Marília: um retrato dos sentimentos mais contraditórios daqueles que, pela opção sexual, são questionados em sua fé cristã

Marília: um retrato dos sentimentos mais contraditórios daqueles que, pela opção sexual, são questionados em sua fé cristã

Kátia Mello, no Valor Econômico

Por que as igrejas renegam os gays? É pecado ser homossexual? E, se for pecado, como o cristão deve lidar com o desejo carnal por uma pessoa do mesmo sexo? Perguntas contundentes, respostas inquietantes. Marília de Camargo César, jornalista e editora-assistente do Valor, escritora e membro da Igreja Batista, traz à luz uma das mais importantes discussões da sociedade contemporânea em “Entre a Cruz e o Arco-Íris – A Complexa Relação dos Cristãos com a Homoafetividade”, seu mais recente livro, que será lançado na segunda-feira, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, em São Paulo.

A temática é atual, necessária e de tal relevância que está na pauta do papa Francisco. Em um ato surpreendente, ele anunciou em setembro o acolhimento dos gays na Igreja Católica, algo inédito em se tratando da autoridade máxima do Vaticano.

O subtítulo do livro dimensiona as barreiras para adentrar pelo campo minado por julgamentos passionais quando a temática é Deus e sexo. O que diz a “Bíblia” a respeito da homossexualidade é uma questão que permeia o livro, em linguagem jornalística fluente. A autora parte de uma inquietação individual sobre a hostilidade aos homossexuais nas igrejas evangélicas para um tema universal: a inclusão que alivia a dor. Afinal, qual é o embasamento teológico para não aceitar esse grupo de pessoas dentro de um templo?

Alguns estudiosos pelo mundo já se debruçaram sobre esse assunto, como bem lembra a autora, e agora ela o enfrenta no cenário brasileiro. Se, por um por lado, o Brasil abriga a maior passeata gay do mundo, por outro, o preconceito contra a comunidade de gays e lésbicas no Brasil chega a 92%, como afirma a autora ao citar dados de pesquisa da Fundação Perseu Abramo.

Na tentativa de traçar um panorama pluralista do tratamento ministerial aos Entre a cruz_1609_ricardo.inddhomossexuais cristãos, a autora sai em busca de autoridades evangélicas e membros do movimento gay que possam contribuir com suas visões particulares. Assim como fez o teólogo americano Michael Coogan em seu polêmico livro “Deus e o Sexo – O Que a Bíblia Realmente Diz”, Marília recorre aos textos bíblicos mais citados por aqueles que aceitam ou refutam a ideia do homossexualismo no evangelho. Entre os trechos estão versos do Levítico, as pregações do apóstolo Paulo e a amizade entre Davi e Jônatas, referência para os gays cristãos numa alusão ao amor homoafetivo.

Em sua missão de entender os crucificados pelo preconceito, a autora retrata, em uma série de entrevistas, os sentimentos mais contraditórios de homens e mulheres que, pela questão de opção sexual, são questionados em sua fé cristã. Na narrativa, Marília não se esquiva das próprias emoções ao fazer as entrevistas. Por vezes, relata que seus olhos se enchem de lágrimas ao conversar com um homem que tentou o suicídio, um ex-pastor que descobriu ser gay, um ex-pastor que tentou se “curar” do homossexualismo e depois abandonou a doutrina. São testemunhos de como a sexualidade é vista dentro da igreja. E ainda há as mães que se sentiram culpadas perante Deus ao deparar com a homossexualidade dos filhos.

Nos 13 capítulos, um dos tópicos mais interessantes é a descrição das igrejas inclusivas. Se nos Estados Unidos elas crescem em ritmo acelerado, no Brasil ainda são tímidas. Ao visitar uma delas no centro de São Paulo, Marília deparou com um gay que se sentia bem na sua nova igreja, mas alimentava o desejo de regressar à antiga congregação, onde fora certa vez rechaçado. Estariam prontos os sacerdotes para aceitar alguém que se intitula homossexual? O debate está na mesa.

Na parte final do livro, Marília, quase como num gesto missionário, conclui que o bom pastor prega o evangelho reconciliador: “Com mansidão, seu chamado vai mostrar a revolução que o amor gracioso de Deus por todos pode causar na vida de quem o recebe”. Nesse sentido, está em congruência com o que o papa acaba de dizer.

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