Publicado no O Diário de Mogi

Chega ao Brasil, “Francisco – um papa do fim do mundo”, primeiro livro publicado sobre o novo papa. O especialista em religião e Vaticano Gianni Valente, amigo do cardeal Jorge Mario Bergoglio desde 2002, traça nessa obra um perfil do líder religioso argentino, de seu trabalho junto aos pobres nas favelas e da ação de suas ideias.

No livro, ele é retratado como pastor generoso e caridoso de seu desvalido rebanho de fiéis, mas também como crítico destemido do liberalismo econômico, da especulação financeira, da evasão fiscal, da falta de respeito às leis e da corrupção política e empresarial. É um perfil sucinto, mas poderoso, do papa que a cada dia surpreende o mundo com seus gestos. No Brasil, desde a última terça-feira, ele se mostrou próximo do povo quebrando o protocolo em diversas ocasiões.

O livro conta passagens como a ocorrida na década de 60, quando um grupo de sacerdotes foi morar nas favelas de imigrantes da capital argentina, para apoiá-los nas lutas políticas e sociais. Em 2001, quando a economia argentina entrou em colapso, os efeitos sobre a população pobre foram devastadores. O papel daqueles padres e de seus discípulos — entre os quais o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, o atual papa Francisco — foi decisivo para consolar e orientar aquelas pessoas.

O jornalista Gianni Valente, um dos maiores especialistas em catolicismo do mundo, foi várias vezes à Argentina, desde 2002, e tornou -se amigo do arcebispo que veio a ser cardeal e finalmente papa.

O primeiro livro sobre o papa Francisco foi publicado na Itália 30 dias após a eleição do religioso. Não se trata de uma biografia, mas de uma boa reportagem que mistura lembranças, situações e — o que mais importa — as ideias desse papa que se revelou, desde o primeiro dia, bem diferente de seus antecessores.

Francisco é apresentado juntamente com aqueles padres que, nas favelas, ouviam o choro escondido — para que os filhos não vissem — dos pais e mães que haviam perdido o emprego e não viam nenhuma perspectiva de futuro. Aqueles padres enfrentavam o desalento, a violência, o tráfico de drogas, mas não abandonavam o seu rebanho. O futuro papa Francisco aparece aqui como o pastor generoso e caridoso daquele rebanho, mas também como o firme defensor  dos dogmas católicos e crítico destemido do liberalismo econômico, da especulação financeira, da corrupção política e empresarial.

A dilapidação do dinheiro do povo, o liberalismo extremo mediante a tirania do mercado, a falta de respeito à lei, a perda do sentido do trabalho são temas que o papa Francisco enfrenta com firmeza, diante do amigo jornalista que não o poupa de nenhuma pergunta.

O culto ao dinheiro fácil, diz Francisco, é como se fosse uma idolatria, a homenagem a um bezerro de ouro que a Igreja precisa enfrentar, aliada aos homens de bem. O império do dinheiro acaba com o trabalho, o meio pelo qual se expressa a dignidade do homem.

Homem simples, de hábitos austeros, o papa Francisco a cada dia surpreende com seu jeito diferente de ser.

Sobre o autor

Gianni Valente é jornalista da agência Fides, colaborador do site Vaticaninsider, do diário La Stampa e da revista de geopolítica Limes. Trabalhou também na revista mensal 30giorni, publicada em vários idiomas, e para a qual fez as reportagens e entrevistas que deram origem a este livro. Valente escreveu dois livros sobre o papa Bento XVI, Ratzinger professore e Ratzinger al Vaticano.

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