Por que os ficcionistas nacionais sofrem de falta de imaginação e autocomplacência

Luís Antônio Giron, na Época

Que grande romance brasileiro surgiu nos últimos 20 anos? Que autor nacional gera discussão ou mesmo revolta com suas histórias que quebram tabus? Há um escândalo nas rodas literárias capaz de indignar a nação? A resposta é um triplo não. A estagnação se apossou da vida literária do Brasil – para não mencionar a vida cultural como um todo. Nem as celebridades consagradas e muito menos as novas gerações conseguem lançar obras importantes. Vou tentar analisar as cinco razões de nossa absoluta esterilidade.

Em primeiro lugar, sofremos de superprodutividade e hiperatividade. Mas o volume de lançamentos não condiz com a qualidade dos textos. No Brasil, são lançados cerca de 2 mil títulos de ficção nacional por ano, entre romances, novelas e contos. Os blogs literários abundam, além de ficção via Twitter e Facebook. Mais de cem festivais de literatura inspirados na Festa Literária Internacional de Paraty acontecem pelo país inteiro. São eventos que movimentam e dão aos escritores emprego e uma razão de existir. Eles promovem o contato estreito entre autores, editores, jornalistas, agentes, blogueiros e microblogueiros. São festivais tão intensos que vivem de si próprios, dispensando até a figura do leitor. Os autores adoram se ler mutuamente – e distribuir elogios sob a condição de receberem igual honraria num futuro próximo. Também dão declarações para tudo que é veículo de comunicação, mesmo que não tenham nada a dizer de fato. Por seu turno, os críticos respondem em suas resenhas e tuites com uma comovente cumplicidade. E participam de júris que premiam os mesmos escritores.

Essa prática – eu diria círculo vicioso – dá origem à segunda causa da miséria intelectual que assola o país: a autocomplacência da classe autoral, se é que podemos dizer assim. Nunca houve tanta gente escrevendo tanto, nem tanta bobagem. Aqui se encaixa uma terceira razão: como todo mundo se cansou da velha geração de ficcionistas, que se repetia e chafurdava na própria mediocridade, a solução foi depositar as esperanças nas gerações mais frescas. O resultado é o atual culto à juventude dourada da literatura. Os jovens adquiriram o direito – que os moços do passado não tiveram – de escrever o que bem entendem, com todo o brilho da falta de experiência e de visão de mundo que lhe são característicos. A leviandade e a abordagem superficial são encaradas com bonomia pelos especialistas e agentes literários, que aprovam tudo o que é produzido pelos romancistas, desde que tenham menos de 30 anos.

Tudo isso seria perdoável caso os novos e velhos autores estivessem se ocupando de temas relevantes. A ausência de assunto é a quarta razão. Não vou citar nomes porque seria dar corda à polêmica. Tenho me debruçado com grande boa vontade sobre a ficção brasileira contemporânea. E, salvo exceções, o resultado é desapontador. O assunto predominante dos romancistas atuais é o próprio umbigo dos romancistas atuais. Os protagonistas desses romances e narrativas curtas não passam de extensões mais ou menos infiéis de seus autores, em geral indivíduos com problemas de criatividade ou, em casos mais graves, dor de corno. Eles criam tramas onfálicas e autoficcionais que giram em torno da própria barriga ou do próprio sexo. Não há ambição e nem mesmo o risco de errar.

Nenhum autor parece se importar com a investigação da alma humana e das sombras do inconsciente. Alguns são partidários da fantasia e da trama policial, embora eles não façam mais que uma frágil imitação do romance pop e dos quadrinhos. Pouquíssimos se preocupam em lidar com a agitada história do Brasil, mesmo a recente. Até porque todo mundo já se esqueceu de que um dia tivemos uma ditadura, fomos muito pobres e analfabetos. Eram tempos em que surgiam autores como Machado de Assis e João Guimarães Rosa – figuras hoje tão veneradas como pouco lidas, pelo menos por quem deveria lê-los. A falta de imaginação matou o espírito dos autores. Estão tão mortos que não se importam nem mesmo com os leitores.

Nem vou me deter no aspecto do estilo, pois este foi deixado de lado há muito tempo. Os jovens romancistas consideram o experimentalismo e o uso poético da narrativa uma atividade ultrapassada. Mesmo assim, fazem questão de imitar alguns modelos experimentais. Nove entre dez autores locais com menos de 30 anos querem virar a reencarnação de David Foster Wallace, o autor americano que, sintomaticamente, se enforcou em 2008 durante uma crise de criatividade, enquanto tentava escrever o romance The pale king. As versões tupiniquins de Foster Wallace não correm risco e não fazem o favor aos leitores de se suicidarem… Quem sabe assim adquirissem um status de mito post mortem.

Infelizmente, não há nem um único cadáver jovem para abrilhantar a literatura brasileira contemporânea. Os escritores estão todos vivos, saudáveis e desfrutando de viagens planetárias e projetos de renúncia fiscal. Eis aqui o quinto motivo de nosso por assim dizer excesso de modéstia literária: o poder do marketing. Hoje nenhum contador de histórias poderá triunfar sem se cercar de especialistas em promoção pessoal, institucional e comercial. Autores de ficção são produtos vendáveis: têm de reunir beleza, juventude e, de preferência, mas não obrigatoriamente, inteligência.

Deve existir alguma solução para aperfeiçoar a qualidade de nossos romancistas e contistas. Não consigo vislumbrar nada melhor do que aposentar prematuramente alguns deles – e sair em busca de talentos legítimos. Seria necessário uma limpeza na literatura nacional. Minha impressão é de que ela é bem pior que a do resto dos países ibero-americanos e perdeu um tempo tão precioso que não será capaz de se recuperar da inferioridade.

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