Jeferson Bandeira, no Portal Cronópios

Cavalo de Troia

Da dor fez palavras. Congelada chaga em fingidas páginas. O infeliz, ao abrir o livro, sedento por antídoto, não mais escapa ao inexorável abismo.

Felicidade clandestina

Primeiro encontro, inesquecível. Opondo-se às amigas, passa escondida e afobada às estantes. Acuada, cola-o ao peito. De sôfrega a corada, exala o aroma da eterna descoberta.

Hipocondríaco

Só havia um remédio: suicidou-se.

Fé no amor

Num passe, baixou-lhe um espírito sinistro: o amante da mulher. Fez revelações assombrosas e únicas. Cético, largou a mediunidade.

Dia da caça

– Parado, ou eu atiro.
Pobre Cupido, não imaginava ser Hermes aquele homem transvestido.

Passagem

Dois olhos se apagam na terra. Brilha nova estrela no céu.

Grande cartada

Amapola descobriu os dentes de ouro da avó. Numa jogada de mestre, cobriu sua dívida de pó. Mês que vem estuda abrir o túmulo do avô.

ABC

Desejo de infância. No órfão vagar pelas agruras do destino, tropeça num surrado dicionário, obsoleto e desprovido do V. Atroz sina, nunca conceber o sentido da palavra vida.

Quase quixotesco

À noite, picava lençóis. Vencia, a bengaladas, o ventilador. Franzino, guardado pela sobrinha, Alonso amava novelas de cavalaria. Só não amaria uma Dulcineia. Odiava analogias.

Luar sem pouso

Nas temerosas noites de inverno, se envolvia em papelões e desprezados jornais. Tão branca, deitada naquela atmosfera negra e fria da calçada, fazia de ninho o colo do menino.

Multifuncional

Na identidade, masculino. No jeito de ser, feminino. No trabalho, o que o cliente pedisse.

*Micronarrativas do livro Agonias ilustradas

*Micronarrativas do livro Agonias ilustradas

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments