Escola pública de pequena cidade mineira torna-se a maior campeã da Olimpíada de Matemática ao estimular os alunos a estudarem até cinco horas após as aulas e distribuir prêmios como tablets

Wilson Aquino, na IstoÉ

Dores do Turvo é uma pequena cidade da Zona da Mata mineira, distante 320 quilômetros da capital Belo Horizonte. O nome homenageia a padroeira da cidade, Nossa Senhora das Dores, e o principal rio da região, o Turvo. Os 4,5 mil habitantes têm cotidiano de uma típica cidade do interior: passeiam na praça principal, que tem coreto e igreja matriz, e andam de charrete entre a área urbana e a rural. Nos anais da Câmara Municipal, consta que os filhos mais ilustres da cidade são um desembargador e um jogador de futebol – do Tupi, time mineiro da quarta divisão. Mas as montanhas que cercam o município guardam uma glória muito maior: Dores do Turvo desbancou todos os municípios brasileiros, incluindo as grandes capitais, na disputa pelo título de campeão da história da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), com 133 medalhas conquistadas. A cidade tem apenas uma opção escolar para alunos do sexto ano do ensino fundamental até o terceiro ano do ensino médio, a faixa que disputa a Olimpíada, a Escola Estadual Terezinha Pereira – e é de lá que saíram os vencedores, desde a primeira edição da prova, em 2005. São seis medalhas de ouro, sete de prata, 21 de bronze e 99 menções honrosas. O desempenho do município na proporção de alunos participantes versus medalhas conquistadas superou em seis vezes o resultado de Belo Horizonte, em dez vezes o do Distrito Federal e em 12 vezes o de São Paulo. No ano passado, dos 29 jovens dorenses que participaram dos exames, 26 foram premiados. O título de maior produtor de leite da região agora foi substituído, com orgulho, pela frase “A trilha do ouro da matemática”, estampada em outdoors pela cidade. “É uma honra danada para o povo dorense ver os filhos da terra sendo reconhecidos por seu talento em nível nacional”, afirmou à ISTOÉ o prefeito Ronaldo de Souza, o Roni (PMDB).

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CAMPEÕES
Evandro da Silva, Dávila Meireles e Filipe Arruda: moradores da área rural
do município, três medalhistas. Abaixo, o professor de matemática
Geraldo Amintas: “Só ganha quem se dedica”, diz ele

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Em um país com índices pífios na disciplina, qual é o segredo do bom desempenho da cidade? “Isso é resultado da aliança entre professores, pais de alunos e comunidade”, resume o professor Claudio Landim, coordenador geral da OBMEP. Os detalhes são dados pelo professor de matemática Geraldo Amintas, 54 anos, e incluem até estratégias questionáveis, como presentes. “Motivamos os alunos mostrando os benefícios da Olimpíada, como bolsas em cursos de iniciação científica e brindes distribuídos por ex-alunos bem-sucedidos, como aparelhos de MP3, camisas oficiais da Seleção Brasileira, máquinas digitais, celulares e tablets. Mas só ganha quem se dedica mesmo”, afirma. “Criamos uma cultura de participação na Olimpíada. Os alunos chegam à escola pela manhã, assistem às aulas normais e passam até cinco horas após o turno escolar debruçados sobre o material fornecido pelo OBMEP”, explica Amintas. Decorar fórmulas é um método descartado. A metodologia investe no raciocínio lógico, mas não permite que o processo seja estressante para o estudante, pois acredita que não há aprendizado de qualidade sob pressão.

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A Olimpíada de Matemática é um programa dos Ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia, em parceria com o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada e a Sociedade Brasileira de Matemática. A última edição contou com quase 20 milhões de alunos inscritos, representando cerca de 86% das escolas públicas do País. Os estudantes Dávila de Carvalho Meireles, 14 anos, Evandro Júnior Firmiano da Silva, 13, e Filipe Jessé de Castro Arruda, 15, têm em comum o fato de serem medalhistas e morarem na parte rural da cidade. Arruda, que ganhou condecoração de ouro, passou em um concurso e estuda, atualmente, em uma escola técnica de Juiz de Fora. Dávila teve, no ano passado, a melhor classificação do Estado de Minas e a segunda melhor de todo o País. Ela mora com o pai pedreiro e a mãe lavradora a 50 quilômetros do centro da cidade e, para chegar à escola diariamente, anda uma hora e meia de ônibus por estradas ruins. Modesta, atribui suas excelentes qualificações ao fato de ter “facilidade em aprender matemática”. Mas reconhece que os louros vindos da Olimpíada fizeram com que tomasse mais gosto pela matéria e a incluísse em seu projeto de vida. “Ainda não sei qual faculdade vou fazer. Mas, com certeza, vai ser algo relacionado à matemática”, diz ela.

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