João Montanaro, desenhista que despontou aos 14 anos, agora cria histórias sobre as dificuldades e aspirações de sua geração às vésperas do vestibular

Autorretrato do artista, que publicou o primeiro livro aos 14 anos, e, abaixo, uma tirinha Divulgação

Autorretrato do artista, que publicou o primeiro livro aos 14 anos, e, abaixo, uma tirinha Divulgação

Mateus Campos, em O Globo

RIO – Em um quarto escuro, dois adolescentes decididos a vender as próprias almas evocam uma criatura mágica. Quando perguntados do que querem em troca, um pede uma prosaica barba enquanto outro vai muito mais longe e diz desejar a “igualdade entre as classes sociais e a liberdade sexual para todo cidadão de bem”. Assustado, o monstro hesita: “Por que não fazem a droga de um pedido pra alguém dessa idade? Faculdade, carros… mulheres”.

A cena descrita acima faz parte do roteiro de “Barganha”, história que João Montanaro inscreveu na próxima edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ), em novembro. As respostas, contudo, poderiam ter saído da boca do autor. Não por coincidência, o quadrinista de São Paulo está prestes a completar 17 anos, idade dos personagens da trama. E não esconde que as dúvidas, dificuldades e aspirações dessa fase da vida estão presentes no próprio trabalho.

— As pessoas da minha idade levam coisas como o vestibular muito a sério. Eu queria retratar esse medo do futuro que a minha geração tem. A ideia da história surgiu assim. Se o Diabo realmente comprasse almas, os adolescentes seriam um ótimo nicho — diz, aos risos.

Os desenhos de João começaram a chamar a atenção em 2010, quando ele era um garoto de 14 anos. No mesmo ano, publicou “Cócegas no raciocínio” (Garimpo Editorial) e passou a desenhar para jornais e revistas. De pronto, a recepção foi positiva. Os quadrinistas mais velhos o adotaram e a imprensa o transformou em menino prodígio do gênero. O veterano colega Arnaldo Branco, cartunista do GLOBO, lembra que há precedentes: Millôr Fernandes começou aos 12 anos, e Angeli já publicava aos 15:

— Percepção é algo que você pode desenvolver, mas certas pessoas já vêm de fábrica com o chip. É o caso do João, que tem uma noção da realidade que muitos passam a vida sem ter.

Três anos depois, o menino passa por um processo de afirmação e amadurecimento. Além das charges políticas que faz semanalmente para a “Folha de S.Paulo”, João publica desenhos mais experimentais em seu Tumblr. Trabalho, segundo ele, não falta. O garoto ainda produz quadrinhos para a revista “Recreio” e para o site Omelete.

Tímido, João conta que não gosta muito de sair à noite, mas garante ter hábitos de um adolescente típico. Apesar da notoriedade entre os pares, conta que não é o mais conhecido da escola. E que o “sucesso” não mudou muita coisa em sua vida.

— Acho que, quando era criança, comecei a desenhar pra me mostrar pras meninas. Não sabia jogar bola, então tinha que conseguir atenção de algum jeito, né? Mas hoje vejo que quebrei a cara, deveria estar fazendo vídeos para o YouTube — ironiza.

Cursando o 3º ano do ensino médio, o quadrinista tem uma certeza: não pretende estudar nada que se relacione com desenho. Não quer que os bancos da universidade restrinjam o estilo que ele tenta desenvolver. Fã de João, o quadrinista do GLOBO André Dahmer identifica uma transição em seu trabalho.

— O João está amadurecendo muito rápido. Ele é diferente dos outros meninos e sabe disso. Não vamos colocar esse manto pesado de gênio nele, porque ele não merece carregar isso. Mas tem muita vocação. Boto todas as minhas fichas nele — diz.

Modesto, João minimiza os elogios:

— Devo estar fingindo muito bem, porque não sou tão genial assim. Tenho facilidade pra desenhar e isso me dá prazer. É uma coisa que sempre busco fazer bem, e ponto. Não gosto quando me chamam de gênio. Gênio é o Laerte — responde.

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