Eva Furnari fala sobre educação, tecnologia e comportamento do brasileiro

Publicado no Divirta-se

 (CFAG/Divulgação)

Eva Furnari não costuma conceder entrevistas. “Fico tão concentrada no trabalho”, justifica a autora e ilustradora de livros infantojuvenis publicados e premiados no Brasil e mundo afora – Itália, México, Equador, Guatemala, Bolívia. A italiana de 64 anos, que mora em São Paulo desde os 2, abriu exceção para o Pensar, na ocasião de relançamento de Anjinho, obra de 1998 premiada com o Jabuti de melhor ilustração. E falou, com o mesmo destemor com a qual escreve, sobre bullying, comportamento, novas tecnologias, educação, da falta dela. “A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo”, analisa. Eva assina o texto e as imagens de mais de 60 livros, alguns retirados por ela mesma do mercado. “Porque não estava satisfeita com eles. Tenho uns 60 e poucos livros, então, acontece”. No fim das contas, a escritora, que confessou não ler quando criança por ter hipermetropia, não resiste a uma boa história.

Alguns títulos infantojuvenis estão tão focados na moral da história que são chatos. Que qualidade é imprescindível em um livro para jovens e crianças?
Na literatura cabe de tudo, desde que seja benfeito. Os professores usam muito a literatura na escola e viramos (autor e professor) uma dupla, mas acho que alguns focam mais no valor ético e acabam fazendo um material que é mais racional. Mas, se a literatura infantil não tiver um aspecto emocional, a criança não se liga, não atinge. Sobre o que é imprescindível, acho que, em primeiro lugar, a qualidade do texto. Precisa ser escrito em linguagem adequada pois são leitores ainda em desenvolvimento, mas acho que uma boa história é uma história bem contada. Normalmente, o que interessa e envolve o adulto vai envolver e interessar à criança também.

Você se considera uma escritora realizada?
Realizada, com certeza. Tenho mais de 30 anos de carreira. E o carinho enorme que recebo de professores. Às vezes, não tenho tempo de atender as pessoas… Mas, por outro lado, me sinto começando junto com desafios novos. Não consigo repetir projetos. Quando me pedem “faz um livro parecido com aquele e tal”, não consigo. Se repetir, acho que fica vazio, irracional, a gente precisa criar com alma. Nesse sentido, cada livro é uma experiência nova.

Você tem uma relação com personagens que, nos padrões da sociedade, parecem perdedores. Felpo Filva; Mel, que sofre bullying em Nós; os personagens de Listas fabulosas. Todos eles, no entanto, são anti-heróis encantadores. Tem algo de autobiográfico nisso?
Acho que aconteceu com todo mundo. Todo mundo tem um desajuste. O ser humano quer ser reconhecido, protegido, olhado com consideração, amor. Uns são mais intensos, sofridos, outros mais leves, mas acho que hoje existe uma tentativa de maior cuidado com o outro. A competição é natural, a disputa por liderança está em cachorros, mas somos racionais e podemos tentar ver de um ponto de vista diferente. É natural uma criança querer ser mais do que outra e fazer isso diminuindo o outro, mas é dever do adulto oferecer outras alternativas, ver que o problema existe naquele que quer humilhar. Acho que essa consciência é do adulto.

Sua infância foi feliz?
Foi sim, muito feliz. Tinha todas aquelas mais brincadeiras

Que qualidades você admira nas crianças de agora? Quais não admira?
A criança é o resultado de como está sendo educada. Ela ocupa o espaço que o adulto deixar. Admiro o interesse delas por tudo, suas ideias, suas observações. Mas muitas vivem com a falta de respeito. E isso não admiro. Não respeitar professores, colegas, mais velhos. Não admiro criança folgada, mimada.

E o que você pensa da educação hoje?
Estamos em um momento de confusão, com novos padrões. A educação saiu de autoritária e centralizada, da época da ditadura militar, para, com a guerra, a emancipação da mulher, um modelo democrático. E em todas as instâncias: governo, família. A tentativa é conciliar a necessidade de ordem coletiva com liberdade pessoal. Na educação estamos em fase experimental sobre como equacionar este conflito. A democracia não é um mar de rosas, requer negociação e os professores têm a missão difícil de lidar com as crianças livres demais, mimadas pelo capitalismo. Hoje, o desafio maior é comportamental, de relacionamento, da figura de autoridade. Os professores são verdadeiros heróis e me alegro de fazer parte desse time que batalha. O governo parece ser do contra e, em vez de ajudar, atrapalha. Mas acho que estamos indo bem: existe uma democracia em construção.

Que conselho você daria aos pais?
Os pais precisam entender que não há como evitar o sofrimento dos filhos. E parece que educamos tentando fazer com que a vida deles seja um mar de rosas, mas ela não é nem vai ser. Com esse sentimento interiorizado, fica mais fácil entender a importância dos limites.

Qual sua opinião sobre e-books e demais tecnologias?
Eu acho que a tecnologia faz parte do desenvolvimento. As crianças hoje são rápidas. A internet funciona nesse mesmo ritmo, uma aceleração mental de um Come-come. Mas é em detrimento do corpo, que fica menos presente, mais desconectado. No livro, a leitura tem um ritmo um pouco mais lento e mais próximo do funcionamento padrão. A questão é física. O ser humano precisa estar mais integrado em si mesmo. Acho importante que haja limite na quantidade de tecnologia para o bem do corpo, que foi feito para relaxar quando o Sol se põe. Com a luz elétrica, o computador, a internet, perdemos isso. Não é uma questão moral, de ser contra ou a favor. Acho que o desenvolvimento é útil, mas o limite é necessário.

Você foi uma criança que gostava de ler?
Eu, na verdade, tinha hipermetropia, então, não via muito bem. Minha mãe é que me contava muitas histórias. Hoje, sou uma leitora voraz.

O que você está lendo?
O homem que ouve cavalos. É uma autobiografia de Monty Roberts, um encantador de cavalos que ainda está vivo e conta como descobriu seu método de domar esses animais. Também li o livro adulto da autora de Harry Potter, J.K. Rowling. Ela é outra grande contadora de histórias. Gostei muito de Morte súbita.

Você já pensou em escrever um livro adulto?
Acho que permaneci um pouco infantil e tenho essa afinidade com literatura infantojuvenil, mas, de vez em quando, escrevo um conto. Quem sabe, um dia, não vou publicá-los?!

Qual sua atual relação com a Itália?
Tenho pouquíssimos parentes lá e só vou à Itália de vez em quando, mas tenho uma ligação com a cultura. Tenho a coisa europeia da transparência, da honestidade no falar o que pensa. O brasileiro tem essa cultura de pensar uma coisa e falar outra para não ser deselegante ou grosseiro. E isso gera uma desconfiança grande nas relações. O europeu, não todos, claro, tem essa cultura de, por mais que doa, falar a verdade.

Vida e obra

. Eva Furnari é mãe de Cláudia, de 37 anos, e Paulo, de 33, Eva escreve uma média de dois livros por ano.

. Sua incursão pelo universo de autora começou aos 32 anos, quando era formada em arquitetura e publicava trabalhos como ilustradora.

. Italiana radicada em São Paulo, recebeu prêmios como o da APCA (pelo Conjunto da Obra, em 1987), o Jabuti (Felpo Filva foi o mais recente, em 2007) e da Fundação do Livro Infantil e Juvenil (recebido nove vezes).

. Vários textos de Eva Furnari foram adaptados para o teatro, entre eles: Lolo Barnabé, Pandolfo Bereba, Truks (premiado com o Mambembe de 1994), Cocô de passarinho e Cacoete.

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