Alessandro Martins, no Livros e Afins

Procurava alguns elementos para ir adiante no texto em que o Paulo tenta responder à eterna pergunta: por que, afinal, lemos?

Buscava alguma palavra de Borges que me desse uma luz, que mostrasse algo à frente no escuro caminho de lugares comuns que ora preparo.

Afinal, um dos maiores escritores que já tivemos por aí não cansava de dizer que sua maior ambição era ser um bom leitor tão somente.

Atirei no que vi. Acertei no que não vi.

Encontrei um texto José Nêumanne em que ele descreve seu encontro com Borges.

Achava que a invenção de Gutenberg era uma das maiores responsáveis pelo “emburrecimento” da humanidade. Ele gostaria de ter vivido no tempo dos copistas, aqueles monges medievais que anotavam com sua caligrafia bem desenhada os textos que seus colegas de claustro teriam de ler. O trabalho penoso dos copistas funcionava como um rigoroso sistema de controle de qualidade, a seu ver. A facilidade da publicação de textos impressos por tipos móveis o irritava: “Veja o que ocorre por causa da imprensa: imprime-se qualquer porcaria. Qualquer idiota escreve qualquer coisa. Você não acha isso um horror?”, perguntou-me, quase exigindo a confirmação. Claro que concordei – logo eu, pobre de mim, que vivo do que imprimo.

Claro que se, por um lado, o livro democratizou a manifestação da burrice pelo lado da produção, também tornou acessível a inteligência pelo lado do consumo.

Afinal, sem ele não conheceríamos Shakespeare ou Homero ou seja lá qual for o seu escritor preferido.

(publicado originalmente em 27 de janeiro de 2008)

Talvez eu nem conhecesse Borges. Podemos dar a essa declaração a licença do exagero didático, apesar de sua boa dose de verdade.

De qualquer forma, recomendo a leitura integral desse texto que ajuda a conhecer um pouco mais da personalidade e das idéias desse escritor argentino. Achei-o precioso.

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