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Publicado no UOL

Qual a justificativa para o sucesso dos livros “50 Tons de Cinza”? A trilogia (que vai até virar filme) atraiu tanta gente por que sugere práticas sexuais que podem apimentar relações, ou por que reflete uma tendência que ganhou espaço na população? O tema, picante, foi discutido por neurocientistas no 9º Congresso Brasileiro de Cérebro Comportamento e Emoções, que termina neste sábado (29), em São Paulo.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex – Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o fenômeno pode contribuir, sim, para tornar um comportamento que antes considerado alternativo como algo convencional, mas isso só deve acontecer se o sucesso de “50 Tons” sair das páginas e chegar, por exemplo, às novelas.

Ela ressalta que, não por acaso, a última versão do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sigla em inglês) amenizou a descrição do sadomasoquismo e deixa claro que nem toda prática sexual “diferente” representa um problema que deva ser tratado.

Diferentemente das edições anteriores da  “bíblia” da psiquiatria, a quinta edição do DSM aponta critérios específicos para que o prazer em causar ou sentir dor seja classificado como transtorno. Em resumo, um sadomasoquista só deve buscar tratamento se essa preferência sexual estiver causando algum prejuízo para sua vida ou para a de terceiros. Em outras palavras, se a prática for consensual e segura, como pregam os praticantes, não há por que ser considerada doentia.

“Mas isso é diferente da pessoa que é prisioneira dessa situação”, comenta Abdo. Quem só consegue obter algum tipo de prazer por meio da dor provavelmente foi vítima de abuso ou presenciou formas de violência na infância – pelo menos essa é a hipótese mais aceita por especialistas.

O geneticista Renato Zamora Flores, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, outro palestrante do congresso, afirma que essa associação foi confirmada em muitos estudos. Mas ele  também chama atenção para o fato de que dor e prazer estão juntas em algumas áreas do cérebro. “A dor controlada pode servir para ‘acordar’ o cérebro porque estimula o sistema límbico”, explica. Ele, contudo, acredita que o sadomasoquismo de “50 Tons” não passa de um modismo.

Vale lembrar que, em 1952, o DSM classificou oficialmente a homossexualidade como transtorno mental. Após críticas durante a década seguinte, a orientação sexual deixou de ser considerada doença, contanto que o indivíduo não tivesse conflitos em relação a isso – o que foi chamado de “homossexualidade egodistônica”. Só em 1987 é que a homossexualidade saiu da “bíblia” dos psiquiatras. E, em 1990, deixou de ser considerada doença para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

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