Gilvan Ribeiro fala sobre os desafios de fazer a biografia do ex-jogador

Gilvan Ribeiro fala sobre os desafios de fazer a biografia do ex-jogador

Luis Augusto Símon, no UOL

O jornalista Gilvan Ribeiro vai lançar no dia 9 de abril a biografia de Casagrande, chamada “Casagrande e seus demônios”. Amigos de longa data, eles travaram um duelo de vontades até que o livro saísse. Houve momentos em que Casagrande estava entusiasmado e, em outros, sentia um certo receio por tanta exposição. “Quando a gente conversava, tudo bem, mas agora que está no papel, fica complicado”, disse algumas vezes. Houve outras vezes em que Gilvan irritou-se com a falta de disciplina do biografado.

Na fase final, quando deveria colocar tudo no papel, Gilvan conseguiu um afastamento não remunerado de três meses no Diário de S.Paulo, onde é editor de Esportes. “Foi um tempo para escrever, mas tive problemas familiares com as operações de minha mãe e de meu filho. Então, quando faltava um mês, fui para um chalé em uma praia deserta e me disciplinei. Acordava cedo, tomava café, andava na praia, dava um mergulho e trabalhava até a noite.”

E o livro saiu. Na entrevista abaixo, Gilvan fala sobre alguns capítulos, que misturam brincadeiras infantis, futebol, Telê Santana, cocaína, heroína, Dops, o demônio Belias e seus 71 companheiros e a redenção do cidadão Walter Casagrande Jr.

Por que o Casagrande resolveu se expor tanto?

Ele era muito amigo do Marcelo Frommer, músico dos Titãs, que morreu atropelado. O Marcelo queria fazer um livro contando a vida dele e eles se reuniram muitas vezes, havia muitas fitas gravadas. Um dia, a gente estava almoçando e ele falou sobre a ideia e perguntou se eu queria fazer. Topei, mas falei que ele precisaria de disciplina. O Casagrande queria que a gente aproveitasse as fitas, mas estava difícil recuperá-las. Então, eu o convenci a falar tudo de novo. Houve muitos contratempos, tivemos várias discussões, mas enfim o livro saiu. Eu acho que ele queria resgatar um projeto que começou devido a amizade dele com o Frommer e também porque queria contar a história da vida dele. É uma historia incrível, daria para fazer um livro muito maior.

O livro fala sobre a luta contra as drogas?
É o primeiro capítulo. Tem a ver com o título do livro, “Casagrande e seus demônios”. Em 2006, ele, por curiosidade intelectual, estava estudando os demônios bíblicos. São 72 e o Rei Salomão os aprisionou em um vaso de cobre e os jogou no Rio Babilônia. Muitos homens, pensando que era um tesouro, pularam no rio e abriram o vaso, soltando, involuntariamente os demônios. Salomão aprisionou todos novamente, menos o mais importante deles, que se chama Belial. Foi com eles que Casagrande convivia.

Eram alucinações?
Sim, entrou em surto psicótico. Era um período em que ele estava usando muitas drogas. Injetava heroína e cocaína. Ficou preso em seu apartamento por um mês e, nos últimos dez dias, não dormiu nem se alimentou. Estava muito fraco. E começou a ver os demônios que estava estudando. Sentava no sofá e um deles estava lá. Disfarçadamente, ia para a cozinha e…lá estava outro. Foi muito duro. Ele sofreu muito.

Eu descrevi assim: “Magro de assustar, usava o cinto com furos adicionais, cada vez mais próximos da outra extremidade para segurar a calça na linha de cintura, e exibia as maçãs do rosto proeminentes, ressaltadas por bochechas chupadas para dentro. A sua figura esquálida e os olhos fundos, com as pupilas dilatadas, agora demonstravam só fragilidade. E medo”.

Ele entrou em surto psicótico. Era um período em que ele estava usando muitas drogas. Injetava heroína e cocaína

E o que ele fez contra os demônios?

Ele ligava para a mãe e para o pai, durante a noite, e não falava nada. Eles ouviam o telefone, atendiam e do outro lado somente a respiração do filho. O Casão estava travado, não conseguia falar. Um dia, rompeu o silêncio. Disse que estava precisando de ajuda. A mãe levou um padre para benzer o apartamento. Ele tem certa rejeição à Igreja Católica, principalmente por causa da Inquisição e do viés conservador, mas aceitou que o apartamento fosse benzido. Precisava de ajuda. Mas não adiantou.

E então?
Tentou se mudar para um hotel e, é claro, não adiantou nada. Os demônios foram junto. Foi então que aconteceu o acidente de carro. Ele deixou o hotel e, sem dormir há muito tempo e sem se alimentar, estava fraco e sem reflexos. Dormiu ao volante e o carro capotou. Ele se levantou e conseguiu escapar. Só não morreu porque é um atleta, é um cavalo de forte.

Ele foi para a Copa da Alemanha e na volta é que teve a recaída forte. A Globo conseguiu que nada vazasse. No afastamento maior, de um ano, isso não foi possível, mas houve muita discrição. Pagaram todo o tratamento

Então, ele resolveu se internar?
Não foi bem assim. Precisou ser internado involuntariamente pelo filho mais velho, Victor Hugo. Ele convenceu a mãe do Casagrande, que estava muito relutante, a também assinar o documento.

E como foi a Globo em relação às drogas?
O Casagrande é muito agradecido a eles. Antes desse período em que ficou preso no apartamento, ele havia tido uma overdose, que o tirou do trabalho por um mês. Ele foi para a Copa da Alemanha e na volta é que teve a recaída forte. A Globo conseguiu que nada vazasse. No afastamento maior, de um ano, isso não foi possível, mas houve muita discrição. Pagaram todo o tratamento.

E hoje, você vê o Casagrande pronto para novos voos profissionais?
Bom, ele já recuperou a posição dele na principal rede de televisão do Brasil. Cobriu o Mundial Interclubes, onde o lado torcedor aflorou. Se emocionou bastante. Mas ele sabe que é um dependente químico e que a luta é cotidiana.

Ele frequenta alguma associação de dependentes?
Não, mas se consulta uma vez por semana com uma psiquiatra. E trabalha com três acompanhantes terapêuticas, que se revezam. Elas o acompanham ao banco, aos restaurantes, sempre está com uma delas.

E a parte política de Casagrande?
Eu trato disso também. Fui com ele até o Arquivo do Estado e recuperamos a sua ficha no Dops. Não há nada de criminoso ali, mas fizemos questão de publicar um dos relatórios para que se visse como tudo aquilo era um absurdo. Houve um dia em que, pela manhã, teve um jogo no Parque São Jorge de artistas contra os jogadores do Corinthians, em prol da democratização do país. Gonzaguinha, Fagner, Toquinho estavam lá, entre outros. E, de noite, houve um show para arrecadar fundos para a campanha do Lula para governador. Era 1982.

Então, um agente do Dops acompanhou o jogo e outro viu o show. Não há nada demais relatado. Apenas a descrição de quem estava no jogo e do que se falou no show, quais artistas e jogadores participaram. Tudo era tratado como ação subversiva. O Casagrande também é citado, num outro documento, por haver assinado um manifesto contra o racismo, imagina só.

O livro parece denso, não?
Creio que sim, ele não tem a pretensão de esgotar a história do Casagrande, principalmente porque ele está vivo e ela ainda não terminou. Não é feito em ordem cronológica, mas o final de cada capítulo remete ao seguinte. É tortuoso, mas consegui achar todos esses “ganchos”. Acho que ficou interessante. Tem a parte alegre, um capítulo chamado Pegadinhas do Casão, que conta coisas da juventude dele.

Um exemplo?
O Casão e seus amigos da Penha têm um humor muito parecido com o daquele filme “Quinteto Irreverente”, conhece? O filme conta a vida de cinco caras que só pensam em sacanear os outros. Um dos casos é assim: o cara vai até o cemitério e vê um viúvo deixando flores no túmulo da esposa. Então, ele chega também, começa a chorar e diz para o viúvo que tinha muita inveja dele. Que a falecida o amava de verdade, sempre falava bem dele e, quando o viúvo já intrigado pergunta quem é ele, responde: “Não sou ninguém, sou só o amante. Comigo era só sexo, mas ela te amava muito”. E o viúvo, italiano, começa a gritar putana, putana…. O Casão fez algo assim.

Como foi?
Ele participou de uma pornochanchada e arrumou um papel de figurante para um amigo dele, o Marquinho. E o cara se apaixonou por Acácia, uma das atrizes. Foi contente contar para o Casagrande, que fez uma cara de quem não aprovava. Marquinho se frustrou: “Pensei que você fosse gostar, pô”. Mas o Casão disse que ela era uma atriz pornô, coisa e tal.

Marquinho argumentou que Acácia não fazia cenas de sexo explícito, insistiu no namoro e passou a ser vítima de brincadeiras sacanas de Casão e Magrão, outro amigo inseparável da Penha. Um dia, os três foram almoçar no Grupo Sérgio, que tinha uma clientela tradicional, bem familiar, de classe média. Então começou um diálogo mais ou menos assim:

Casagrande – Estou numa situação complicada, com um dilema: se você, Marquinho, soubesse que a mina de um amigo seu o traía, você contaria pra ele?
Marquinho – Eu não falaria, não. Às vezes, o cara pode até ficar com bronca de você.
Casagrande – Mesmo se fosse um grande parceiro, você não contaria?
Marquinho – Não, não diria nada.
Casão – Mas… e se fosse assim como um irmão?
Marquinho – Nãooo, pô, já disse. Aonde você quer chegar?
Casão – Ah… e se você tivesse comido a mina do seu melhor amigo?

Depois de um silêncio tenso no ar, Casão voltou à carga:
E se eu lhe disser que eu transei com a sua namorada…

Nem deu tempo de terminar a frase. Marquinho subiu na mesa e provocou tumulto no Grupo Sérgio. Ele foi para o carro, quis ir embora sozinho, mas Casagrande e Magrão entraram atrás. No caminho, a gozação continuou. Casagrande perguntou a Magrão como era o nome de uma música famosa de Sidney Magal e, em vez de cigana Sandra Rosa Madalena, ele falou pilantra Acácia Rosa Madalena.

Muito irritado, Marquinho puxou o breque de mão e o carro deu um cavalo de pau. Quase bateu. Então, o motorista falou que só levaria os dois para casa se não abrissem mais as boca.

Passado uns dias, Magrão foi procurar Casagrande e falou que havia brigado com Acácia. “Perdeu uma princesa”, disse Casão. “Como, uma princesa, você falou que ela fazia pornô!”, gritou Marquinho. “Falei brincando, você tem cabeça fraca, acredita em tudo”, disparou Casão.
“Mas por que não me contou depois?”, questionou. “Mas você falou que o assunto estava morto e não podíamos falar mais nada…”.

E o Casagrande na seleção?

Tem um capítulo sobre isso que mostra a relação conflituosa que teve com o Telê. Nas Eliminatórias para a Copa de 86, o ataque era Renato Gaúcho, Casagrande e Éder. Estava muito bem, mas os três se desgastaram muito com Telê, que cobrava muito. Era uma coisa extrema, de falar não enche o saco e de gritos. Houve um jogo em que Eder deu uma cotovelada em um peruano e ele foi cortado. Renato Gaúcho foi punido pelo Telê por fugir da concentração e também ficou fora da Copa.

Casagrande tem certeza que também não foi cortado porque se cuidou e teve um comportamento espetacular. Além disso, uma enquete com jornalistas apontou ele, Zico e Leandro como insubstituíveis. Depois, nos treinos, irritou-se muito quando Telê o tirou do time titular para colocar o Zico que estava se recuperando de uma contusa. Não pelo Zico, que é um ídolo do Casão, mas por serem de posições diferentes. O Casagrande achava que o Telê o estava testando muito, exigindo muito sempre. E ele acha também que treinou e excesso, até no Carnaval e que por isso virou o fio. Ficou na reserva do Muller e do Careca.

O Casão e seus amigos da Penha têm um humor parecido com o filme “Quinteto Irreverente”. O filme conta a vida de cinco caras que só pensam em sacanear

Em livro, Casagrande relata luta para se livrar das drogas

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A partir da próxima segunda-feira será possível conhecer detalhes da luta enfrentada pelo ex-jogador e atual comentarista da TV Globo Walter Casagrande. O dia marca o lançamento do livro “Casagrande e Seus Demônios” (Globo Livros; 248 páginas), escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro, editor de esportes do jornal Diário de S. Paulo.

Na obra, Casão, como é chamado pelos amigos, conta o calvário que sofreu com as drogas, histórias do seu tratamento e a sua recuperação, que segue até hoje com a ajuda de psicólogos.

Na edição deste final de semana, a revista Veja traz trechos inéditos do livro. No quinto capítulo da obra há detalhes sobre o período em que Casagrande permaneceu internado. Durante sete meses, ele ficou sem ter nenhum contato com amigos e familiares.

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