Milton Hatoum, no O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro, ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?

Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.

Por isso é melhor apagar nomes e números de telefone. Felizmente usei muito pouco a borracha: a imensa maioria dos amigos ainda está neste mundo. Alguns são tão jovens que parecem viver em outra era. Ou talvez seja o contrário: eu mesmo pertenço a um outro tempo.

Nas conversas com dois desses jovens, surgem estranhas expressões em inglês sobre jogos eletrônicos e complicadas redes virtuais; essas expressões se repetem até a saturação e não me dizem nada. Diante de tantas palavras desconhecidas, que aludem a um mundo virtual que também desconheço, só me resta o silêncio, nossa voz essencial, talvez a mais verdadeira. De qualquer modo, somos amigos, e quando lhes mostro um poema de Wallace Stevens, eles o leem com enfado, depois me olham com desconfiança, como se eu fosse um lunático. E enquanto eles se entusiasmam com redes virtuais e joguinhos barulhentos, eu continuo a conversar com um homem silencioso. Assim permanecemos amigos em nossos mundos cindidos, e vamos vivendo.

Na outra extremidade da ponte, os amigos longevos tampouco me abandonaram. Refiro-me a duas senhoras quase centenárias. A primeira, é a mulher que me alfabetizou e merece uma crônica à parte. A outra, Ludmila, foi minha professora no curso ginasial, e sua lucidez espantosa me surpreende e me humilha. Até hoje, examina meus escritos com lupa, e quando descobre um erro ou uma distração, me telefona a qualquer hora do dia ou da noite para dizer, com uma voz do além, que eu devia consultar um livro do gramático Said Ali antes de escrever barbaridades.

Ludmila nasceu antes de 1922. Nunca aceitou o tom coloquial dos escritores modernistas e condena o uso inadequado da próclise e de qualquer pronome oblíquo átono. Agora está enfezada com “esses conterrâneos que usam a segunda pessoa do singular com o verbo na terceira”.

Disse-lhe que esses erros de concordância já foram incorporados à fala popular, por isso são toleráveis, e até aceitos. Além disso, acrescentei, Machado de Assis já não escrevia como Camilo Castelo Branco nem como Eça de Queirós.

“Tu leste A Doida do Candal no meu colo, mas nenhum português diz ‘tu vai, tu fica, tu viu”, protestou Ludmila, com a mesma voz ríspida de 1965 ou 1964. “Essa forma bizarra dói-me os ouvidos. Daqui a pouco vão dizer que os cavalos cacarejam, as galinhas relincham, as onças crocitam e os corvos esturram.”

Disse que isso era possível na literatura, e também no sonho, que é a forma mais civilizada e mais livre de contar uma história sem escrever palavras. Depois perguntei, com ironia, se havia corvos em Manaus, nossa cidade amada.

“Há muitos”, ela respondeu. “Corvos que não crocitam nem esturram, mas roubam e mentem desde que eu nasci.”

Grande Ludmila: quase um século de vida e não perdeu a verve da revolta.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments