Angélica Freitas, Fabrício Corsaletti, Alice Sant’Anna, Leonardo Gandolfi e Ana Martins Marques se reúnem pela primeira vez para um bate-papo sobre o processo criativo

1

Mariana Filgueiras, em O Globo

RIO – “Outro dia eu estava no café do cinema Odeon, na Cinelândia, e notei duas meninas dividindo a leitura deste livro. Acho que elas compraram juntas, cada uma deu uma parte do dinheiro, foi o que imaginei. Uma lia uma página, passava o livro para a outra, comentavam, e assim ficaram um bom tempo. Vi também gente lendo este livro no metrô e na praia. A última vez que me lembro de ter visto algo parecido foi quando surgiu ‘Caprichos e relaxos’, do Leminski, mas isso foi em 1983!”, compara o poeta e editor Carlito Azevedo, referindo-se ao livro “Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas, lançado em setembro passado pela Cosac Naify.

“Um útero…” não é livro de vampiro, sacanagem, celebridade ou como-ficar-rico-e-magro: é o segundo livro de poesias de uma autora gaúcha de 39 anos, que tem dois gatos e um blog. Em menos de dois meses, vendeu três mil cópias, e está na segunda reimpressão. Um feito, em se tratando de poesia. Que abriu uma janela para outros novos poetas: com o sucesso de “Um útero…”, a Cosac resolveu criar uma coleção de poesia brasileira contemporânea. Em março, lançou “Via férrea”, do mineiro Mário Alex Rosa, de 47 anos (que tinha a obra engavetada há sete); este mês, apostou em “Rabo de baleia”, segundo livro da carioca Alice Sant’Anna, de 25.

— O sucesso da Angélica nos mostrou que um poema pode viajar com muita força pelas redes sociais e alcançar uma experiência que outras formas de escrita não conseguem. Parece haver uma particularidade deste momento no modo como é possível compartilhar a poesia, sem prejuízo de suas formas tradicionais — observa a editora da Cosac Naify, Florencia Ferrari.

É, de fato, um bom momento. A Azougue acaba de lançar a antologia “Poesia.Br”, a primeira do tipo, com dez volumes que abarcam a tradição do gênero em território nacional — dos cantos ameríndios à uterina Angélica Freitas. O último tomo aborda justamente esta nova geração.

— É uma turma que faz poemas mais irreverentes do que a dos anos 90, buscando uma linguagem que se relacione com elementos da vida cotidiana, apesar de ainda flertar pouco com o experimentalismo — diz Sergio Cohn, editor da Azougue, lembrando outro feliz indicativo da boa fase da poesia no país: há três semanas, a obra completa de Paulo Leminski, “Toda poesia”, lançada pela Companhia das Letras, está nas listas dos livros mais vendidos do Brasil.

A Revista O GLOBO pediu a três poetas e editores de poesia (Carlito Azevedo, Sergio Cohn e Armando Freitas Filho) que apontassem autores que representem esta nova safra. De uma lista extensa, eles destacaram a obra do paulistano Fabrício Corsaletti, de 35 anos (graduado em Letras, é colunista da “Folha de S. Paulo” e autor de “Estudos para seu corpo”, de 2007, e “Esquimó”, de 2010); da mineira Ana Martins Marques, 36 (mestre em Literatura, ganhou o Prêmio Biblioteca Nacional de Literatura em 2012 com o livro “Da arte das armadilhas”); da gaúcha Angélica Freitas (que antes de “Um útero…” tinha publicado o elogiado “Rilke Shake”, em 2007); e dos cariocas Alice Sant’Anna (editora no Instituto Moreira Salles e autora também de “Dobradura”, de 2009) e Leonardo Gandolfi, 32 (doutorando em Literatura, é professor do ensino fundamental e autor de “No entanto d’água”, de 2006, e “A morte de Tony Bennett”, de 2010).

— Não vejo pontos de contato evidentes, são escritas muito pessoais. Prefiro falar dos problemas em comum, não no sentido negativo da palavra, mas no sentido de complexidade: eles fazem poemas abertos. Não abertos como uma flor, mas como uma mão de baralho. Eles têm em cada poema diversas possibilidades. É como se cada verso pudesse gerar um próximo jogo, um novo poema — exalta Armando Freitas Filho, lembrando que conhece melhor a obra de Alice e Ana.

Foi proposto um encontro entre os poetas, que só se conheciam aos pares ou pela internet. Angélica tomou dois aviões de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde vive; Fabrício interrompeu um trabalho de tradução em São Paulo; Ana, a redação do capítulo final de sua tese, em Belo Horizonte. Alice pediu para chegar mais tarde ao trabalho, na Gávea, e Leonardo deixou os alunos com um monitor. Na manhã da sexta-feira retrasada, os cinco se encontraram pela primeira vez para discutir, por que não, poesia.

Vocês reconhecem esta boa fase?

Fabrício: Sim. Acho que é um bom momento. Mas é poesia, né? Só quem vende bem aqui é a Angélica (risos). Eu acho que poderia não se falar sobre poesia em lugar nenhum, mas poesia ainda tem destaque. Eu, por exemplo, só aceitei ser colunista de jornal porque me permitiram publicar poemas também.

Alice: Eu não sei comparar porque não vivi outra época, mas a nossa eu vejo com otimismo. Tem muita gente boa escrevendo, muita gente boa publicando. Não sei se dá para falar sobre vertentes, cravar o que une uma geração, mas acho que é uma época excelente.

De que forma as redes sociais ajudam a difusão desta poesia?

Ana: Eu acho que a internet mudou muito a forma de circulação da literatura em geral, e da poesia em particular. A poesia se prende a isso: o caráter mais sucinto, mais imagético. Sem dúvida favorece a circulação e o contato das pessoas. Conhecer o que está sendo feito em outros lugares, em outras editoras, e que normalmente você não teria acesso. Houve uma transformação no modo de fazer e de ler.

Vocês leem poesia no Facebook?

Ana: Acho que mais revistas eletrônicas, como a “Modo de Usar”.

Leonardo: A internet começou a alterar formalmente, em termos de tamanho de versos, de velocidade de imagem, de linguagem coloquial, a maneira de escrever poesia.

Por exemplo?

Leonardo: Eu acho que as imagens das poesias são muito mais velozes hoje em dia. Uma das características da poesia é este poder de síntese. Mas acho que há um volume tão grande de imagens nas poesias atuais que esta característica perde o sentido, é uma síntese que não sintetiza mais, porque acumula e sobrepõe imagens.

Leonardo: Não sei se essa mudança foi causada pela internet, mas há uma intensificação desta característica nesta nova leva, muito por conta desta necessidade de publicar muito, em blogs, redes sociais. Ao mesmo tempo, tem essa coisa do texto curto, desde o surto do Twitter. Que afeta o verso, afeta.

Como vocês leem autores desta geração?

Ana: Quando você escreve poesia você tende a ter esta atenção, ficar voltado para a poesia. Mas eu sou muito ligada ao livro ainda. Mesmo quando eu conheço um autor na internet, eu tendo a voltar para o livro.

Fabrício: O livro ainda tem um papel fundamental. Quando você lê um poeta na internet, espera para ver no livro o que o cara mexeu para lançar. O livro é a hora de arrumar a bagunça.

Ana: A internet vira um espaço de teste, antecipa a recepção.

Alice: A internet é um rascunho, ali você apaga e reescreve.

Leonardo: Um rascunho público.

Vocês já se conheciam?

Fabrício: Eu ganhei o “Rilke Shake” de uma amiga. E fiquei imediatamente fã da Angélica. Escrevi para ela, ficamos amigos. Até escrevi dois poemas para ela num livro meu. A Alice conheci porque uma dia eu saí de casa, estava sem luz, não tinha pago a conta, cortaram, e eu fui para um bar. E ela estava lançando o livro “Dobradura” lá. Em vez de pagar a conta, comprei o livro (risos). Leonardo conheci hoje, Ana não conhecia, só pelos livros.

Ana: Ainda que esteja num bom momento, a poesia ainda faz parte de um circuito limitado. Ainda tem muito isso de mandar os livros uns para os outros, trocar os livros. É geralmente assim que a gente se conhece.

Como vocês provocam os novos leitores?

Leonardo: Dou aula para jovens a partir dos 13, 14 anos. Eu não começo a falar direto do poema. Não acho que seja por aí. Faço atividades lúdicas. Eu entrego o poema do Manuel Bandeira “Tirado de uma notícia de jornal” para eles, por exemplo. E aí eu explico o procedimento que Bandeira usou, que ele cortou uma notícia da página do jornal. Peço pra eles escreverem a notícia de volta, a partir dos recortes. Em casa, eles repetem o processo, recortando o jornal. E levam para a aula o resultado depois, e um lê o poema do outro. Tento não passar pela questão “gostar ou não de poesia”, mas pelo processo de produção de texto. O poema entra como uma ferramenta lúdica. Mais tarde eles vão acabar ligando o poema não à seriedade, ao peso de uma necessidade de inspiração, mas a um momento de brincadeira, jogo. Um jogo com as palavras dos outros, sobretudo. Com os alunos mais velhos, a poesia já entra um pouco no mérito do vestibular. Mesmo assim, tento fazer experiências parecidas com a leitura. Boto um em cada canto da sala, lendo um verso de cada vez. “Quadrilha”, de Drummond, por exemplo, a gente lê como uma batata quente, cada um passa o verso para o outro.

E o processo já te trouxe surpresas?

Leonardo: Sim, volta e meia roubo os versos deles… (risos). Foi uma forma que eu, leitor, aprendi para lidar melhor com o texto. Eu não tive isso na escola, mas gostaria de ter tido. Aprendi poesia como uma coisa muito séria, cerimoniosa, importante. Hoje em dia acho que é uma brincadeira de palavras. Ninguém tem que se levar tão a sério.

Como é o processo de criação de vocês?

Angélica: Eu gosto muito de escrever em cadernos. Escrevo à mão, e cada vez que começo um caderno eu sinto que aquilo que eu escrevo vai para uma direção. Neste último livro, são poemas sobre mulheres. Não me preocupo em escrever poemas. Vou escrevendo. Gosto de escrever de manhã, tomando café — depois do segundo fica melhor! Escrever é um ato físico.

Ana: Eu também sou fã dos cadernos. O primeiro momento da escrita é à mão, como uma anotação, uma palavra, uma imagem. Mas eu não tenho método. Não escrevo todo dia, fico muito tempo sem escrever… Às vezes acho que aquele poema é o último. São surtos. Tem épocas que escrevo quase todos os dias. Gosto de fazer séries. Neste último livro, teve esta série sobre os objetos da casa. É um procedimento de escrita. Eu vou meio que desdobrando os temas. Às vezes saem coisas legais, às vezes não. Aí ponho na gaveta, espero. Os poemas não vêm prontos. Não tem isso de “me aconteceu um poema”. É um trabalho.

Leonardo: Eu tento ter disciplina porque gosto de escrever sempre. Tenho ideias na rua, anoto em contas, blocos. O que eu gosto de fazer é contar histórias. Eu sou um contador de histórias falhado. Eu queria ser contista, romancista. O verso me incomoda um pouco. Mas eu o uso para contar as histórias com uma imagem sintética, ou um verso longo. E o tempo todo música. Tenho fixação por Roberto Carlos. Meu sonho era fazer um romance em que eu fosse filho do Roberto Carlos ou filho de alguém que escrevesse uma música para o Roberto Carlos, uma espécie de ghost writer dele. Eu não consigo, mas vou colocando dentro do poema estas histórias. Tem o Roberto falando em poema meu…

Alice: Eu não tenho método nenhum. Como a Ana, também acho que é sempre o último poema que vou escrever. O primeiro livro eu escrevi todo no ônibus, num caderno. Este, agora, foi no computador. Não gosto de escrever em casa. Não tenho muito saco para escrever um poema depois de um dia de trabalho. Nunca sairia deste jeito. Acho que quando os poemas valem a pena eles têm que ficar na cabeça antes de ir para o papel. Muitas vezes eu fico com alguma ideia e penso: se eu ficar com ela mais alguns dias, eu escrevo, se não durar, eu esqueço.

Angélica: Faltou falar do café…

Alice: Não gosto de café. Ah, sim, sobre a internet: apesar de escrever no computador, não sou supertecnológica. Não tenho Twitter, meu blog não mexo há dois anos, não posto poema no Facebook, mas acho que ele funciona bem para conhecer outras pessoas. Eu conheci muita gente pela internet, a Ana, por exemplo. Li o livro dela, fiquei apaixonada, escrevi uma mensagem, tiete. A (poeta) Bruna Beber também conheci assim. Acho que a internet é um grande Baixo Gávea. É uma boa forma de conhecer seus pares, seus futuros amigos. Primeiro você admira, depois você se torna amigo.

Fabrício: Eu escrevo desde os 15 anos, então eu já escrevi de muitas maneiras. Mas faz muitos anos que escrevo da mesma forma, no computador. A não ser os poemas metrificados, a estrutura externa a minha letra. No meu desktop tenho um arquivo, “Rascunho”, sempre em branco. Ali eu tento resolver um poema. Se eu tiver qualquer ideia, eu não durmo sem resolver aquilo. E aí eu termino, ou me iludo que terminei. Se eu não resolver um verso, jogo fora o poema. Se ele tinha coisas boas, ele volta. Reescrevo. E coloco no arquivo “Poemas acabados”. Quando percebo que aquilo forma um conjunto, elimino os que sobram e fecho o livro. Eu resolvo poema a poema.

Quem lê primeiro os poemas de vocês?

Angélica: Minha mãe acha tudo lindo, não tem graça (risos). Eu gosto de deixar o poema quietinho antes de mostrar. O que é curioso, porque aí por 2005 eu tinha um blog, e cheguei a escrever direto no blog. Vários poemas do meu primeiro livro foram escritos diretamente no blog. Tem vários poemas que ficam anos guardados, tem um com seis anos, e eu jamais mostrei a ninguém. Passa um pouco o tempo da inquietação. De vez em quando mostro a alguns amigos. Peço ao Fabrício para ler, ao (poeta) Ricardo Domeneck.

Fabrício: Todos os poemas que fiz nos últimos seis anos, os que não foram para o lixo o (poeta) Alberto Martins e o (escritor) Chico Mattoso leram. Eu mostro porque quero resolver. Eu não tenho amor pelos meus poemas. Quer dizer, tenho. Mas eu quero amar outros poemas. Eu sou um poeta infiel neste sentido. Tem aquela coisa do Drummond, né, “A vida passada a limpo” (título de um livro do poeta itabirano). Literatura é a vida passada a limpo. E eu quero passar a limpo, não quero ficar com aquilo mais sujo do que já é.

E não veem ponto de contato entre si?

Fabrício: Acho difícil enxergar isso. Vamos deixar para os leitores, os críticos literários.

Todos vocês usam muitas referências pop, por exemplo.

Angélica: É natural usarmos, recebemos uma avalanche de referências pop todos os dias! Usamos a internet o dia inteiro, é natural que ela apareça nos versos.

O que vocês têm nas gavetas?

Alice: Acabei de lançar o “Rabo de baleia”…

Fabrício: Eu vou lançar um livro chamado “Quadras paulistanas”, são quadras mesmo, quatro versos, rimados, metrificados. Poesia-crônica, que faço sempre sobre São Paulo. Já tenho 154.

Leonardo: Eu estou para lançar um novo livro, “Pic Nic”. Se no último eu fiz mais poemas com histórias policiais, agora resolvi contar histórias mais longas, poemas compridos. E uma prosa, chamada “Hahabisburgo”, que é a Leopoldina, a mulher do Dom Pedro, que teria um caso comigo.

Não com Roberto Carlos?

Leonardo: Não, comigo (risos). É meio espírita, também: eu escrevo o diário dela, mas é ela a narradora. E o romance dá errado. “Hahabisburgo, um romance falhado”.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments