Luiz Bras, na Folha de S.Paulo

Thomas Malthus, no clássico “Ensaio sobre o Princípio da População”, de 1798, foi taxativo: a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, enquanto a população humana cresce em progressão geométrica.

Duzentos e tantos anos mais tarde, o geneticista Bertrand Zobrist, mais novo anjo exterminador criado por Dan Brown, também é taxativo: nossa espécie está à beira da extinção. A menos que haja um evento catastrófico que diminua drasticamente a superpopulação, nossa espécie não sobreviverá por mais cem anos.

Zobrist está empenhado em exterminar pelo menos metade da população mundial. Fará isso para semear a futura cultura pós-humana.

O escritor americano Dan Brown durante o lançamento de "Inferno", seu mais recente romance, em Madri (Juan Carlos Hidalgo/Efe)

O escritor americano Dan Brown durante o lançamento de “Inferno”, seu mais recente romance, em Madri (Juan Carlos Hidalgo/Efe)

Dan Brown, após passar pelos Illuminati, pela Opus Dei, pela maçonaria, pela Igreja Católica e por Leonardo da Vinci, chegou ao inferno.

Dante Alighieri é o novo fantasma que assombra o simbologista mais gente fina de todos os tempos, Robert Langdon (que também atenderá, se for chamado de Tom Hanks).

A primeira parte da trilogia “A Divina Comédia” é a mais cruel e sádica das três. Ótimo. Crueldade e sadismo é tudo o que queremos num romance de ação e investigação.

MISTUREBA

O “Inferno” de Dante e outros infernos aparentados, como os de Botticelli, Michelangelo e Gustave Doré, cercam Langdon no quarto romance da série de Dan Brown.

Ele acorda em Florença, amnésico, perseguido pela polícia e por uma sociedade secreta chamada Consórcio, é salvo por uma médica intelectualmente superdotada, corre contra o tempo, desvendando códigos e charadas.

“Inferno” , o romance, é uma deliciosa salada mista sobre o pós-humano, misturando arte, literatura, religião, alta tecnologia, engenharia genética e assassinato em massa. Em resumo: é má literatura de boa qualidade.

Para a crítica sisuda, as colagens esquizofrênicas que Dan Brown faz de obras-primas da arte e da literatura, de organizações secretas, de fatos científicos e históricos não passam disso: colagens esquizofrênicas.

É claro que “Anjos e Demônios”, “O Código Da Vinci”, “O Símbolo Perdido” e agora “Inferno” , se pudessem falar, se pudessem repetir o tom jocoso do Coringa, perguntariam para a crítica sisuda: “Why so serious?”.

Discutir seriamente best-sellers como esses, valendo-nos de rigorosos critérios da alta literatura, é perda de tempo. O único critério válido é o afetivo. Amamos certos livros porque amamos certos livros. Da mesma maneira que amamos certas pessoas. Ficar racionalizando sobre a origem ou a natureza desse amor é inútil.

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