Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Um fenômeno interessante perdurou por um ou dois dias em dezembro, quando a Amazon estreou no Brasil.

No primeiro lugar da lista de mais vendidos da loja virtual não estavam “50 Tons” nem “O Hobbit” nem nenhum título vendido a menos de R$ 5. Naquele glorioso período, o topo pertenceu a “Organizando a Vida com o Evernote”, de Vladimir Campos, vendido a cerca de R$ 15.

Pelo tema, um tanto restrito (Evernote é, grosso modo, um programa para guardar anotações on-line), o ocorrido já seria digno de nota, mesmo considerando que as vendas da Amazon não começaram tão expressivas no geral. Mas isso é só parte dessa história.


Eduardo Spohr, 36. Vendeu 4.500 cópias de seu livro de estreia, “A Batalha do Apocalipse”, antes de publicar o mesmo título pela Verus, onde já passou dos 400 mil.
Campos lançou o e-book de forma independente. Formatou-o sozinho, pôs nas lojas virtuais e divulgou na rede. Em um mês e meio, vendeu mais de 1.400 cópias. Esse é um retrato recente de um movimento tradicional que, no mundo todo, vem sendo impulsionado pelas facilidades da internet: o da autopublicação de autores.Mas é também, no que diz respeito ao Brasil, uma exceção. Enquanto nos EUA as listas de best-sellers andam dominadas pelos “self-published” –nomes como E.L. James e Amanda Hocking surgiram assim–, por aqui eles quase nunca passam das dezenas de cópias vendidas.Os números do Clube de Autores, um dos maiores sites de autopublicação do país, dão a dimensão da distância entre a iniciativa de se publicar e a glória literária.

O site foi criado em 2009 como uma plataforma em que, sem precisar pagar nada, qualquer um pode formatar seu livro e colocá-lo à venda, como e-book ou em papel –neste caso, para impressão sob demanda, feita a cada vez que alguém compra o livro.

Em menos de quatro anos, o Clube de Autores lançou 21 mil títulos. É mais de dez vezes o que a Record, a editora que mais publica no país, pôs no mercado no período.

TRANSTORNO

Obras de ficção e poesia são as mais recorrentes no site, mas o best-seller é um estudo do transtorno de personalidade limítrofe, “Sensibilidade à Flor da Pele”. Escrito pela tradutora Helena Polak, 68, vendeu cerca de 1.500 cópias em três anos.

“Meu objetivo nunca foi ganhar dinheiro. Só queria compartilhar o que aprendi, inclusive lendo títulos estrangeiros, depois de conviver com alguém que sofre do transtorno”, diz a autora.

Sites como o Clube de Autores e o mais recente PerSe –que tem cadastrados pouco mais de mil títulos– permitem ao autor escolher o quanto quer ganhar por unidade vendida. Se quiser ganhar R$ 5 a cada venda, por exemplo, o livro custará em torno de R$ 23 na PerSe.

Antes dos sites e da chegada dos livros digitais, quem quisesse bancar uma edição sozinho precisaria desembolsar uns milhares de reais.

Foi o que aconteceu com André Vianco, 38, o autor mais bem-sucedido do país dentre os que começaram como independentes. Em 2000, investiu R$ 8.000 na impressão da fantasia “Os Sete”.

“Precisei visitar cada livraria, convencer cada livreiro. Não existia nem Google direito para vender meu peixe.” Hoje Vianco é publicado por duas editoras, a Novo Século e a Rocco, e seus 13 livros já venderam 935 mil cópias.

O também autor de fantasia –gênero pródigo da autopublicação– Eduardo Spohr, 36, conheceu esse cenário num segundo momento.

Em 2007, depois de dois anos procurando editora para “A Batalha do Apocalipse”, imprimiu uma tiragem pequena por conta própria. Mas naquela época blogs especializados já eram fenômeno, e os leitores que o conheciam do Jovem Nerd garantiram a compra de 4.500 cópias.

A internet foi o caminho para a descoberta –a editora Verus, do grupo Record, logo notou o potencial. Reeditado em 2010, “A Batalha do Apocalipse” já teve 400 mil exemplares vendidos.

Foto: Ana Carolina Fernandes/Folhapress

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