Maíra Fernandes no Cruzeiro do Sul

Sofro preconceitos até hoje, mas detesto falar disso; os obstáculos estão para serem ultrapassados e não lamentados – Por: Divulgação

Ele foi condenado a mais de 100 anos de prisão pelos crimes cometidos ainda muito jovem. Cumpriu mais de 30. Do sistema carcerário, saiu há nove anos, mas liberdade mesmo já havia conquistado tempos antes, ironicamente quando foi parar na chamada cela forte, uma espécie de solitária para castigar os presos no sistema carcerário.

Para passar o tempo, um amigo comentava os livros que havia lido com ele, e acabou o incitando à leitura de obras como “Escuta, Zé Ninguém!”, de Wilhem Reich, “Um Homem”, de Oriana Falltti , a coleção “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, entre outros, que não o ajudaram apenas a enfrentar os tempos difíceis dentro da penitenciária, mas foram responsáveis pela transformação na vida de Luiz Alberto Mendes, 60 anos e há 12 anos escritor e colunista do site da revista Trip.

Ainda preso, Mendes aprendeu a ler e a gostar de ler, escrever e a gostar de escrever, e que também tinha talento para a literatura.
Longe do crime e perto da escrita, ele hoje dá palestras, realiza oficinas e, claro, escreve muito. “Escrever, escrever, escrever. Criar, criar, criar. Arte, arte, arte, finalmente” é o que aspira para o futuro o escritor que vem hoje para Sorocaba lançar o seu mais recente trabalho, o livro “Cela Forte”, pela editora Global, na livraria Nobel do Sorocaba Shopping, às 19h. O livro tem apresentação do escritor Marcelino Freire e faz parte da coleção “Literatura Periférica”. “Conheço muito gente em Sorocaba. Fiz oficinas de leitura e escrita em quase todas as penitenciárias da região, estive fazendo palestras em quase todas as universidades sorocabanas, vivi momentos grandiosos de amor na Fazenda Ipanema, tenho um conhecimento com as pessoas assentadas lá na fazenda, em suma; depois de Embú das Artes (onde moro) e São Paulo, Sorocaba é o lugar onde mais estive e onde tenho mais contatos. Gosto da cidade”, declara.

Antes de “Cela Forte”, Mendes já havia publicado os livros, “Memórias de um Sobrevivente”, onde conta sobre sua vida na penitenciária. O livro, primeira obra do ator, foi lançado m 2001, com o apoio do escritor Fernando Bonassi e do médico Dráuzio Varella, pela Companhia das Letras. Em 2004, lançou “Tesão e Prazer” pela editora Geração Editorial e em 2005 publicou “Às Cegas”. Para se ter uma ideia, mal recebeu a sentença de liberdade e já estava lançando livro na Bienal de São Paulo e dando entrevistas. “Escrever é a parte mais intensa, que toma mais meu tempo e a única que realmente me arrebata a alma e expande a vida”, explica Mendes, que fugiu de casa ainda menino, para se libertar das mãos pesadas do pai alcoólatra, e ganhar as luzes da cidade que tanto o encantavam.

As experiências vividas dentro do sistema carcerário são recorrentes nas obras de Mendes e isso não o incomoda, pelo contrário, o escritor sabe que, quer queira ou não, difícil desassociá-lo de sua própria história. No entanto, ele adianta que explora outros gêneros como teatro, cinema, poesia. “Se criminoso é quem comete crimes, eu fui criminoso porque cometi vários crimes. Conto e até rio e brinco com o meu passado, quando não o choro. Não ligo muito para recepções. Quem quiser me julgar que julgue, fazer o que não é mesmo? Mas não esqueçam: cumpri a pena máxima do país e mais um pouco, não devo nada. Estou há nove anos aqui fora, reabilitado jurídica e socialmente e sou um escritor, um professor às vezes; são 60 anos de experiência e quase 40 anos de leituras. Torno-me útil socialmente e contribuo o quanto posso.” Confira a entrevista ao Mais Cruzeiro:

Quem era o Luiz antes de ir parar na penitenciária e como você recebeu a sua sentença da prisão?
Fui criado em Juizado de Menores (Fundação Casa, agora). Tive um pai alcoólatra e uma fascinação muito grande pelas luzes e liberdade que imaginava encontrar no centro da cidade de São Paulo. Então, aos 11 anos, comecei a fugir de casa e ir para a cidade. A polícia trazia para casa, o pai espancava e eu fugia novamente. Aprendi a roubar com os meninos que não tinham pais ou eram foragidos como eu que moravam na cidade como eu (nichos de prédios, “mocós”…). Sobrevivi à sanha dos policiais na cidade, aos comissários de menores, às vitimas de nossos pequenos roubos, sendo preso e fugindo sempre até completar a maioridade. Quando percebi, estava condenado a mais de 100 anos de prisão e tinha cerca de 23 anos de idade. Não sairia mais. Não recebi, sobrevivi a todas as sentenças e condenações que me imputaram. Não havia planos antes de sair, eu nem acreditava que sairia mais, rua era ilusão para mim.

Quais os momentos mais tensos e as piores experiências vividas dentro do sistema prisional?
Não há como dizer de um só momento. Foram trocentos momentos de perigo, da Polícia Militar entrar na penitenciária como em 1987 dando tiros para todos os lados e a gente correndo feito ratos para nos escondermos onde não havia esconderijo e nem saída. Os companheiros caindo, a gente pulando por cima deles e de poças de sangue… Coisa de louco! Trinta e sete de nós foram mortos, antecipando o Massacre do Carandiru.

Acredita que a prisão recupera?
A prisão não recupera ninguém, principalmente aos moldes como são administradas as prisões em nosso país. Ninguém acredita em recuperação porque as prisões não passam de depósitos em que homens são enterrados em pé. Eu estive no mais fundo poço, num buraco de uma cela forte e de lá estou saindo para o mundo. Tenho um de meus livros publicado (“Tesão e Prazer”) na Rússia e quero ver todos os que publicar serem traduzidos e publicados em outros países. E não é por vaidade, isso não me pega mais. E sim para demonstrar que o homem pode sair de um buraco que só cabe ele e ir para o mundo, fazer a diferença. Mas vai depender da vontade dele, como só dependeu da minha. Estudei sozinho e li sozinho, construí a mim mesmo sozinho e trouxe o produto aqui fora.Falta a sociedade se interessar pelos seus presidiários e se envolver na recuperação destes. Falta transparência na Secretaria dos Assuntos Penitenciários, falta cultura, sonhos, condições humanas de vivência, falta interesse em recuperar, falta até a fé de que o homem é recuperável. Tenho quebrado as pernas deles nesses nove anos aqui fora.

Há quem diga que não é aprisionando que se condena uma pessoa, já que a dificuldade da inclusão em sociedade para o egresso acaba sendo pior do que a prisão. Você concorda? Sofreu com isso?
Sofro preconceitos até hoje, mas detesto falar disso; os obstáculos estão para serem ultrapassados e não lamentados. Mas até agora não consegui um emprego, vivo de meus livros, minhas oficinas de leitura e escrita e palestras, além da coluna na revista Trip, blog e “frilas” que faço quando me pedem. Para os outros que não conseguiram criar uma profissão para si, fica bem mais difícil.
Como recebeu sua sentença de liberdade? Qual a pior privação atrás das grades?
Eu não acreditava mais que sairia. Na minha cabeça, eu nascera entre grades e morreria entre grades. A pior coisa foi ficar longe das pessoas que amava e conviver entre presos.

Como aconteceu o seu encontro com a literatura? Você lia e escrevia anteriormente?
O meu encontro com a literatura se deu em uma cela forte, com um amigo contando para mim livros que havia lido, excitando minha curiosidade, me enchendo de vontade de conhecer a vida. Passo horas falando de livros aqui, muitos deles li e reli várias vezes como “Escuta, Zé Ninguém!”, de Wilhem Reich, “Um Homem”, de Oriana Falltti, a coleção “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, “O Profeta”, de Gibram Khalil, “Petit Prince”, de Saint Exupéry, “De pernas pro ar”, de Eduardo Galeano…

Como foi a decisão de escrever os livros e como viu e sentiu a reação do público? Das suas obras, qual é sua predileta e por quais motivos?
Gosto do próximo livro que estou escrevendo ele aqui na mente já faz um tempo, antes de jogar para o computador. Gosto de todos meus livros, são como filhos, não tenho preferido, mas tenho um patinho feio, o “Tesão e Prazer” que é um livro feito às pressas e que eu rescreveria novamente se pudesse.

O “Cela Forte” é biográfico? Como e quanto tempo demorou para concluí-lo? Poderia falar um pouco sobre ele?
Não escrevo para deixar mensagens. Não faço autoajuda. É um livro com 26 contos, alguns verídicos, como o primeiro que dá o título, “Cela Forte” que é até histórico, alguns criados e alguns que têm acontecimentos reais, mas que manipulei por uma questão de criatividade. Meu objetivo é fazer ensaios, teatro (tenho 2 peças prontas) e criações, invenções, adoro ficcionar! Criar uma cidade e fazer desenvolver. Não há como resumir. Cada conto é uma história, então são 26 histórias variadas. Algumas de dentro de uma prisão, outros que se desenrolam entre aqui fora e prisão e alguns são apenas aqui de fora. Alguns contos escrevi há 20 anos e venho aperfeiçoando-os de lá pra cá, então não entra nem uma vírgula. Mas todos foram exaustivamente trabalhados, cada palavra, cada frase foi pensada e repensada trocentas vezes.

Não teme ter o nome sempre ligado a questões do cárcere? Pretende explorar outros gêneros literários e outros assuntos?
Meu nome sempre será ligado ao cárcere quer eu queira ou não. Então esse é um nicho meu, quero escrever o melhor possível sobre prisão, se for o caso. Eu já exploro outros gêneros, teatro, cinema, poesia e tenho um livro novo lá na editora Global que é um romance da periferia da cidade grande. Aguardo apreciação. Vou escrever sobre tudo, já o faço quase que diariamente em meu blog: www.revistatrip.uol.com.br/ blogs/ mundolivre.

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