Alexandre Gaioto no O Diário

Muniz Sodré está com um copo de cerveja na mão – vez ou outra, faz uma pausa para bebericar a caipirinha à base de Velho Barreiro – e pela primeira vez na nossa conversa hesita em iniciar a resposta imediatamente. Espera. Toma outro gole de cerveja.

Olha para a mesa ao lado, onde imortais da Academia Brasileira de Letras saboreiam um farto churrasco – sem vergonha de repetir as fartas pratadas –, observa João Bosco cantando “Kid Cavaquinho” com um grupo de samba ao nosso lado, dá uma geral, o sorriso nos lábios, no salão de festas do prédio onde mora, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Eu havia perguntado, um minuto antes, como, afinal de contas, ele gostaria de ser lembrado daqui a uns 80 anos.

"É mais difícil ser intelectual no Brasil do que na França", avalia Muniz Sodré - Divulgação

Um dos maiores intelectuais da América Latina? Um jornalista? Um escritor? Apontando para um cabeludo de manga cavada, bermuda e chinelo, com um violão a tiracolo, o aniversariante do dia finalmente responde: “Coloca aí que eu quero ser lembrado como o aluno de violão dele”, e disse o nome inteiro daquele seu colega de UFRJ, um jovem professor da área de comunicação, estendendo-me o copo de cerveja para um brinde.

 

Quatro anos depois desse encontro, Muniz Sodré continua o mesmo. Lutando contra a própria sombra, ele esperneia, nega e faz de tudo para não aceitar o que, de fato, é: um gênio.

“Não sou um dos maiores intelectuais de lugar nenhum”, rechaça, em entrevista por e-mail concedida nesta semana ao Diário.

Com mais de três dezenas de livros teóricos sobre comunicação e cultura, além de uma produção paralela voltada para a literatura, com contos, novelas e um romance, Muniz Sodré, aos 71 anos, é um dos pensadores brasileiros com maior trânsito no exterior, com cursos ministrados na Europa, Estados Unidos e América Latina.

Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, mestre em Sociologia da Informação e Comunicação na Université de Paris IV (Sorbonne) e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, teve seus livros traduzidos na Itália, Espanha, Bélgica, Cuba e Argentina.

Pelo menos duas de suas obras, “A Comunicação do Grotesco: Introdução à Cultura de Massa no Brasil” (1983) e “Antropológica do Espelho” (2002), são canônicas para quem se mete a teorizar a comunicação e o jornalismo: refletidas, parafraseadas e citadas por deus e o mundo.

Amigo pessoal de Jean Baudrillard, Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro e Gilberto Gil – por quem foi convidado à presidência da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, cargo exercido de 2005 a 2011 -, Muniz Sodré causa espantos: é assustador assisti-lo em minuciosas costuras teóricas da antropologia com filosofia, comunicação, história, sociologia, literatura, em livros e palestras.

Professor da ECO/UFRJ, Muniz Sodré desembarca em Maringá (100 km de Londrina) nesta sexta-feira (19) à noite para falar sobre educação, numa palestra promovida pela Sociedade Médica, no Teatro Calil Haddad, com entrada grátis.

Antes, conversou com o Diário sobre seus livros e avaliou sua trajetória – que, certamente, será lembrada, daqui a uns 80 anos, por uma porção de contribuições ao pensamento científico e à literatura, mas dificilmente há de se resumir às lições de violão com o professor universitário, cabeludo e de manga cavada, do início deste texto.

O DIÁRIO – O senhor é considerado um dos maiores intelectuais da América Latina. O que acha disso?

MUNIZ SODRÉ Não, não é questão de modéstia, mas não sou considerado um dos “maiores intelectuais” de lugar nenhum. Sou um professor da área de comunicação e de cultura nacional que escreveu livros ainda circulantes no mercado editorial e em círculos restritos, principalmente entre os ativistas negros. O Brasil é um país linguisticamente isolado, não nos leem nos países de língua hispânica…

Tenho circulado no exterior como conferencista, mas não creio em reconhecimento. Nem busco. O que acontece é que faço muitas conferências, dou entrevistas, e isso acaba redundando numa imagem pública que, no meu caso, não é das piores… Por que faço tudo isso? Porque acho que a função intelectual é a da fala pública ao lado da pesquisa privada. Conhecimento entesourado é coisa de mandarim.

Gostaria que comentasse a educação que você recebeu na escola pública. Como foi?

A minha educação sempre se deu em escolas públicas, que costumavam ser boas e, além do mais, democráticas. O ensino público é um dos esteios da convivência democrática das classes sociais. Não sei se poderia ter sido melhor. Na verdade, os professores que tive me foram fundamentais. Na escola pública, me iniciei nas línguas que atravesso (jamais tomei cursos particulares) e me preparei para outras, como o alemão, o russo e o árabe, que aprendi fora da escola. A língua portuguesa ensinada pela professora Helena Assis no colégio estadual de Feira de Santana até hoje está comigo.

Por que resolveu trocar o jornalismo pela área acadêmica? Sente saudades da época de redação?

Não sou de muita saudade. Mas o jornalismo de que gostei era o praticado na redação do Jornal da Bahia, fundado por João Falcão, empresário baiano e deputado comunista na Constituinte de 46. Ali aprendi alguns truques do ofício. No Rio, com exceção do Jornal do Brasil, o jornalismo em que militei era superficial demais para o meu gosto. As revistas de Bloch Editores eram mais “púbicas” do que públicas. Acho que a minha verdadeira vocação é a vida acadêmica.

“A Comunicação do Grotesco” (1983) é uma obra canônica na teoria do jornalismo. O senhor já teve a oportunidade atualizá-la com “O Império do Grotesco”, de 2002, escrito com a Raquel Paiva. Há planos para atualizá-la novamente em uma terceira versão? Há algo que gostaria de acrescentar?

Não pretendo fazer nenhum livro novo sobre o grotesco. Já disse o que tinha a dizer. Além disso, o grotesco que recobre a vida pública e publicitária do País, da televisão ao Congresso Nacional, dispensa
análises. Basta ficar olhando e rindo (ou chorando).

O que dá mais prazer ao escrever? Teoria ou literatura?

Sou um ficcionista bissexto. Meus livros mais conhecidos são os de teoria. Mas acho que meu prazer maior é escrever ficção. Fiquei contentíssimo recentemente, quando a José Olympio (uma glória do mercado editorial brasileiro) reeditou o meu primeiro livro de contos, “Santugri”.

E acabo de saber que meu romance “O Bicho que chegou a Feira” (sobre o qual há duas teses na Faculdade de Letras de Feira de Santana) está sendo posto em quadrinhos por uma equipe competentíssima de desenhistas baianos. Sim, literatura é, pra mim, prazer puro.

Qual será o seu próximo livro?

Meu próximo livro? Vai demorar um pouco, mas será acadêmico: a questão do campo teórico da comunicação. Ao mesmo tempo, penso em escrever uma outra noveleta policial.

Intelectual no Brasil tem vida fácil? E no final das contas, ser um intelectual dá dinheiro?

É mais difícil ser intelectual no Brasil do que na França, sempre digo isto. Aqui, você tem de vencer a barreira do analfabetismo e depois penetrar num universo que lê pouco. Dinheiro? É palavra intelectualmente pouco sensual…

Você era um forte candidato à vaga de José Mindlin na Academia Brasileira de Letras, em 2010. Mas quem ganhou a votação foi o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, com 20 votos. Eros Grau foi indicado por 10 imortais e você conseguiu 8 votos. Ficou decepcionado com o resultado da votação?

É verdade, fui candidato à Academia Brasileira de Letras. Ganhei alguma coisa: todos os que votaram em mim eram bons escritores.

Qual lição tomou como diretor da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e como avalia o seu legado? Toparia outro cargo público?

Fui presidente da Biblioteca Nacional de 2005 a 2011. Foi uma honra presidir a oitava maior biblioteca do mundo em acervo. Entrei em meio a uma crise, tirei o nome da Biblioteca das notícias negativas nos jornais e iniciei a digitalização do acervo. Não gostaria de repetir a façanha em lugar público nenhum: é difícil e arriscado gerir orçamento público hoje em dia.

Ouvi dizer que você aprendeu, sozinho, a falar em latim. Verdade?

Aprendi latim na escola pública. Na ordem direta, dá pra falar, sim. Mas não creio que eu seria capaz de dialogar com Cícero.

Um rápido pinga fogo, encara? Sobre literatura. Machado de Assis ou Guimarães Rosa, qual o seu favorito?

Sou fã de Guimarães Rosa, mas Machado de Assis é o meu favorito.

Música: Arvo Pärt ou Philip Glass?

Música? Philip Glass!

Entre a cruz e a espada, encurralado sem como fugir: o axé do trio elétrico ou o sertanejo universitário do carro ao lado?

Encurralado entre o axé e o sertanejo, eu me poria de joelhos, rezando para que São Pixinguinha viesse me resgatar.

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