Empresa que aluga livros universitários com desconto negocia o seu primeiro aporte e prepara expansão

Ligia Aguilhar, no Estadão

O empreendedor Marcus Teixeira, de 24 anos, viveu uma situação clássica entre os estudantes universitários: ao longo do curso, se viu às voltas com a falta de dinheiro para comprar alguns livros e, ao terminar a graduação em Relações Internacionais, em meados de 2012, concluiu que muitas das publicações que adquiriu tratavam de assuntos com os quais não pretendia mais lidar na sua vida profissional.

O fundador da GoBooks, Marcus Teixeira, planeja a expansão da startup. FOTO: Divulgação

O fundador da GoBooks, Marcus Teixeira, planeja a expansão da startup. FOTO: Divulgação

Esse gasto desnecessário ficou martelando na cabeça de Teixeira até se transformar na premissa para o desenvolvimento de um negócio poucos meses depois. Ex-funcionário da aceleradora carioca 21212, Teixeira mergulhou no mundo do empreendedorismo, conheceu no local de trabalho seu futuro sócio – o engenheiro da computação Vitor Oliveira, 26 anos –, e identificou uma oportunidade no mercado para criar uma empresa de aluguel de livros universitários.

Em novembro do ano passado, entrou no ar a página-teste da GoBooks, que hoje não apenas aluga, mas também vende livros universitários no Rio de Janeiro. Funciona assim: o usuário entra no site, escolhe o livro desejado e faz o aluguel por um preço que, segundo o fundador, chega a ser 80% mais barato do que o valor de capa. O pagamento é concluído pelo Moip ou pelo PayPal e o livro é entregue no endereço indicado. No geral, o estudante pode permanecer com os itens alugados até o fim do semestre e, para facilitar a devolução, a empresa instalou pontos de coleta dentro das principais universidades cariocas. “Em duas semanas, tivemos mais de dez mil visualizações na página e recebemos e-mails de 2,5 mil estudantes interessados”, afirma Teixeira.

O projeto acabou selecionado para participar do programa de aceleração da 21212, onde o modelo de negócio foi aprimorado. “Aprendi uma metodologia e desenvolvi tudo na aceleradora. Lá, tive acesso a empresários de sucesso que provavelmente eu não teria facilidade de encontrar fora. A aceleradora foi um porto seguro”, diz.

Para criar o acervo da GoBooks, Teixeira e o sócio fizeram uma pesquisa com estudantes das principais universidades do Rio de Janeiro para saber quais eram os livros mais utilizados em cada curso de graduação. Atualmente, o site tem 120 títulos dos cursos de Administração, Economia, Engenharia e Medicina. O plano é expandir o acervo, o número de cursos atendidos e a área de atuação da empresa para todo o sudeste até o fim deste ano. Para isso, a GoBooks precisa de investimento. Os empreendedores dizem já estar em fase final de negociação com um fundo para iniciar a nova fase, que culmina com a graduação da empresa na aceleradora. Teixeira está otimista. Vai mudar para um escritório que – ressalta – já pertenceu ao Peixe Urbano. E onde espera, quem sabe, crescer tanto quanto os antigos donos.

Inspiração

A referência do modelo de negócio dos empreendedores é o site norte-americano Chegg, que faturou mais de US$ 200 milhões em 2011. O site começou alugando livros em papel, em 2007, inspirado no modelo de negócio da Netflix. Depois passou a vendê-los e, hoje, também trabalha com o aluguel de livros digitais.

O site da GoBooks foi reformulado recentemente. FOTO: Reprodução

O site da GoBooks foi reformulado recentemente. FOTO: Reprodução

Grandes varejistas como a Amazon também entraram no mercado de aluguel de livros nos Estados Unidos, neste caso, com as versões digitais. Algumas bibliotecas americanas já permitem o empréstimo de livros nos e-readers. Isso levou o segmento a enfrentar dilemas semelhantes aos vividos pelo mercado fonográfico. Algumas editoras se recusam a fornecer livros para bibliotecas e empresas que se dispõem a fazer o empréstimo das publicações, enquanto outras querem limitar o número de vezes que um livro pode ser emprestado, baseados no tempo de vida de um exemplar em papel. Tudo isso por conta dos direitos autorais.

No Brasil, a GoBooks usa a seu favor o argumento de que o aluguel é melhor para as editoras do que a fotocópia de trechos dos livros, prática comum entre os estudantes que não querem gastar com o livro original. ”Nós mostramos para as editoras que estamos criando um novo mercado e que ele é benéfico, porque é um espaço que elas sempre perderam para as cópias”, afirma Teixeira, que já fechou algumas parcerias, mas ainda enfrenta resistência de alguns selos. “Elas olham com medo por causa do que aconteceu com o mercado fonográfico”, diz.

A GoBooks trabalha com um modelo semelhante ao das livrarias. Os títulos são comprados em consignação para venda, enquanto alguns exemplares vão para aluguel. A startup também compra livros usados de estudantes, que antes tinham apenas os sebos como opção. Para garantir a qualidade, todos os livros alugados têm, obrigatoriamente, que ser exemplares da última edição. O ciclo de vida é curto – cada unidade pode ser alugada no máximo 3 vezes.

Para garantir a sustentabilidade do modelo, a empresa já organiza projetos para promover a doação dos livros que não forem mais usados. Pelos cálculos dos empreendedores, o aluguel de livros no Brasil é um mercado de R$ 2,9 bilhões – o cálculo é baseado no gasto de R$ 1,2 mil por estudante ao ano com a compra de livros universitários.

Atualmente, a GoBooks tem 5 mil usuários cadastrados. O desafio no curto prazo é escalar o modelo para cumprir a meta de chegar a outras regiões. Desafio maior do que esse só a concorrência de peso que pode surgir no futuro, se players como a Amazon, por exemplo, que possui operação no Brasil, decidirem replicar o serviço de aluguel de livros digitais no Brasil. A GoBooks planeja entrar no mercado de livros digitais em até três anos. “O Brasil tem algumas particularidades. Uma pessoa que presta concurso público não quer mais ver os livros de estudo depois que for aprovada em um exame. Há também um grande potencial com livros do ensino médio. O aluguel é só a ponta do iceberg. A Chegg tem patrocínios de bolsas e outras funcionalidades hoje. Há muito o que ser explorado”, conta Teixeira.

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