Confraternizações de alunos dão lugar a concorridas festas de arromba, que chegam a custar R$ 800 mil

Nos medaeventos, a bebidaé liberada, e uma ambulância fica de prontidão para quem se exceder Reprodução

Nos medaeventos, a bebidaé liberada, e uma ambulância fica de prontidão para quem se exceder Reprodução

Catharina Wrede, em O Globo

Até o fim de 2013, os alunos do terceiro ano do ensino médio do Colégio Santo Inácio (CSI) vão pagar R$ 3 mil cada um para custear a festa de formatura, em dezembro. Ao todo, são 230 jovens. O total (R$ 690 mil), porém, não é suficiente, por isso ao longo do ano, eles vão organizar duas outras noitadas para arrecadar mais R$ 110 mil. A exorbitante cifra de R$ 800 mil — o valor de um apartamento de dois quartos em Copacabana — será usada para produzir uma festança de proporções nababescas para três mil pessoas.

Eles não estão sós. Nos últimos anos, os formandos das mais tradicionais escolas do Rio transformaram o que seria o fim de um ciclo em megaeventos disputadíssimos, cuja qualidade é medida pelo que a grana torrada em uma única noite pode pagar.

— O preço aumenta a cada ano porque impressionar o público ficou cada vez mais difícil — diz M. P., de 17 anos, da comissão de formatura deste ano do colégio PH de Ipanema, cuja festa está orçada em R$ 633.600.

Hoje, uma festa de formatura que se preze precisa ter, no mínimo, cinco atrações. Todas brasileiras? Claro que não. Além de pratas da casa como os funkeiros MC Catra, Valeska Popozuda e Anitta, e dos DJs nacionais queridinhos dos adolescentes (Tomás Troia, Johnny Glövez, Ask2Quit e OMG), o negócio só fica bom mesmo se tiver alguma estrela internacional das carrapetas. De preferência, que toque em Ibiza.

Só no ano passado, vieram ao Rio para formaturas DJs como o português Pete Tha Zouk (CSI), o espanhol Sak Noel (Santo Agostinho do Leblon), e o americano Sex Panther (Santo Agostinho da Barra).

— As formaturas são as melhores festas do ano hoje em dia — afirma A. M., de 16 anos, que se forma este ano no Teresiano. — Tem tudo: DJ internacional, seus amigos, bebida liberada… porque não existe formatura sem bebida.

Pais veem distorção

De fato não existe. Além de champanhe Veuve Cliquot, vodka Belvedere e uísque Johnny Walker Green Label, o pacote etílico inclui ambulâncias para casos de coma alcoólico. No banquete, quitutes da Koni Store e do picolé Itália — ano passado, o CSI gastou R$ 15 mil só em Kinder Ovo. Para o café da manhã, Domino’s Pizza, com direito a motoqueiro entrando no palco. Na festa de 2012 do Santo Inácio, a pizzaria mobilizou quatro lojas e fez 750 pizzas. As fornadas tomaram a madrugada inteira.

— Hoje, esse mercado representa 50% do nosso faturamento anual — conta Gustavo Mendes, sócio da Koni Store.

Por trás dos megaeventos, quase sempre está o mesmo nome: a Formaideal Obah!. Preferida entre os formandos, a empresa abocanhou o mercado de formaturas, rebatizando-as de “galas”. Bruno Guedes, um dos sócios, conta que a gala do PH Barra em 2008, no Morro da Urca, foi um marco. Segundo ele, o evento foi “sucesso, explosão, sensação”:

— O lema da nossa empresa é: pode tudo. Mas a gente explica os valores. Os meninos contratam a gente para realizar um sonho. E a gente tem que dizer quanto custa esse sonho.

Em vídeos das festas da Formaideal Obah!, os formandos aparecem extasiados, proferindo ao microfone frases como: “É pegação total”; “Já perdi tudo, menos a dignidade”, e “Você já viu uma formatura igual a essa?!”.
Do outro lado estão os pais, já que a direção dos colégios não se envolve nas festas.

— Houve uma distorção tanto da parte financeira quanto da social. Não é mais uma confraternização entre alunos. São eventos alienatórios — diz Angela Maia Ohanian, mãe de uma aluna do Teresiano. — Acho que 80% dos pais acharam (o valor) exagerado.

Pela primeira vez, os pais do CSI criaram uma comissão este ano. A ideia é acompanhar as decisões. Se vão cortar os excessos, bem, isso é outra história.

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