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Thalles Libânio, no Vá Ler Um Livro!

O poeta alagoano Geraldino Brasil, radicado em Pernambuco por várias décadas, nunca foi chegado à convivência com outros escritores. “Não passam de falsos”, dizia dele. Justamente por isso, ele escrevia para as próprias gavetas ou lançava livros sem alarde, com edições mal cuidadas.

Com sua mania de viver isolado, o futuro do poeta não passaria do ostracismo se não fosse por uma carta recebida em 1979, de remetente desconhecido. Nela, o poeta colombiano, Jaime Jaramillo Escobar, dizia ter em mãos um dos livros de Geraldino, que embora tivesse capa feia, possuia textos tão bons que ele desejava traduzir as obras para o castelhano. E esse foi o começo de uma extensa troca de correspondências entre os autores, 145 cartas ao total, que vão de 1979 até 1995.

Um dos maiores fãs do escritor brasileiro era o então presidente da Colômbia, Belisario Betancur, cujos discursos eram inspirados nas poesias do alagoano. Enquanto continuava desconhecido em terras brasileiras, o poeta alagoano, residente em Recife, era chamado de San Geraldino em terras porto-riquenhas.

A amizade entre Jaime e Geraldo Lopes, seu nome de batismo, se manteve por 16 anos, mesmo falando-se apenas por intermédio dos correios, pois nunca se conheceram pessoalmente. As conversas datilografadas ou manuscritas eram sobre política, religião, realidade dos dois países, o fazer poético, as obras de Fernando Pessoa, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade.

Em 1996 com a morte de Geraldino Brasil, sua filha, Beatriz Brenner entrou em contato, com o confidente do seu pai, para dizer que escreveria um livro, espécie de biografia de Geraldino, baseada naquelas cartas. Para sua surpresa, Jaime Escobar já havia feito o mesmo e lançado na Colômbia a obra Cartas con Geraldino Brasil. O fato motivou a escritora formada em arquitetura a dar continuidade ao projeto que já está em andamento há três anos.

Há dois anos, Beatriz viajou para a Colômbia até o encontro de Jaime, hoje com 81 anos. Ela conta que foi como se estivesse reencontrando o seu pai. Um homem sábio e inspirado a todo o momento. Em 2012, a Companhia Editora de Pernambuco publicou A intocável beleza do fogo, com poesias inéditas de Geraldino Brasil.

Com lançamento previsto apenas para 2014, a obra Um lugar no tempo vai compilar trechos das cartas. montados como se fosse uma conversa entre os escritores. Beatriz diz que precisou de 17 anos de preparação psicológica para escrever o livro, cujo local de trabalho é a mesa da sala. Naquele ambiente repleto de papéis catalogados, ela faz ajustes finais na obra e justifica decisões tomadas para manter a essência das cartas.

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