Isabelle Moreira Lima, na Folha de S.Paulo

Prazos, para escritores, são sempre tensos: o editor quer menos tempo, o autor quer mais. Nos agradecimentos do livro de ensaios “Pulphead – O Outro Lado da América” (Cia. das Letras), o escritor John Jeremiah Sullivan menciona “aqueles que demonstraram gentileza e compromisso com o prazo”.

John leva entre seis e nove meses para produzir um ensaio. E, eventualmente, atrasa. A justificativa? Pesquisa extensiva e extremo apuro formal.

Em seu último livro, com trabalhos escritos entre 1997 e 2011, sobre assuntos como um festival de rock cristão, a aura do neoconservadorismo americano e a genialidade esquecida de Michael Jackson, o ensaísta teve de revisitar e aprofundar textos há tempos publicados e abandonados. “Odeio o meu trabalho de uma semana atrás, nem tenho cópias dos meus livros em casa. Foi terrível.”

John Jeremiah Sullivan

O escritor americano John Jeremiah Sullivan, que vem para a FLIP, mistura estilos diferentes para escrever sobre temas não menos distintos: do fim do Guns N’Roses até suas relações familiares (Sebastian Lucrecio)

O escritor americano John Jeremiah Sullivan, que vem para a FLIP, mistura estilos diferentes para escrever sobre temas não menos distintos: do fim do Guns N’Roses até suas relações familiares (Sebastian Lucrecio)

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios (Sebastian Lucrecio)

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios (Sebastian Lucrecio)

John escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz (Sebastian Lucrecio)

John escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz (Sebastian Lucrecio)

O fruto dessa “terrível” experiência, sucesso de público e crítica, será assunto na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 3 e 7 de julho, em que ele participa de uma mesa sobre “a arte do ensaio”.

Nos EUA, “Pulphead” foi considerado um dos cem livros notáveis do ano pelo “New York Times”. Para a “Time”, ficou entre as dez melhores obras de não ficção, sob a justificativa de que, “com David Foster Wallace e Hunter S. Thompson mortos e Tom Wolfe praticamente aposentado, não restam muitos escritores com coragem e cérebro para confrontar nossa cultura e não se deixar contaminar pelos seus absurdos”.

A primeira ideia era que eu o acompanhasse na festa trimestral da revista “Paris Review”, em que trabalha como editor, em Nova York. Seria interessante -eu repetiria seus próprios passos, quando acompanhou Miz, subcelebridade conhecida pelo reality show “The Real World”, da MTV, em uma balada.

A segunda opção seria uma viagem à Carolina do Norte, para conhecer a casa onde vive com a família. Fiquei espantada com sua generosidade: ele me disse que eu poderia dormir lá.

Acabamos em um banco de praça, em Nova York. Era uma tarde de sábado. Ali, John falaria, entre tragadas de um cigarro que ele mesmo enrolou, sobre sua vida de escritor, o livro que lança no Brasil, seu próximo trabalho e a entrevista em si. “O meu trabalho é fazer exatamente o que você está fazendo.”

VELHO NOVO ENSAIO

John discorda dos críticos que o consideram expoente de um estilo batizado como “o novo ensaio”. “Se você lê bastante, vai ver que esse jeito de escrever sempre existiu. O que acontece é que, de vez em quando, as pessoas voltam a ficar interessadas no assunto e colocam a palavra ‘novo’ na frente.”

Como ele mesmo define, o formato ensaio, em sua versão “século 21”, dá conta de uma escrita em primeira pessoa, caracterizado pela análise e argumentação em torno de um tema. E faz uso de estratégias literárias, como o cuidado com a forma e a tensão narrativa, “como se fazia no século 18”.

Geralmente, há dois caminhos para quem passa meses trabalhando em um texto assim, que requer extremo aprofundamento do tema: a repulsa ou a obsessão. John costuma ser vítima do segundo.

Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios. Foi perseguido pelos ingleses e morreu na prisão, em 1743. Para o trabalho, aprendeu a ler em alemão.

“Você está perto de terminar?”, pergunto. “A resposta depende do quão deprimido estou. Algumas vezes, diria que tenho 60%. Em outras, tenho 4%.”

Na segunda locação da entrevista, um café ao lado do hotel em que estava hospedado com a mulher e as duas filhas, de dois e sete anos, ele fala devagar, com longas pausas entre as ideias. Com o olhar distante, dá a impressão de ter deficit de atenção. Mas o raciocínio seguinte à pausa é tão articulado que logo a hipótese é descartada.

John acredita ter se tornado escritor na infância. Nascido em Louisville, Kentucky, no sul dos Estados Unidos, em 1974, filho de um jornalista esportivo e de uma professora de inglês, ele conta que nunca teve muita esperança de “escapar do carma de escritor”.

Escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz. Para James Wood, crítico de literatura da revista “New Yorker”, sua principal característica é a qualidade de camaleão, de adaptar a voz narrativa ao assunto que está sendo abordado.

Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura (Paulo Whitaker/Reuters/Michael A. Mariant/Associated Press)

Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura (Paulo Whitaker/Reuters/Michael A. Mariant/Associated Press)

ESQUISITOS E PROBLEMÁTICOS

Mas talvez o traço mais marcante do autor seja a capacidade de retratar personagens esquisitos, problemáticos ou fracassados com doses iguais de humor e generosidade. “Eu parto do pressuposto de que todos nós somos prejudicados pela vida. Tento ver o personagem não com empatia, mas a partir de uma postura de igualdade.”

Após a terceira e última mimosa (espumante com suco de laranja), diz que quer saber mais sobre o Brasil. Quase foi ao país para acompanhar a ação da polícia no Complexo do Alemão, em 2010. Agora, espera conhecer outras cidades além de Paraty, Rio e São Paulo. “Você me recomenda alguma outra região?”

Por ele ter nascido no sul dos EUA, digo que o Nordeste poderia apresentar paralelos interessantes. Falo sobre a colonização, sobre Salvador, sobre a influência africana na cultura da região. Apaixonado por música (toca vários instrumentos e escreve seguidamente sobre o assunto), ele pergunta sobre os artistas locais. E a conversa termina com um interrogatório sobre Caetano Veloso.

Não duvidaria se dali nascesse uma nova obsessão.

VEJA TRECHO DE “O ÚLTIMO RETORNO DE AXL ROSE”, DE “PULPHEAD”

Será que a banda não deveria voltar? Será que não percebem o impacto gigantesco que isso causaria? Dana Gregory me contou que Slash e Izzy nunca mais vão tocar numa banca com Axl. “Conhecem ele bem demais.”

Eu não conheço nem um pouco do Axl. Se o pessoal dele tivesse deixado a gente conversar, talvez ele tivesse me mordido, me batido e me mandado manter meus pirralhos de merda dentro de casa, e eu seria capaz de transcender esses sentimentos.

Mas, nas circunstâncias atuais, tudo que posso fazer é ouvir “Patience” mais uma vez. Não sei como são as coisas aí onde você mora, mas aqui no Sul dos Estados Unidos, onde estou, essa música ainda toca o tempo todo.

E eu assobio junto e espero por aquela voz, perto do fim, quando ele canta “Ooooooo, I need you. OOOOOO, I need you”. E naquele primeiro Ooooooo ele alcança uma nota capaz de esgarçar tecidos. Ela conjura a imagem de alguém arrancando o próprio escalpo como se fosse uma casca de uva.

Preciso tomar cuidado para não tentar cantar junto nessa parte, porque isso pode fazer você meio que se engasgar e quase vomitar um pouquinho. E no segundo OOOOOO você enxerga apenas um crânio desnudo, verde e brilhante pairando ali, vibrando de boca escancarada numa cela de prisão.

Ou sei lá eu o que você enxerga.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments