Casa dos professores na vila do Aritapera, na região da várzea santarena. A casa é uma palafita de madeira, característica da região (foto: Acervo Pessoal)

Casa dos professores na vila do Aritapera, na região da várzea santarena. A casa é uma palafita de madeira, característica da região (foto: Acervo Pessoal)

Cristiane Capuchinho, no UOL

Passar 50 dias letivos vivendo em uma comunidade diferente durante nove meses do ano. Essa é a rotina de cerca de 1.300 professores do ensino médio no Pará. Os docentes participam de um programa modular que permite a estudantes de área rural continuarem sua formação sem sair da região em que moram.

Pela dificuldade em oferecer professores formados em doze disciplinas para alunos de pequenas comunidades rurais, foi criado o Some (Sistema de Organização Modular de Ensino) há 33 anos. Nesse modelo, em vez dos estudantes se mudarem, são os professores que viajam.

Durante o período de permanência do professor na escola, ele terá de dar conta de todo o conteúdo daquela disciplina que um aluno do sistema regular teria em 200 dias letivos. “Às vezes dou seis aulas para a mesma sala em um único dia. É um projeto de aula completamente concentrado”, explica o professor de matemática Edison Feitosa.

Na tarde de uma sexta-feira, Feitosa aguardava o horário para “tomar a voadeira” –espécie de lancha comum na região amazônica- e visitar seus três filhos e sua esposa em Santarém. O professor dava o primeiro módulo de aulas em uma comunidade considerada próxima da cidade, a quase duas horas de barco da área urbana de Santarém (699 km de Belém).

Edison aproveita para voltar várias vezes para casa para “os filhos reconhecerem o pai”, brinca. No seu planejamento do ano constam comunidades distantes até seis horas de sua casa.

O programa atende a 441 escolas e cerca de 33 mil alunos, segundo a secretaria estadual de Educação do Pará. As aulas do ensino médio seguem o mesmo conteúdo programático daquelas no ensino médio regular, com 12 disciplinas. A diferença é a concentração das aulas, divididas em quatro blocos de 50 dias letivos.

No primeiro módulo deste ano, os alunos da escola municipal Santíssima Trindade, na vila do Aritapera, tinham aulas de língua portuguesa e de inglês. Já na comunidade de Arapixuna, as aulas eram de física, matemática e educação física.

Comunidades

O sistema é uma parceria entre Estado, município e comunidade. O Estado oferece os professores, o município disponibiliza salas de aula em escolas e a comunidade rural deve se reunir para fornecer um lugar de estadia dos professores.

“As comunidades são muito diferentes. Já passei 50 dias dormindo dentro de uma sala da escola”, contou Feitosa, enquanto passava uma temporada na escola de ensino fundamental e médio Sant’Anna, na comunidade de Arapixuna.

O professor Eládio Delfino Netoro conta que as dificuldades não influenciam apenas a vida dos docentes. “Os estudantes estudam em locais improvisados, como barracões comunitários, igrejas e sedes de clubes de futebol”, explica.

‘Meu destino é viajar’

Na vida de Eládio, o Some apareceu como uma nova oportunidade de levar a vida viajando. Após deixar a Marinha Mercante, onde trabalhou por dez anos, Eládio cursou letras na UFPA (Universidade Federal do Pará). “O principal motivo que me levou a abraçar o ensino modelar foi o trabalho itinerante”, conta. “Meu destino é viajar.”

Casado e com três filhos, o professor deu aulas no primeiro módulo este ano em uma comunidade a cerca de quatro horas de viagem de Santarém. Na sua rota do ano, a comunidade mais distante é “Cametá, no município de Aveiro. São aproximadamente doze horas de viagem em embarcação da região”.

Apesar da aventura, o Estado usa o salário para atrair professores para a vida de “caixeiro viajante”. Em janeiro de 2013, os docentes recebiam uma gratificação no salário de R$ 2.862,76 por trabalharem no programa.

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