Ignácio de Loyola Brandão no Estadão

“Uma relação homossexual não é apenas pecaminosa, mas acima de tudo ilegal… Um homossexual, que se dedica a um vício impuro, é um indivíduo repulsivo e aberrante… O homossexualismo é uma enfermidade, uma insanidade, uma impureza, e um caso de interesse médico-legal… A lei criminaliza a “flagrante indecência” entre homens… A sodomia (o termo antigo, derivado da Bíblia, que descrevia o sexo “anormal”) era um crime previsto na Lei de Delitos contra a pessoa…”

Estou reproduzindo os discursos do pastor Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos? Reproduzo os argumentos daquele deputado João Campos que pretendia a cura gay? Estou transcrevendo os pensamentos do Silas Malafaia (é isto mesmo? Ou errei?), mais um zero à esquerda perigoso na Câmara. Estou traduzindo fielmente o pensamento desses homófobos que vivem por aí?

Não. Por mais atuais que pareçam as palavras, a ideologia, a filosofia neste ano de 2013, tudo o que copiei acima, copiei da apresentação do romance O Retrato de Dorian Gray, obra-prima de Oscar Wilde, de 1891. São definições, afirmações, preconceitos, imprecações que vêm do século 19. Leram século 19? Pois é isso. Essas aberrações têm mais de cem anos, vêm de 1895, quando o escritor Oscar Wilde foi processado por homossexualismo e encerrado numa prisão por dois anos e meio.

Nesse meio tempo, o mundo mudou, a humanidade se transformou, o homem foi à Lua, os satélites desceram em Marte, um negro foi eleito presidente dos Estados Unidos, uma mulher foi eleita presidente do Brasil (mas não está adiantando nada), um papa renunciou, o Muro de Berlim caiu, o comunismo sumiu, as esquerdas entraram em colapso, o PT se encalacrou, o Lula fugiu quietinho, o Eike fracassou como empresário, a Rússia afundou, mulher nua todo mundo está cansado de ver em revista, pornografia circula pela tevê aberta, fechada, os traficantes mandam no mundo, o terrorismo está por aí aterrorizando, claro, o povo está nas ruas do Brasil, clamando contra a corrupção que vai do alto de Brasília aos porões do Brasil. E João Campos, Malafaia e Feliciano, evangélicos, bradam contra os gays e o homossexualismo, não perceberam que a Terra se move, continua a se mover… E pur si muove, disse Galileu!

Ah, que momento decifrado pela Editora Globo para lançar esse livro. Um volume chique, oscarwildiano. Acho que ele, refinado, dândi, elegante, culto, esnobe, gostaria de ver essa edição tão caprichada. Quanto a mim, confesso que venho respirando com alívio, nem tudo está perdido, as coisas mudam às vezes para melhor. Essa Biblioteca Azul da Editora Globo está me trazendo de volta a mim mesmo, uma coisa que eu necessitava para não perder o pé inteiramente.

Há uma nostalgia, admito, mas fazer o quê? Quando vi A Comédia Humana, quando abri a nova edição de As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, quando coloquei as mãos no Retrato de Dorian Gray, me vi sentado na sala em penumbra da biblioteca Mário de Andrade de Araraquara, entre os meus 15 e 20 anos. Aquelas estantes saturadas de livros encadernados em vermelho, aquelas lâmpadas baças, aquela mesa imensa, pesada, fizeram parte de um período muito feliz, o de leituras constantes, ininterruptas, contínuas, vorazes. Por que a sala não era clara, iluminada intensamente? As lâmpadas opacas faziam parte de um ritual de recolhimento?

Aquela biblioteca era rica, hoje vejo. Erguia a mão e apanhava qualquer um dos volumes da Coleção Nobel, da Globo de Porto Alegre, da qual descende esta Globo, hoje em São Paulo. Volta a ser a mesma depois de um período de carência, digamos. Naquela sala li Charles Morgan e Somerset Maugham, li Aldous Huxley e Pearl Buck, e tantos outros. Li comédias gregas, ou Ibsen, era vasto o catálogo, que me tirava daquela cidadezinha estreita (para mim), provinciana, limitada. A Nobel me levava ao mundo, explodia limites, cancelava o tempo.

A biblioteca fechava às cinco da tarde, mas nós, aquele grupo reduzido de ensandecidos, podíamos ficar até as seis, com direito ao café do Santo, o contínuo careca e jovial. O prefeito passava e dizia: “Por que não levam os livros para casa?”. Levávamos, mas aqueles líamos em casa, à noite; esses eram os livros da tarde.

O Retrato de Dorian Gray tão falado, comentado, proibido, achincalhado, dolorido, sofrido. A edição que nos passou pelas mãos, naqueles anos 50, era pobre, expurgada, censurada, retalhada, nem entendemos direito. Agora, é uma edição integral, ‘inexpurgada’. Foi preciso passar mais de um século para que pudéssemos voltar a ler edições integrais, seja a de Oscar Wilde, seja a das Mil e Uma Noites. Pode haver de tudo neste mundo atual, confusão, terrorismo, violência, banalização do sexo e da morte, corrupção, mas há a recuperação de livros fundamentais. Daí esse aprendizado: temos de fazer, aconteça o que acontecer. Podemos ser censurados, proibidos, cortados em trechos, cenas, palavras, mas um dia seremos lidos integralmente. Há que ter essa confiança no futuro e na história.

Edição impecável, primorosa, com pequenas, digamos, iluminuras, como em livros antigos. E o restauro de todas as páginas retiradas do livro por causa dos Felicianos, Campos e Malafaias dinossáuricos e infelizes da Inglaterra do século 19. O livro está inteiro, como Wilde escreveu. Notas – e são centenas – nos conduzem por esse livro corajoso, aberto, libertário. Cedo ou tarde, a obra de arte vence a estupidez, a ignorância, o preconceito, a imbecilidade. Wilde está vivo.

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