Peças centenárias, pergaminhos religiosos e manuscritos de autores célebres estão entre preciosidades do acervo

Publicado no Jornal A Crítica

Coleções de jornais locais contam nossa história desde 1864

                    Coleções de jornais locais contam nossa história desde 1864 (Márcio Silva )

Local de descobertas, pesquisas e de entretenimento, a Biblioteca Pública do Amazonas, com seu acervo de 345 mil volumes, guarda entre suas paredes e salas alguns dos maiores tesouros do patrimônio cultural e histórico do Estado como manuscritos de grandes autores brasileiros, pergaminhos religiosos do século 17, livros folheados a ouro, revistas nacionais e importadas com mais de 100 anos e uma coleção de jornais locais que contam nossa história de 1864 até os dias atuais.

Logo na entrada do prédio está o Salão Genesino Braga. O local abriga as coleções Amazoniana e de Obras Raras e Especiais com mais de nove mil itens catalogados, onde se destaca o Missal –  coletânea de preces e ritos eucarísticos católicos – confeccionado por monges copistas em mosteiros europeus no século 17. A peça, que atualmente está sendo restaurada pelos técnicos da Secretaria Estadual de Cultura, deverá ser exposta ao público nos próximos meses.

Escritos a mão

Outro destaque da coleção é o manuscrito do romance “Pureza”, do paraibano José Lins do Rego. Datado de 1937 (um ano antes do lançamento oficial) o livro escrito de próprio punho pelo autor é tido por especialistas e críticos literários como fundamental na transição entre os primeiros trabalhos de seu chamado Ciclo da Cana de Açúcar, iniciado com “Menino de engenho” (1932) e o célebre “Fogo morto” (1943).

Consagrado como um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos, Graciliano Ramos também está presente no acervo especial da biblioteca com seu manuscrito de “São Bernardo”, livro de 1934 que faz parte da trilogia “Angústia” (1936) e “Vidas secas” (1938), também denominada de Ciclo da Seca que marcou a 2ª Geração (1930-1945) do Modernismo.

Uma curiosidade sobre o manuscrito existente na Biblioteca Pública é que a assinatura do autor é de 1938, cerca de um ano após ser solto pela ditadura de Getúlio Vargas. A experiência do claustro e suas humilhações seriam relatadas em “Memórias do cárcere” que, assim como “Vidas secas”, foi publicado no mesmo ano.

Ensaio literário

As raridades de grandes mestres brasileiros no acervo público incluem ainda um ensaio de Gilberto Freyre intitulado “Falando de Euclides da Cunha”. No texto datilografado e cheio de notas e observações feitas a mão pelo escritor e sociólogo pernambucano, fica estabelecida, definitivamente, a relação entre o trabalho e o pensamento dos dois intelectuais, tendo o clássico de Euclides “Os sertões”, de 1902, influenciado fortemente o primeiro livro de Freyre, “Casa grande & senzala” (1933).

Acervo digitalizado

Dos mais de nove mil títulos que compõem o acervo de obras raras e especiais da Biblioteca Pública do Amazonas, 4.943 já foram digitalizados e em breve estarão totalmente disponíveis no site da Biblioteca Virtual do Amazonas e no acervo do Centro Cultural Povos da Amazônia para consulta, de acordo com chefe do Departamento de Gestão de Bibliotecas da Secretaria Estadual de Cultura, Sharles Silva da Costa.

“Ao mesmo tempo em que são raridades, são obras que pertencem a todos nós e por determinação do governador Omar Aziz de ampliar o acesso estas raridades, a meta é que até o final do ano a coleção completa esteja na Internet”, afirmou Sharles.

Por questões óbvias de segurança e preservação, as consultas aos materiais propriamente ditos são restritas a pesquisadores, universitários, estudantes e ao público em geral desde que comprovada, por meio de solicitação à direção da biblioteca, a necessidade de manuseio e utilização das obras.

A exemplo de todo o acervo da biblioteca, chips e detectores foram instalados nas portas e em diversos pontos do prédio para controlar a movimentação das obras que não estão disponíveis para empréstimo.

Dica da Meire Souza

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