Biblioteca Nacional criou programa de residência para tradutores

Biblioteca Nacional criou programa de residência para tradutores

Luís Guilherme Barrucho, na BBC Brasil

Recluso e avesso a entrevistas, o escritor brasileiro Rubem Fonseca compartilha com poucos suas intimidades literárias. Um de seus confidentes há pelo menos um quarto de século é o tradutor americano Clifford Landers, para quem o autor, além de reconhecidamente talentoso, é um ser humano “infalivelmente gracioso, acessível e generoso” com um “maravilhoso senso de humor”.

Os elogios rasgados permeiam uma relação de amizade que franqueou a Landers a tradução de quatro livros e duas coletâneas de pequenas estórias de Fonseca, além de ter dado o ponto de partida na versão anglófona de uma quinta obra do escritor brasileiro, sobre a qual o americano vem se debruçando nos últimos meses: o aclamado romance Agosto, que trata do suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954).

Daqui a poucas semanas, porém, o americano terá a oportunidade de reencontrar Fonseca, com quem mantém uma relação de amizade à distância, no Rio de Janeiro, onde o escritor mineiro escolheu se radicar há quase oito décadas.

Landers faz parte de um grupo de 15 tradutores, escolhidos após um rigoroso processo de seleção para participar do primeiro programa de residência a tradutores estrangeiros criado pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN).

Quatro deles já chegaram ao Brasil, enquanto o restante deve desembarcar no país até julho deste ano.
Em entrevista à BBC Brasil, a coordenadora do programa, Carolina Selvatici, explicou que o objetivo da iniciativa é aprimorar a tradução das obras brasileiras, tanto clássicas quanto contemporâneas, além de promover a literatura nacional no exterior.

O americano Clifford Landers é amigo pessoal do escritor Rubem Fonseca há 25 anos

O americano Clifford Landers é amigo pessoal do escritor Rubem Fonseca há 25 anos

“A partir de uma imersão in loco no universo do autor, os tradutores têm a oportunidade de aprofundar seu contato com a obra e isso se reflete no aprimoramento da tradução”, diz.

“Além disso, muitos desses tradutores funcionam como verdadeiros promotores da literatura brasileira no exterior, pois muitas editoras não têm acesso a livros escritos em português, sobretudo os mais recentes”, acrescenta.

As obras, das mais diferentes matizes literárias, serão vertidas do português para seis idiomas: cinco para o espanhol, quatro para o francês, dois para o inglês, dois para o italiano, um para o alemão e um para o grego.

Além da imersão no universo das obras traduzidas, também estão previstos encontros entre os tradutores e autores dos livros.

Programa

Subsidiado por um orçamento de R$ 154 mil do Ministério da Cultura, o programa, que tem duração mínima de cinco semanas, financia a estadia dos tradutores em três cidades-sedes: Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis, e conta com o apoio de centros linguísticos locais.

O espanhol Pere Comellas destacou a importância da vinda ao Brasil

O espanhol Pere Comellas destacou a importância da vinda ao Brasil

Para cobrir as despesas com passagens aéreas, transporte, hospedagem e alimentações, cada um dos 15 tradutores recebeu uma bolsa que varia de R$ 7 mil a R$ 11 mil e poderão viajar para outros locais do Brasil, mas obrigatoriamente, terão de passar por uma das três cidades-sedes para assistir a um ciclo de palestras nas instituições parceiras da Biblioteca Nacional.

Segundo Selvatici, a comissão julgadora, formada por cinco pessoas, entre membros da FBN e das instituições parceiras, recebeu inscrições de 18 tradutores, das quais selecionou 15.

Como pré-requisito para concorrer ao programa, os tradutores tiveram que propor obras que já tinham começado a traduzir – e que estavam, portanto, com lançamento previsto por alguma editora no exterior.

Ao todo, são 14 livros, uma vez que dois tradutores estão traduzindo a mesma obra: O Arquipélago, de Érico Veríssimo, devido à sua complexidade.

Entre os critérios analisados, avaliou-se, entre outros fatores, a dificuldade linguística da tradução, o currículo do tradutor, a relevância da obra para a promoção e divulgação da cultura e da literatura brasileira no exterior e o plano de trabalho e a pesquisa necessária para a conclusão do projeto.

Benefícios

Para os tradutores, a experiência in loco traz inúmeras vantagens. Uma delas, segundo o espanhol Pere Comellas, que está traduzindo a quatro mãos O Arquipélago, de Érico Veríssimo (1905-1975), é a oportunidade de ter um contato único com a cultura da obra traduzida.

“A formação do tradutor está intrinsecamente ligada ao conhecimento enciclopédico das gírias. Por isso, nada substitui o impacto prático de poder vivenciar parte do universo do autor”, afirma ele, que tem no currículo traduções para o espanhol de obras do brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011) e do angolano José Eduardo Agualusa.

Já Dominique Nédellec, escolhido para verter ao francês O Diário da Queda, de Michel Laub (Companhia das Letras, 152 páginas) destaca a importância de poder encontrar pessoalmente o autor.

“Já marcamos de nos encontrar em Porto Alegre, onde parte da história se passa. Vou aproveitar para tirar dúvidas e entender melhor o contexto em que o livro foi escrito”, diz.

Livros a traduzir

Quinze tradutores traduzirão 14 obras brasileiras para seus idiomas nativos. São elas:
Cartas de um sedutor, de Hilda Hilst
A mulher dos sonhos, de Aleilton Fonseca
Agosto, de Rubem Fonseca
A vida como ela é, de Nelson Rodrigues
O Diário da Queda, de Michel Laub
Lotte & Zweig, de Deonísio da Silva
Antologia de Poesia Brasileira Vol. 1 (vários autores)
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre
Fogo Morto, de José Lins do Rego
O Arquipélago, de Érico Veríssimo
Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo
A Obscena Senhora D., de Hilda Hilst
A guerra dos bastardos, de Ana Paula Maia

Dúvidas

Foi o que fez a tradutora alemã Wanda Jakob durante os bate-papos que teve com a autora Ana Paula Maia, de quem traduz A guerra dos bastardos (Língua Geral, 298 páginas), romance com verve existencialista pródigo em gírias urbanas.

Desde janeiro no Brasil, Jakob, que se dedica a traduzir autores brasileiros contemporâneos, conta que uma palavra lhe tem tirado o sono.

Jacob relatou as dificuldades da tradução do português para o alemão

Jacob relatou as dificuldades da tradução do português para o alemão

“Ainda não consegui encontrar uma boa tradução para ‘céu da boca’ em alemão que seja realmente representativa do que a palavra significa”, disse.

“As palavras em alemão também são maiores do que no português. Encurtar o texto sem prejudicar a mensagem e o entendimento do leitor é um desafio constante”, acrescenta.

Algo semelhante ocorreu nos contatos via e-mail entre o jornalista brasileiro Edney Silvestre e o britânico Nicholas Caistor, tradutor para o inglês de seu romance de estreia, Se eu Fechar os Olhos Agora (Record, 304 páginas).

“Ele me pediu mais esclarecimentos sobre como poderia traduzir palavras como ‘moleque’, ‘laje’ e ‘frentista'”, diz o jornalista à BBC Brasil.

Para Landers, entretanto, nenhum benefício pessoal proporcionado pelo programa será maior do que o impacto que ele poderá propiciar a seus leitores.

“Espero que com a iniciativa, que inclui uma série de palestras, eu possa abrir novos canais de comunicação entre os brasileiros e os anglófonos, de forma a melhorar o entendimento e a divulgação de ambas as culturas”.

Além do programa de residência a tradutores, a Biblioteca Nacional também investe em outras frentes. Uma delas é a concessão de bolsas de até a US$ 8 mil (R$ 16 mil) para a tradução de obras brasileiras no exterior.

Desde 1991, 400 bolsas já foram concedidas.

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