Aos 23, Bárbara Morais lança “A Ilha dos Dissidentes”, sobre segregação de pessoas com poderes. “Qualquer leitura é melhor do que nenhuma leitura”, diz a estudante de economia

Natália Eiras, no IG

Título original: Teoria política e super-heróis inspiram primeiro livro de escritora brasiliense

Assim como boa parte das adolescentes apaixonadas por livros, a brasiliense Bárbara Morais não saiu ilesa da avalanche “ Crepúsculo ”. Durante o Ensino Médio, dividida entre Edward e Jacob , passava tardes e mais tardes escrevendo histórias baseadas na trajetória de Bella Swan , a humana que caiu de amores por um vampiro na saga de Stephenie Meyer . Anos mais tarde, já na faculdade de Economia, a febre “twihard” passou, mas o gosto pela leitura permaneceu. Os assuntos ficaram mais sérios e no último mês, inspirada em teorias políticas e super-heróis, a brasiliense de 23 anos lançou seu primeiro livro. Editado pela Gutenberg , “ A Ilha dos Dissidentes ” trata de conflitos sociais e segregação, com ares de “ Jogos Vorazes ” e um pouquinho de “ X-Men ”.

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Capa de “A Ilha dos Dissidentes”, editado pela Gutenberg

No volume distópico, a protagonista Sybil é uma órfã de 16 anos moradora de Kali , uma zona de guerra bastante pobre. A chance de ter um lar confortável e finalmente fugir do recrutamento do exército aparece quando ela se descobre uma anômala, como são chamados os possuidores de super-poderes.

 

Ela, então, vai morar na Ilha dos Dissidentes, onde finalmente faz amigos de verdade e tem uma vida “normal”. Porém, o sossego acaba quando ela toma consciência que aulas de técnicas especiais não são tão inocentes quanto pensava e se vê presa em uma engrenagem social da qual precisa se libertar.

 

 

A ideia do volume nasceu durante uma aula de ciência política, onde a aluna de Economia da Universidade de Brasília estudava sobre governos segregadores.

 

“O nazismo assassinou judeus mas ele sempre foi, para gente, visivelmente um estado não legítimo. Os Estados Unidos também separavam os judeus mas nós, no entanto, nunca o vimos como ilegítimo”, diz Bárbara em entrevista ao iG . “Então pensei: até que ponto a gente considera que o governo está fazendo a coisa certa segregando as pessoas?”.

 

Fã do livro “ 1984 ”, de George Orwell , e leitora assídua das HQs de “ Os Vingadores ”, a jovem decidiu escrever “A Ilha dos Dissidentes” sob o olhar do excluídos: “Tentei imaginar como o mundo seria se a gente segregasse pessoas com superpoderes”, comenta a estudante.

A trama vem na contramão de histórias como “Crepúsculo” e “ Dezesseis Luas ”, em que há muito romance e pouco questionamento. Apesar de fazer um trabalho bastante diferente, Bárbara, integrante do Clube do Livro de Brasília, já leu várias sagas deste tipo e não desmerece o papel delas. “Qualquer leitura é melhor do que nenhuma leitura”, afirma a estudante.

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Bárbara Morais, 23, teve a ideia do livro durante a aula de ciência política

“Ler um livro pode te fazer se interessar por outro. ‘ Harry Potter ’ teve um papel muito importante para eu começar a ler e ‘Crepúsculo’ pode fazer o mesmo para as pessoas mais jovens.’”

 

Jovem e inteligente, por que não?
De acordo com a escritora, o preconceito com a literatura para jovens adultos existe por causa do estereótipo de que adolescente é fútil. “As pessoas em geral ficam extremamente chocadas quando veem que os jovens são inteligentes”, conta Bárbara. “Falta esta parte de ser compreensivo e puxar o diálogo sobre livros considerados fúteis”.

 

Além das histórias românticas, a brasiliense também devorou as distopias adolescentes e a responsável pela iniciação da escritora neste meio foi ninguém menos do que Suzanne Collins . “‘Jogos Vorazes’ foi muito importante para eu começar a procurar livros deste gênero”, explica.

 

Além da trajetória de Katniss, Bárbara também gosta de “ A Seleção ”, de Kiera Cass , mas vê problemas no mundo criado por Veronica Roth em “Divergente”. “Os personagens são muito bons, muito bem construídos, mas o contexto político não me convenceu direito”, comenta.

 

Os seus favoritos, no entanto, continuam sendo o clássico criado por Orwell, além de “ Admirável Mundo Novo ”, de Aldous Huxley , e “ Fahrenheit 451 ”, de Ray Bradbury . “Gosto de ler livros de ficção inspirados na realidade”, explica a escritora.

 

Para ela, escrever e ler fantasia é um jeito diferente de ter novas percepções do mundo. “A maior parte das pessoas diz que se você está lendo ficção, você está fugindo da realidade, mas, não, você está aprendendo a realidade do autor. Até o livro mais fantasioso tem um pouco das impressões dele”, diz a aspirante a economista. “Tanto que às vezes você lê e não concorda, mas não é para concordar mesmo, é para ser confrontado.”

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