Exemplar de ‘Mate-me por favor’ está entre o material apreendido na casa de um acusado de tentar invadir Alerj

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Material apreendido na casa de Arthur dos Anjos indiciado por dano e formação de quadrilha durante as manifestações no Centro Diego Reis / Divulgação Polícia Civil

Eduardo Rodrigues, em O Globo

RIO — “O mais incompreendido fenômeno pop”. É assim que os autores Legs McNeil e Gillian McCain definem o punk rock, logo na abertura do livro “Mate-me por favor”, onde contam a história do movimento que conquistou os jovens desiludidos nos anos 1970 e até hoje influencia moda, comportamento e música sem nunca perder o tom controverso. Pois mais uma vez o agressivo estilo musical está confundindo. Entre o material apreendido na casa de um dos acusados de tentar invadir a Alerj durante as manifestações no Rio apareceu um exemplar de “Mate-me por favor”.

– O livro foi apreendido para demonstrar a ideologia (do acusado) perante a nação brasileira, de defesa da anarquia – disse o delegado Mario Andrade, responsável pela investigação.

No Brasil, “Mate-me por favor” foi publicado pela L&PM. Um dos diretores da editora, Ivan Pinheiro Machado, publicou uma dura crítica à apreensão em seu blog, com o título “O livro e o delegado”. No texto ele relembra a época da ditadura militar, quando policiais invadiram a sua casa e apreenderam “centenas de livros da bilbioteca” de seu pai.

A obra conta a história do punk rock, através de entrevistas com alguns dos principais nomes do gênero nos anos 1970, como Lou Reed, Iggy Pop, Patti Smith, Wayner Kramer e Dee Dee Ramone. O livro narra as raízes do movimento, desde o início do Velvet Underground na Factory de Andy Warhol, até a consolidação da cena em Nova York nos anos 1970 e a chegada ao Reino Unido, onde estouraria com Sex Pistols e The Clash.

Leia abaixo a íntegra do post de Ivan:

“Meu pai era um inimigo da ditadura militar de 1964. Por isso nossa família sofreu vários tipos de intimidações e perseguições. Minha casa foi invadida várias vezes pela repressão. A que mais me marcou foi o dia em que a polícia política (Dops) invadiu nossa casa e prendeu centenas livros da grande biblioteca do meu pai. “Vamos queimar esta imundície comunista”, dizia o delegado, jogando ensaios de Marx e Schopenhauer numa caixa de lixo.”

“Ontem, eu vi um delegado exibindo na TV um livro publicado pela L&PM Editores: “Mate-me por favor”, dos jornalistas e críticos musicais Legs McNeil e Gillian McCain, apreendido na casa de um suposto vândalo.”

“Não me interessa o que o rapaz fez. Mas o que me chamou a atenção foi a naturalidade com que o delegado apreendeu o livro. Um delegado que não serve a uma ditadura e apreende um livro é porque tem a vocação do autoritarismo. E nenhum respeito por um livro. “Mate-me por favor” é um livro maravilhoso, editado por minha indicação. Não faz a apologia da violência. Muito pelo contrário. Ele trata de jovens que foram abandonados pelo sistema e elegeram a música como uma forma de protesto. E esta música foi uma bofetada no sistema. Esta música fez com que os delegados e os políticos voltassem os seus olhos para uma enorme legião de jovens sem futuro e sem emprego nos idos dos anos 80. A L&PM Editores, meu caro delegado, já foi vítima durante sua história nos anos sombrios da ditadura de vários delegados que odiavam livros.”

“O que me surpreende é que um bom livro seja alinhado junto a facas e correntes e exibido na TV como se fosse uma arma. E ninguém diz nada. Lembrou-me do tira ignorante que invadiu a casa do meu pai nos anos 70 para prender os “livros comunistas”. Ele não teve dúvidas; atirou-se na estande e pegou ‘O vermelho e o negro’, de Stendhal, como um símbolo desta “corja vermelha que quer tomar conta do país…”

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