Curitiba tem dezenas de espaços improvisados para empréstimos de livros e revistas. Serviço conquista novos leitores pela comodidade

Luiza (à dir.) e o Carrinho de Leitura: ideia simples leva livros a moradores como Scheila Fonseca / André Rodrigues/Gazeta do Povo

Luiza (à dir.) e o Carrinho de Leitura: ideia simples leva livros a moradores como Scheila Fonseca / André Rodrigues/Gazeta do Povo

Bruna Komarchesqui, na Gazeta do Povo

Apaixonada por livros, a jornalista Luiza Piccoli Ferraz de Lima, de 58 anos, teve uma ideia aparentemente despretensiosa há cerca de um ano: montar uma biblioteca comunitária. Ela conta que, inicialmente, pensou no condomínio onde reside, no bairro Vila Izabel, mas a ideia de deixar os livros restritos a moradores não a agradou. “Um dia, tive a ideia de um carrinho de mercado. Fui ao mercadinho aqui perto, perguntando onde poderia comprar um, e a moça me deu”, lembra.

Nascia ali o projeto “Carrinho de Leitura”. Luiza selecionou títulos de sua coleção particular, comprou um caderno de capa dura – para anotar nome, telefone e livro emprestado – e colocou na rua a sua biblioteca itinerante. Os empréstimos são livres e o leitor tem 40 dias para devolver no mesmo lugar que pegou.

Iniciativas de leitura como a de Luiza são encontradas em muitos outros bairros de Curitiba, mas é impossível saber ao certo quantas são e onde estão, justamente por causa da informalidade.

A Freguesia do Livro – que recebe doações de livros e os encaminha a pontos de leitura – estima que sejam cerca de 100. Espalhadas por restaurantes, barbearias, cafés, lojas, igrejas, instituições sociais e comunidades, as minibibliotecas estimulam leitores que moram longe de bibliotecas públicas e não querem comprar livros.

Aprovado

É o caso da professora aposentada Scheila Bauer da Fonseca, 68 anos. Ela e marido sempre gostaram de ler, mas achavam longe se deslocar até o Centro para emprestar livros da Biblioteca Pública. Mas desde dezembro do ano passado, Scheila se tornou usuária assídua do Carrinho de Leitura. “Você não imagina o bem que me fez! É muito raro alguém dispor assim dos próprios livros”, diz ela, com cinco títulos nas mãos.

O carrinho de Luiza fica estacionado em uma quitanda do bairro. Nestor Rodrigues da Silva, dono do estabelecimento, diz que não acreditou que o projeto daria certo. “Achei que as pessoas não devolveriam, mas elas devolvem. Quando o carrinho não está aqui, perguntam. E tem aqueles que vêm devolver o livro e já compram algo”, brinca. Quando não está na quitanda, o carrinho pode ser encontrado na portaria do prédio de Luiza, perto dali.

A jornalista conta que tem uma pilha enorme de livros em casa que aguardam para ser catalogados e projeta o futuro: “Quero ter uma ‘frota’, uns três ou quatro carrinhos de livros para emprestar”.

Araucária tem cinco minibibliotecas

Medir a movimentação dessas bibliotecas escondidas é uma missão difícil. Varia muito de dia e horário, mas a procura costuma ser constante. Prova disso é que as caixinhas sempre precisam de reposição. “Mal colocamos os livros e as pessoas vão lá pegar”, conta a chefe de divisão de Literatura da prefeitura de Araucária, Cindy de Carlos, responsável pelas cinco minibibliotecas espalhadas por praças da cidade. O controle, recorda ela, não é diário, e a manutenção ocorre quinzenalmente. “Às vezes, encontramos doações. Mas sempre colocamos mais livros do que retornam.“

As cinco casinhas de vidro, instaladas pelo município em espaços públicos, têm como objetivo criar hábito de leitura na população. Cada uma recebe cinco títulos infantis e cinco adultos a cada reposição. Os livros vêm de doações, das três bibliotecas de Araucária e da feira de troca de livros e gibis. “As pessoas ficam surpresas de encontrar um livro acessível, sem precisar de carteirinha, sem compromisso de devolver. Ainda temos medo de pessoas pegarem para reciclar o papel, porque não dá tempo de cuidar. Mas é uma inovação que avaliamos que deu certo”, garante Cindy. Em breve, afirma, mais três locais de Araucária receberão casinhas de leitura.

Curitiba tem 16 espaços oficiais de leitura

A Fundação Cultural de Curitiba (FCC) mantém 14 Casas de Leitura, espalhadas por bairros, além do Bondinho de Leitura, no calçadão da Rua XV de Novembro, e da Estação da Leitura, no Terminal do Pinheirinho. Para emprestar livros nesses locais, o cidadão precisa fazer um cadastro com documento de identidade e comprovante de residência, este último “mais para ver certinho o nome da rua e CEP”, de acordo com a coordenadora de Literatura da FCC, Mariane Torres.

Os empréstimos são para duas semanas, renováveis pelo mesmo período. Segundo Mariane, a porcentagem de devolução é alta, mas, muitas vezes, é necessário ir “em busca do livro”. “Mandamos e-mail, cartinhas, porque a pessoa esquece.” O perfil dos frequentadores, segundo ela, varia de bairro para bairro. “Mas a população está, cada vez mais, conhecendo esses espaços, que são pagos com seus impostos. Cada vez tem mais interesse, é um trabalho constante de incentivo à leitura.”

Os endereços dos espaços de leitura podem ser consultados no site http://www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br/literatura/espacos-culturais/

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Criatividade

Restaurante, loja ou jardim: qualquer espaço pode virar uma biblioteca:

• “Biblio-geladeira”

A biblioteca Ice Book surgiu quando Andrea Lange resolveu levar uma geladeira velha e sem utilidade para o Restaurante Curitiba Light, que mantém há seis anos no bairro Jardim das Américas. “Tinha muitos livros em casa e pensei em trazer para cá. Foi meu sogro que sugeriu o nome. Mandamos fazer um adesivo e ficou.” Com mais de 300 títulos, a biblioteca na geladeira tem atraído a atenção de clientes de todas as idades. “As pessoas ficaram encantadas. Tem gente que vem direto pegar livros. Só veio complementar o ambiente acolhedor do restaurante.”

• Casinha de jardim

Colocar livros parados em circulação era o objetivo da empresária Aida Teixeira, ao instalar, há dois anos, uma pequena casinha de madeira no jardim de sua casa, na Rua Petit Carneiro, no Água Verde. Voltada para fora, a casinha de livros sempre está abastecida com dez ou 12 títulos de temas diversificados. A inspiração veio de uma viagem da filha à Alemanha, onde “não se tem costume de guardar os livros”. “Tem gente que leva e não traz de volta, mas o livro cumpre sua função se alguém ler. Além de livros, coloco revistas e jornais atuais para trabalhadores e estudantes que não têm condições de comprar.”

• Caixinha

Outra biblioteca com empréstimo livre fica na loja Santuário Adventure, no Xaxim. A iniciativa foi de montanhistas amigos do proprietário Ênio Cândido. “É uma caixa pequena de livros, mas até que tem giro, me surpreendeu. Somos uma loja de pouco movimento, de produto específico, mas o pessoal sempre pede os livros.” Cândido recorda que o empréstimo não segue regras. “Não marco nada, a pessoa devolve se quiser, não tem cobrança. É melhor alguém ler do que ficar parado”, defende.

Doações

Quem desejar praticar o desapego pode procurar um dos pontos da Freguesia do Livro no blog http://freguesiadolivro.wordpress.com/. O projeto voluntário das fonoaudiólogas Ângela Marques Duarte e Josiane Mayr Bibas recebe doações há dois anos. Após a seleção dos títulos, eles são entregues em “bibliotequinhas” e pontos de leitura. A condição para doar é que o livro não seja didático, apostila ou anterior a 1990.

dica do Chicco Sal

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