André Caramante, na Folha de S. Paulo

Volante frustrado nos campos de terra batida da zona sul paulistana nos anos 1980, o hoje bem sucedido poeta Sérgio Vaz, 49, usa há cerca de um ano a tática de misturar o futebol de várzea com a poesia para reforçar o time dos amantes da palavra escrita na periferia de São Paulo.

Capitão da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), Vaz assistia a um jogo na várzea quando foi provocado por um jogador, com o fardamento já surrado: “Aê, mano, por que vocês da Cooperifa não descolam uns jogos de camisas pra nós?”

De bate-pronto, Vaz, conhecedor do dialeto falado na periferia, devolveu a bola no peito do boleiro: “Arrumo, mano, é só o pessoal do time colar [frequentar] nos saraus da Cooperifa e nós vamos correr atrás de camisas. A rapa aí aceita ir lá ouvir poesia?”.

Da conversa malandreada à beira do terrão nasceu o “Várzea Poética”, ação na qual a Cooperifa doa jogos de camisas para times de várzea. A contrapartida dos times é fazer com que seus boleiros, sempre acompanhados de parentes, frequentem os saraus da Cooperifa, iniciados há 12 anos e que acontecem toda quarta-feira no Bar do Zé Batidão, na Chácara Santa, zona sul de São Paulo.

Leonardo Soares/Folhapress
O CDHU Jardim São Luís, com uniforme listrado patrocinado pela Cooperifa, joga contra o Juventude F.C.
O CDHU Jardim São Luís, com uniforme listrado patrocinado pela Cooperifa, joga contra o Juventude F.C.

“A Cooperifa é periferia dentro da periferia. Não somos um núcleo intelectual das quebradas, queremos apenas mudar as quebradas. O futebol de várzea é uma cultura muito forte na periferia e foi uma das ferramentas encontradas para levar aquele cara do campo de terra ao encontro da poesia”, disse Vaz.

Em média, cada sarau reúne 250 pessoas. De 15 a 20 delas são varzeanos e parentes. Toda vez que vai ao evento, o boleiro ganha um livro.

“Muitos boleiros que vão hoje ao sarau imaginavam a literatura como algo inatingível, que o evento cultural não era para eles, mas mostramos que estamos no mesmo barco, no mesmo país, o país das quebradas”, disse o poeta, também chamado de Dom Quixote de La Perifa.

Até agora, o “Várzea Poética” conseguiu doar sete jogos de camisas novos, todos de marcas usadas por clubes profissionais. Um foi bancado pela Global Editora, que edita livros de Vaz, um pelo Itaú Cultural e os outros quatro pela própria Cooperifa.

Unidos do Morro, Ponte Preta do Jardim Leme, Sossego F.C., Aliados F.C., Jardim Letícia F.C. e CDHU Jardim São Luís, todos da região metropolitana de SP, entraram no “Várzea Poética”. Outros oito times querem entrar no projeto, mas a Cooperifa busca apoio financeiro para bancar as camisas.

“O jogador volta a ser moleque quando vê o uniforme de profissional. Ele se sente valorizado e sente nossa verdadeira intenção de apresentar um novo mundo para ele, o da literatura”, continua Vaz, que já recebeu vários títulos por ações culturais.

Cartola do CDHU Jardim São Luís, o comerciante José das Graças da Silva, 56, o Zezé, disse que a maior parte dos seus 30 atletas só teve contato com poesia quando foi ao evento da Cooperifa.

Leonardo Soares/Folhapress
Integrante da Cooperifa recita poesia durante sarau na periferia paulistana
Integrante da Cooperifa recita poesia durante sarau na periferia paulistana

Orgulhoso por já ter contado com os gols do atacante Hernane (hoje jogador profissional no Flamengo) na linha de frente do seu São Luís, Zezé brinca ao afirmar que seus comandados ainda não conseguiram o mesmo desempenho dos campos de várzea nos saraus da Cooperifa.

“O time ainda está tímido para fazer poesia, mas presta atenção. Sonhamos com o dia em que teremos os primeiros versos recitados por alguém do time do São Luís no sarau da Cooperifa”, disse.

“Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, talvez o Várzea Poética seja o único evento de futebol para a periferia. Fifa e CBF não fazem nada para contemplar quem não terá dinheiro para participar diretamente da Copa. Nós não estaremos representados na Copa”, protestou Vaz.

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