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Rafael R., no Casmurros

Conheci o livro de Juli Zeh por causa de uma propaganda que eu vi na MTV. Durava quase dois minutos e tinha como trilha sonora a bombástica canção “Movement”, do LCD Soundsystem. Ao final, aparecia em letras garrafais o título A menina sem qualidades.

Talvez você não saiba, mas esse esse título faz referência direta ao livro O homem sem qualidade, de Robert Musil, considerado por dez entre dez críticos como a maior obra literária do século XX. Tudo o que você quiser saber sobre esse catatau de 1280 páginas, muito mais comentado do que propriamente lido, está espalhado na internet em resenhas, análises, comentários etc. Sua beleza está escondida num complexo emaranhado de referências políticas, econômicas e culturais do período que antecipa a Primeira Guerra Mundial. Musil queria fazer um livro sobre todas as coisas que existiam no mundo, a coisa levou anos e tomou proporções gigantescas até que seu editor recortou uma parte do projeto e publicou um livro quase enciclopédico por onde desfilam toda a sorte de personagens e histórias. Tem muito humor, apesar de parecer cabeçudo.

Pois bem, a obra de Musil entrou em domínio público justamente em 2013 e quando vi a chamada na TV achei que fosse alguma homenagem. Foi assim, que cheguei em Juli Zeh. Na verdade, o livro foi publicado em 2004 e descobri que o título em alemão não é Das Mädchen ohne Eigenschaftenseu, mas Spieltrieb – uma daquelas famosas palavras alemãs que são bem difíceis de traduzir. Muito sabiamente, a edição em português traduzida por Marcelo Backes, tem um apêndice com diversas notas explicativas (que ajudam muito o leitor) e inclui uma rápida explicação do tradutor para a adoção do título. Lá, Backes conta que o título, em tradução literal, a tal palavra em alemão significa algo como ‘lidicidade’ ou ‘pulsão para o jogo’. Acho que as duas possibilidades estariam aquém da beleza da história e dariam ao livro um ar um tanto esquisito. Foi comparando com outras traduções que Backes descobriu a versão francesa com o título de La fille sans qualités. Fazia todo o sentido, na medida em que o livro é quase uma atualização (uma releitura, uma homenagem, um estudo) ao livro de Robert Musil. Além disso, a escolha ajuda na circulação do nome de Juli Zeh – uma revelação da literatura alemã contemporânea inédita no Brasil, até então.

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O enredo gira em torno do jogo perverso estabelecido por dois adolescentes Ada e Alev contra seu professor Smutek. Ela tem uma inteligência acima da média, leu todos os clássicos mais importantes da literatura aos 16 anos e sente um vazio existencial incapaz de ser preenchido. Ele encarna o duplo perfeito dela no desprezo pelas pessoas e pelo mundo. Juntos eles começam a seduzir e chantagear Smutek, um professor muito popular no colégio em que estudam.

Tal qual Musil, A menina sem qualidades é ambicioso, um liquidificador de referências culturais da música pop e da literatura tendo como mentores Musil e Vladimir Nabokov – o nome da protagonista Ada tem ligação com o romance Ada ou ardor, de Nabokov. De modo resumido, o enredo funciona como uma espécie de sátira sobre os dilemas da crítica ao mundo contemporâneo (o grande vazio de sentido que ronda as pessoas, a crise de identidade, os problemas econômicos etc.), e sobre as dificuldades da adolescência.

Muito viram uma filiação a tradição alemã de livros tendo jovens adolescentes como tema principal: vai desde a peça O despertar da primavera, de Frank Wedekind a Debaixo das rodas, de Herman Hesse; passando inclusive por outro livro de Musil, O jovem Törless.

A menina sem qualidades teve tanto impacto que já ganhou uma versão para o teatro e para o cinema. Foi Marcelo Backes quem sugeriu para o diretor Felipe Hirsch a adaptação para a série da MTV. A trilha sonora conferiu um ar demasiado ‘cult’. No livro, a banda favorita de Ada é Evanescence.

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