Foto: Gabriel de Paiva

Foto: Gabriel de Paiva

Publicado em O Globo

A relação de Gilberto Gil com a Flip é antiga. O baiano participou da primeira edição do evento, há onze anos, e agora voltou a Paraty para fazer o show de abertura da festa, participar de uma mesa de discussão sobre culturas locais e lançar a sua biografia, escrita por ele em conjunto com a jornalista Regina Zappa. Na coletiva de imprensa, Gil destaca a importância das fotos escolhidas para a publicação e, modesto, diz não achar que a sua vida valeria um livro.

– O livro não era um anseio meu, mas ele trata de alguém que teve a vida pública durante muitos anos, e é natural que as pessoas queiram esses retratos de um homem velho. É bom voltar a certos fatos, revisitá-los, com os equívocos que os buracos da memória já trouxeram – diz o músico, que completou 71 anos em junho.

Ao falar de Graciliano Ramos, o autor homenageado na Flip deste ano, Gil lembra a proximidade com o alagoano. Os dois nasceram em pequenas cidades do sertão nordestino, onde a paisagem é muito ligada à literatura do escritor.

– Quando a minha geração se interessou pela questão social do Brasil, Graciliano se tornou logo uma referência, nesse sentido de observação das desigualdades e assimetrias entre as regiões do país.

A preocupação com os problemas sociais acompanha Gil por toda a vida. Na coletiva, ele repetiu críticas aos preços exorbitantes dos ingressos para a Copa, que excluem a população mais pobre.

– Os jogos ficaram exclusivos para a classe média. Como as pessoas da periferia vão fazer para ir à Copa? Durante a Copa das Confederações, quase não se viam negros nos estádios. De onde vêm o Hulk, o Neymar, o Ronaldo? De setores simples, da periferia. A história do futebol vem desses lugares – defende Gil.

Sobre o momento histórico de protestos que o Brasil está vivendo, o músico se diz a favor, mas é um pouco cético em relação aos resultados que podem ser alcançados.

– A gente aprende ao longo da vida a não ter resoluções completas. Os problemas não se resolvem sozinhos, cada solução é um novo problema. O homem velho tem essa capacidade de entender que as coisas não chegam ao fim, elas melhoram em um aspecto e pioram em outro. Espero que essas manifestações continuem tão intensas quanto seja necessário.

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