objetos que achamos dentro dos exemplares, como fotos, dinheiro antigo e marcadores. Quem vai a um sebo namora os livros, sabe que não está num simples comércio – afirma Perez.

Cliente assíduo da loja, o ator Wal Schneider, morador da Tijuca, conduz um projeto social em Ramos e costuma comprar muitos livros sobre teatro para mostrá-los aos seus alunos.

– Encontro livros raros de cinema e teatro a preços em conta. Estou levando a coleção completa “Teatro vivo”, que a Editora Abril lançou em 1976. Há peças de todo o mundo, são obras fantásticas – comemora Schneider.

Morador de São Cristóvão, o aposentado Alfredo Sotto é outro frequentador assíduo dos sebos da Tijuca.

– Sou um amante dos livros de suspense. Estou colecionando as obras de Jack Higgins. Nas livrarias, um exemplar novo custa R$ 40; num sebo, pago R$ 15, menos da metade – diz Sotto.

Na Rua das Flores, funciona há dez anos o Livreiro Saens Peña. Atualmente com um acervo de cerca de 300 livros, o sebo tem uma raridade à venda por R$ 300: é “Ao som da viola”, de Gustavo Barroso, publicado em 1949. A obra conta a história da cultura popular brasileira.

Por funcionar a céu aberto numa área muito movimentada, o Livreiro Saens Peña chama a atenção de muita gente. O vendedor Amir Pereira conta que muitas pessoas ficam curiosas, param e acabam comprando algum exemplar.

– Temos clientes fiéis, mas boa parte das nossas vendas é feita para pedestres que, diante do sinal fechado, veem um livro que procuravam. Negociamos o preço na hora – informa Pereira.

Usado, mas bem conservado

Quando a palavra “sebo” vem à mente, muitas pessoas pensam num lugar antigo. Mas nem sempre é assim. Na Livraria da Cultura, assim como na Caverna do Saber e no Livreiro Saens Peña, a organização e a limpeza falam mais alto. Funcionando há quatro anos, a loja conta com um acervo de quase nove mil exemplares com preços que variam de um real a R$ 800.

– Nosso acervo é muito grande e, para ajudar os clientes nas pesquisas, separamos as obras por temas e autores – explica Vinícius Fernandes, dono da loja.

Ele revela seu método para evitar o envelhecimento dos livros:

– Para tirar o tom amarelado do papel, uso uma lixa. Limpo sempre as estantes e deixo os livros a pelo menos dez centímetros das paredes, permitindo que suas páginas “respirem”.

Na Livraria da Cultura também é possível encontrar exemplares novos.

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