Processo de demissão contra professor da rede pública obtido pelo GLOBO conta como educadores sofreram pressão para deixar escolas

Juliana Dal Piva, em O Globo

A ditadura militar proporcionou a seus apoiadores a oportunidade de promover uma caça a adversários pessoais e profissionais dos mesmos. É o que revela o processo de demissão de José Grabois, um professor de Geografia do extinto estado da Guanabara, que abrangia o território que hoje é a capital do Rio. O documento foi descoberto em meio a arquivos do governo do Rio no ano passado e faz parte do acervo do Arquivo do Estado. O GLOBO teve acesso ao processo após um pedido por meio da Lei de Acesso à Informação.

As acusações feitas em maio de 1964 partiram do diretor da Escola Visconde de Cairu, Eneias de Barros, e do professor Antonio Guerra, colega de disciplina. Os dois acusaram Grabois — que já não trabalhava mais na escola — de fugir do currículo para fazer “propaganda ideológica” para os alunos. Segundo as denúncias, ele lecionava sobre “o imperialismo americano”.

“Eram as aulas de Geografia de tal modo ligadas à linha do partido comunista que foi este diretor obrigado a intervir colocando-o sob vigilância”, afirmou Eneias à comissão. Ao folhear os cadernos dos alunos anexos ao processo, O GLOBO sequer encontrou as expressões citadas.

Aos 74 anos, José Grabois se diz nauseado ao lembrar do caso. Respira fundo e fecha os olhos por trás dos óculos. Lentamente, levanta as mãos e as desliza sobre a cabeça. O tema ainda trava na garganta.

— O ambiente, não só do colégio mas do Brasil, era de debate nacional. A sala dos professores era um palco importante de discussões. E, depois das aulas, por que excluir os alunos das discussões? — conta.

Ao fim de 1963, Grabois conta que pediu transferência para outra escola e nunca mais teve contato com Guerra ou Barros. Logo após o golpe, levou um grande número de livros para um apartamento que seu avô tinha no Leblon. Lá, destruiu as obras:

— Coloquei os livros na banheira e os derreti com água quente. Derreti a minha biblioteca. Isso é uma coisa que dói lembrar — lamenta. Para ele, o diretor pressionou o colega de disciplina a denunciá-lo:

— Tinha uma boa relação com o Guerra. Ele deve ter colaborado por medo.

Após o golpe militar, o professor diz que, de certa forma, já esperava a perseguição do regime. Ele frequentava a redação do jornal do Partido Comunista e era sobrinho de Maurício Grabois — líder do PCdoB e um dos militantes desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Ele, no entanto, não militou em nenhuma organização de esquerda.

O processo contra o professor foi presidido por Alcino Salazar e fez parte da “Operação Limpeza”, promovida pela ditadura após o Ato Institucional nº 1. O objetivo era retirar do governo todos aqueles contrários ao regime. No ano seguinte, Salazar se tornou procurador-geral da República.

Grabois jamais foi recebido pelos investigadores e teve que apresentar a defesa por escrito. E, mesmo com mais de 30 declarações a seu favor dadas por colegas professores e pais de alunos, nada evitou a demissão. Ele e outros quatro professores foram considerados “inconvenientes para o exercício do magistério”. No texto, outros 12 também foram listados.

Um deles foi Mauricio Silva Santos, outro professor de Geografia. Ele trabalhava na Escola Rivadávia Corrêa e fez questão de dizer que se mantinha longe da política:

— Eu era pobre e precisava estudar para ser bom. Não tinha tempo para outra coisa. Dizem que havia um núcleo comunista no colégio. Sei que eu ia almoçar com um colega da Matemática e, depois, disseram que ele era comunista. Era o Bayard Boiteux.

Boiteux é outro da lista dos demitidos. Diferentemente dos outros, ele fez parte da Guerrilha do Caparaó, desmantelada em 1967. Foi preso e condenado, mas conseguiu partir para o exílio de onde retornou em 1979. Morreu em 2004.

Mauricio Silva Santos não foi demitido, mas sofreu uma suspensão de seis meses. Ao retornar, ainda ficou outros três meses sem receber salário. Durante esse período, sua mulher estava grávida de gêmeos.

Depois da demissão, Grabois deu aulas particulares e continuou vigiado. Mais tarde, seguiu carreira acadêmica na UFPB e na UFPE. Ele só retornou ao Rio em 1990, para lecionar na UFF. No ano passado, foi anistiado pelo Ministério da Justiça.

— Para sobreviver a gente introjeta o medo. Aprende a viver colocando cadeados em vários lugares e épocas. Depois não consegue soltar — afirma ele, que não quis ser fotografado.

Eneias de Barros, Antonio Guerra e Alcino Salazar já morreram.

Durante a ditadura, o educador Paulo Freire foi preso e teve que sair do país. O ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB) Anísio Teixeira foi demitido logo após o golpe e morreu em circunstâncias ainda não esclarecidas.

O total de educadores demitidos por razões políticas é desconhecido. De acordo com a Comissão de Anistia, cerca de 1.200 professores já foram anistiados pelo governo federal, e outros 243 processos aguardam julgamento. Entre mortos e desaparecidos políticos, estão ao menos 26 educadores.

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