Cidadão Pró-Mundo atende 700 alunos em 8 unidades em SP e no Rio.
‘Me tornei voluntária para retribuir oportunidades’, diz engenheira.

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Vanessa Fajardo, no G1

Todos os sábados de manhã, a recepcionista Rosa Pereira Gusmão, de 49 anos, e o filho Renan Francisco, de 14, aluno do 9º ano, têm aulas de inglês na escola estadual Renato Braga, no Jardim São Luís, bairro de baixa renda mais conhecido como Monte Azul, localizado na Zona Sul de São Paulo. As atividades são gratuitas e oferecidas pela ONG Cidadão Pró-Mundo que conta com professores voluntários. Rosa se sente feliz de conseguir dizer ao menos ‘hi’ quando tromba com algum estrangeiro no local de trabalho.

1“Sempre tive vontade de aprender inglês, mas a oportunidade nunca veio. Quis aprender para poder dar um acolhimento aos estrangeiros que chegam ao Brasil. No meu trabalho, tenho contato com eles, e me sinto bem de pelo menos conseguir cumprimentá-los”, diz Rosa, que começou a frequentar as aulas em fevereiro deste ano.

A escola que possui vidraças e carteiras quebradas é uma das oito unidades onde funcionam as aulas da Cidadão Pró-Mundo aos finais de semana. São seis no estado de São Paulo e duas no estado do Rio de Janeiro – em comum entre os endereços é o fato de estarem sempre em bairros de baixa renda.

Renan está em um nível mais avançado de proficiência no idioma do que o da mãe, que aprende as noções básicas, por isso costuma corrigi-la quando pronuncia algo errado. Ela não se importa. “Antes me sentia cega, agora começa a clarear um pouco, e estudar é bom para a cabeça”, afirma Rosa.

Rosa diz que o filho melhorou as notas de inglês na escola depois que começou a participar das aulas aos sábados. O garoto reconhece a necessidade. “Inglês é importante para arrumar um bom trabalho, aprendo mais aqui do que na escola.”

Quem também sabe disso é Mateus Viana Dorea Dias, de 16 anos, aluno do 2º ano do ensino médio na rede pública que tem grandes planos para o futuro. “Quero fazer faculdade de relações internacionais, intercâmbio no exterior, e ingressar na aeronáutica.” Para chegar lá, sabe que vai precisar ter o inglês afiado. Por isso, Matheus não costuma faltar às aulas na escola do bairro Monte Azul.

“As aulas são empolgantes, eu conto os dias para chegar. Os professores parecem seus amigos. Eu gosto de estudar, porque se você estuda nada é impossível”, diz o garoto, que trabalha como operador de caixa em uma loja. “Vai muito estrangeiro lá e posso treinar o inglês.”

Ítalo Dias Lourenço, de 15 anos, e Matheus Machado Castro de Macedo, de 14, também acreditam que o domínio do idioma vai ajudá-los a chegar mais longe. Como eles já estão no nível intermediário, sempre que podem conversam com estrangeiros ou familiares que têm conhecimento da língua para treinar um pouco mais. “Tenho um tio que mora no Canadá, sempre falo com ele, e penso, no futuro, fazer um intercâmbio.”

Luciana Bezerra é engenheira e dá aulas de inglês na Cidadão Pró-Mundo (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Luciana Bezerra é engenheira e dá aulas de inglês
na Cidadão Pró-Mundo (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Idealismo e diversão

Para suprir a vontade de aprender a falar inglês de 700 alunos, a maioria da rede pública, a ONG conta com 300 professores voluntários que ensinam o idioma para turmas em diferentes níveis de proficiência. As aulas ocorrem aos sábados e domingos.

Uma das pessoas que muda a rotina da semana e de posse de giz, livros, e da vontade de ajudar, ensina inglês é a engenheira de software Luciana Bezerra, de 42 anos. Ela sempre estudou na rede de ensino pública, pagou um curso de inglês com dinheiro do estágio, fez cursinho pré-vestibular como bolsista e foi aprovada no curso de engenharia da Poli, na Universidade de São Paulo (USP), um dos mais concorridos do país.

“A educação transformou minha vida e me fez alcançar meus objetivos. O inglês me ajudou a conquistar boas posições no mercado de trabalho. Me tornei professora de inglês voluntária para retribuir as oportunidades que tive”, afirma a engenheira que trabalha em uma empresa americana que funciona no Brasil.

A educação transformou minha vida e me fez alcançar meus objetivos. Me tornei professora de inglês voluntária para retribuir as oportunidades que tive”
Luciana Bezerra, 42 anos, engenheira

Para Luciana, o voluntariado permite que ela exercite seu lado idealista e se divirta ao mesmo tempo. “É muito gostoso ver um aluno no início da aula travado para pronunciar algo, se soltar e ao final falar frases inteiras.”

A própria coordenadora da ONG, Sarah Morais, de 25 anos, formada em administração pela Universidade de São Paulo (USP), começou o trabalho como professora voluntária em 2011. Um ano depois largou o emprego no departamento de marketing de uma empresa, frustrou a vontade do pai de que ela trabalhasse na Bolsa de Valores, e no final de 2012 passou a se dedicar integralmente à Pró-Mundo.

Sarah Morais é a coordenadora da ONG (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Sarah Morais é a coordenadora da ONG
(Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

“Sou muito apaixonada por isso, entrei sem saber se iria ser remunerada, mas não estava conseguindo conciliar os dois empregos. A educação vai mudar o meu país e precisamos geri-la melhor”, diz Sarah, que a partir de janeiro deste ano se tornou a primeira e única pessoa a receber um salário da ONG.

“Nosso maior objetivo é gerar empoderamento, fazer com que os alunos saibam se comunicar, que desenvolvam habilidades e tenham portas abertas. É a missão de promover igualdade de oportunidade através do ensino voluntário do inglês e da integração social”, complementa.

Felipe Zanola, de 26 anos, é publicitário, trabalha na General Electric (GE) está interessado em contribuir com esta missão. A GE aderiu ao projeto de voluntariado corporativo da ONG e oferece patrocínio, além de oito funcionários que dão aulas. Eles não recebem nada por isso. Além da GE, outras duas empresas participam do programa de voluntariado.

“Eu poderia estar dormindo neste sábado de manhã, mas estou ajudando alguém, não me custa nada compartilhar. Preciso disso. Para entrar em uma sala de aula é preciso estar preparado, não sou dono do conhecimento, temos de construir juntos”, diz Zanola, que coordena o grupo de voluntários da GE.

Nosso maior objetivo é gerar empoderamento, fazer com que os alunos saibam se comunicar, que desenvolvam habilidades e tenham portas abertas”
Sarah Morais, 25 anos, coordenadora da ONG

As aulas de inglês da Pró-Mundo são baseadas em situações da vida real, seguindo a metodologia de Cambridge. O curso dura até cinco anos. O único custo para o aluno é de R$ 60 para material que dura um ano, mas só paga quem tem condições. As aulas são semanais, há provas semestrais, controle de faltas e reprovação, quando o aluno não tem frequência e desempenho satisfatório. A cada seis meses os alunos têm uma atividade prática, recebem a visita de estrangeiros para praticar o inglês, no chamado “Guest speaker.”

A cada seis meses, a ONG abre uma seleção para novos voluntários pelo site www.cidadaopromundo.org.br. Para dar aulas, o candidato precisa ter fluência em inglês e passar por uma entrevista. Se aprovado, ele tem de se comprometer com o projeto por pelo menos seis meses, dando aulas de três horas uma vez por mês em uma das unidades. Cerca de 60% costumam ficar mais do que seis meses.

“Sou apaixonada pelo alunos, recebo muito mais do que ofereço. Se todo mundo fizesse um trabalho voluntário, o Brasil seria outro, mas para isso é preciso se envolver de verdade”, diz Beatriz Laskeviz, de 26 anos, diretora da unidade Monte Azul. Ela já deu aulas na ONG, agora faz trabalhos administrativos.

Os planos da Cidadão Pró-Mundo incluem expandir as unidades em pelo menos 30 bairros de baixa renda de São Paulo, onde eles identificam uma demanda reprimida. Outro passo é arrecadar verba para comprar material aos alunos do bairro Real Parque, Zona Oeste de São Paul, por meio de uma campanha na internet. É possível contribuir com cotas de a partir de R$ 30, pelo site de crowdfunding www.juntos.com.vc até o dia 30 de outubro.

Felipe Zanola (à esquerda) trabalha na GE e é voluntário no projeto (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

Felipe Zanola (à esquerda) trabalha na GE e é voluntário no projeto (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)

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