Mesmo funcionários do governo chinês procuram livrarias

Chris Buckley, no The New York Times [via Folha de S.Paulo]

HONG KONG – Visitantes da China continental sobem uma escadaria estreita para chegar a uma pequena sala em Hong Kong repleta de prazeres proibidos: livros que revelam escândalos sobre os chefões do Partido Comunista.

A livraria Comunidade Recreativa Popular e outras em Hong Kong se especializam na venda de livros e revistas proibidos pelo governo chinês, na maioria dos casos, por trazerem relatos negativos sobre líderes passados e presentes do Partido Comunista. Numa época em que muitos cidadãos chineses nutrem desconfiança profunda em relação a seus líderes, os negócios da livraria vão de vento em popa.

“Venho para cá comprar livros que não podemos ler na China”, confirmou Huang Tao, vendedor de suplementos nutricionais do sudeste da China. “Fomos enganados em tantas coisas”, prosseguiu, apontando para livros sobre a fome devastadora do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, um episódio que a história oficial camuflou com eufemismos.

O comércio de livros proibidos revela a sede de informação presente numa sociedade vítima da censura, além das dificuldades que as autoridades enfrentam para sufocar essa sede, especialmente quando, segundo fontes das livrarias, funcionários governamentais fazem parte dos leitores ávidos dos livros proibidos.

“Esses livros vêm exercendo papel importante na conscientização dos chineses”, comentou um jornalista de Pequim que vai a Hong Kong várias vezes por ano e compra pilhas de textos de caráter denunciatório. Temendo represálias, ele pediu que seu nome não fosse citado.

Os livros contêm relatos de escândalos e profecias lúgubres sobre o futuro da China.

Um livro prevê uma guerra com o Japão em 2014, outro, a derrubada da liderança chinesa atual no mesmo ano.

“Algumas pessoas levam esses livros muito a sério”, comentou Paul Tang, 38, que abriu a livraria em 2002 com três sócios. “No momento, 90% de nossas vendas são feitas a chineses do continente. A pergunta que nos fazem com mais frequência não diz respeito ao conteúdo dos livros, mas a como levá-los de volta à China.”

Antiga colônia britânica, Hong Kong tornou-se uma região autônoma da China em 1997 e, apesar de pressões de Pequim, permanece livre da censura estatal. Em 2012, a cidade foi visitada por 34,9 milhões de chineses continentais, muitos deles em passeios para fazer compras.

De acordo com pessoas do ramo, os funcionários das alfândegas às vezes são instruídos a barrar a entrada de determinados títulos. Mas, com frequência, qualquer material de teor político que seja encontrado é examinado e as decisões sobre o que confiscar ou não são tomadas por impulso.

Em março, o empresário Zhou Qicai tentou entrar na China com uma mala carregada com 400 exemplares de uma revista de Hong Kong em chinês. Porém, um funcionário da alfândega resolveu examinar sua bagagem. A revista, “Boxun”, trazia um artigo sobre funcionários de tribunais na cidade natal de Zhou suspeitos de corrupção. O empresário queria mostrá-la a seus amigos.

O funcionário confiscou as revistas e o aconselhou a não fazer contrabando novamente. “Mas não desanimei”, contou Zhou. “Voltei para Hong Kong alguns dias depois e tentei novamente. Dessa vez entrei com 93 cópias da revista, sem problemas.”

Apesar dos confiscos, os casos de viajantes sendo levados à justiça são virtualmente inusitados hoje em dia, pois o governo teria dificuldade em explicar suas práticas sigilosas de censura mesmo diante de tribunais submissos, dominados pelo Partido.

A opinião é de Bao Pu, chefe da New Century Press, editora de Hong Kong que publica muitos livros de funcionários governamentais chineses aposentados ou expulsos de seus cargos.

“O governo não teria como justificar suas regras abertamente. Não existe nenhuma lista pública de livros proibidos”, falou Bao, filho de um funcionário chinês expurgado. “Simplesmente haveria gente demais para processar.”

O fluxo de textos ilícitos inclui memórias e estudos de fatos e pessoas que o Partido Comunista preferiria esquecer, como a fome decorrente do Grande Salto Adiante e a brutal Revolução Cultural decretada por Mao Tse Tung, além das revoltas que culminaram na repressão da praça Tienanmen em junho de 1989.

Também há relatos apimentados sobre as vidas particulares de funcionários do Partido.

Poucos membros da elite política chinesa escapam de ter um livro, ou pelo menos um capítulo, dedicado às suas suspeitas tramóias, amantes ou fortunas obtidas por meios ilícitos.

“Não é preciso ler o ‘Diário do Povo’, porque o jornal não conta o que está acontecendo de fato. Mas você não pode deixar de ler esses livros”, comentou Ho Pin, jornalista chinês exilado que comanda a Mirror Books, empresa com sede em Nova York que publica textos de denúncia em livros e revistas em chinês. Segundo ele, funcionários governamentais chineses com frequência compram seus livros para presentear colegas.

Dica do Chicco Sal

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