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Pedro Dalboni, no Literatortura

A leitura de um livro é cheia de: “poxa, isso parece com tal obra que eu vi”, ou, “Isso me lembra um pouco aquilo”. Às vezes, pode ser influência por um ideal seguido veementemente, ou por algo que acompanha o autor desde a sua criação, ou por pura homenagem. E, em muitos casos, essas ideias foram propositalmente escritas, gravadas ou desenhadas de tal jeito para que trouxesse essa sensação de reconhecimento. Tais características são notadas na obra de C.S. Lewis, em uma “recriação” do gênesis bíblico. Não sei se foi pelos autores serem católicos fervorosos, ou por serem amigos e frequentarem o mesmo PUB com um grupo de escritores, mas as relações com a Bíblia – a meu ver pelo menos – parecem claras em ambos livros publicados por eles.

As inferências que farei abaixo não possuem um teor de “descoberta”, afinal, já foram analisadas e discutidas em várias teses acadêmicas e trabalhos de pensadores, a ideia da presente matéria é mostrar um pouco da influência cristã nesses dois grandes nomes da fantasia. Vocês verão aqui que não faço nenhuma conclusão ou estabeleço, intrinsicamente, relações. Até porque cada ponto que evidencio geraria um texto único, complexo e denso. Assim, para “apresentação” do conteúdo, eu exponho as relações que enxergo – que estão longe de serem todas as possíveis.

Deixo como nota desde já que este texto não possui tentativa de pregação ou qualquer coisa do gênero. São apenas curiosidades ou metáforas/analogias encontradas, e, grande parte, contém minha visão sobre os textos. Também ressalto que posso ter trocado um nome ou errado algo, então, qualquer coisa, desculpem-me e toda liberdade para corrigirem nos comentários.

*o texto contém, naturalmente, spoiler.

Relação com:

As Crônicas de Nárnia:

1- O sobrinho do Mago

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O sobrinho do mago é uma introdução ao mundo de Nárnia – apesar de não ser a primeira crônica escrita, é a primeira em ordem cronológica. Nesta história, é notável a criação de Nárnia, quando Digory viaja por vários mundos – atrás de sua amiga Polly – e encontra um mundo totalmente escuro, mas em meio a essa escuridão vem uma bela melodia. De fundo vê-se um leão que a canta, e ao mesmo tempo em que cantava, um mundo começava a surgir. Era a criação de Nárnia. Antes da criação completa, as crianças acabam libertando Jade – a Feiticeira Branca – que, inclusive, acaba “tentando” Digory no início. A relação com a Bíblia é vista com a ideia do pecado original, do surgimento do mal, junto dos filhos de Adão e filhos de Eva. Provavelmente uma metáfora ao livro “Gênesis”, na Bíblia.

“Digory ia pensando: “Que mulher mais corajosa! E como é forte! É isso que eu chamo de uma rainha!”

Um trecho sobre a criação de Nárnia:

“O Leão andava de um lado para o outro na terra nua, cantando a nova canção. Era mais suave e ritmada do que a canção com a qual convocara as estrelas e o sol; uma canção doce, sussurrante. À medida que caminhava e catava, o vale ia ficando verde de capim. O capim se espalhava desde onde estava o Leão, como uma força, e subia pelas encostas dos pequenos montes como uma onda. […] Podia-se ouvir a brisa encrespando a relva.

E surgiam outras coisas além da relva. As mais altas encostas iam ficando escuras de urzes. Manchas de um verde mais intenso apareciam no vale.”

2- O leão, a feiticeira e o Guarda-Roupa:

O Guarda-Roupa abandonado num canto da casa e que os leva para Nárnia: transmite a ideia de que em algum cantinho já esquecido, é possível se encontrar com Deus, bastando só ter fé – já que apenas quando realmente necessitam, eles são chamados a Nárnia. Também é perceptível que Lúcia – a mais nova dos quatro irmãos – foi a primeira a entrar no País pelo guarda-roupa, enfatizando que a criança simboliza a honestidade, ingenuidade, sinceridade, coisas simples e boas. Já os outros apenas conseguem entrar depois. Nárnia, porém, está fria e gélida, pela maldade de Jade – que conseguiu chegar ao poder – simbolizando como seria um mundo sem bondade, com um inverno inacabável e cruel. A sedução dela sobre Edmundo também é uma forma de demonstrar como o mal é tentador. A morte e a ressurreição de Aslam é outro fator claro de “metaforização” da Bíblia, onde, como Jesus, pagando pelo pecado de todos os outros, Aslam se sacrifica e retorna para salvá-los.

“[…] Estavam ali todos os que eram do partido da feiticeira, convocados pelo lobo. No centro, em pé junto da mesa, estava a própria feiticeira.

No momento em que viram o enorme Leão dirigir-se para elas, aquelas criaturas soltaram uivos e grunhidos de terror. Até a feiticeira pareceu por um instante paralisada de medo. Mas dominou-se e deu uma selvagem gargalhada:
-O louco! O louco está chegando! Amarrem bem o louco!

[…]

As bruxas correram para ele com um uivo de triunfo, ao verem que não oferecia resistência. Anões e macacos malignos chegaram de todos os lados para ajudá-las. Deitaram o Leão de costas. Amarraram-lhe as quatro patas, gritando e dando vivas […]. Claro que, se o Leão quisesse uma patada seria a morte para eles. Mas ficou quieto, mesmo quando os inimigos rasgaram a sua carne de tanto esticarem as cordas. Depois começaram a arrastá-lo para o centro da mesa.

[…]

Por instantes, as meninas nem sequer conseguiram vê-lo, rodeado como estava por aquela horda infernal, que lhe batia, dava pontapés, cuspia-lhe em cima, insultava-o.”

“O mal será bem quando Aslam chegar,

Ao seu rugido, a dor fugirá,

Nos seus dentes, o inverno morrerá,

Na sua juba, a flor há de voltar.”

Aqui segue a cena da morte de Aslam no filme “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”

– Príncipe Cáspian:

Neste livro o foco e a metáfora estão na perda de fé das pessoas. Os telmarinos pegam o poder, obrigando aos narnianos a se refugiarem. Com o passar dos tempos poucos crêem que Aslam voltaria e os ajudaria. Nárnia se tornara um caos. Os meninos (Lúcia, Edmundo, Suzana e Pedro) são chamados ao país do Leão novamente e, nem mesmo quando Lúcia o vê, os outros acreditam. É uma provação de fé, vista bem como na Bíblia. Somente quando todos acreditam que Lúcia realmente vira Aslam, que ele realmente retorna, salvando a todos os narnianos. Tal acontecimento pode ser visto em várias passagens bíblicas.

“- Com a mesma certeza? Mas quem é que ainda acredita em Aslam? – indagou Trumpkin.

-Eu acredito – disse Caspian. – E, mesmo que não acreditasse antes, acreditaria agora. Entre os humano, os que se riem de Aslam também zombariam se eu lhes dissesse que existem anões e animais falantes. Já cheguei a perguntar a mim mesmo se Aslam de fato existiria, mas a verdade é que também muitas vezes duvidei da existência de gente como vocês. E vocês não estão aí?”

“-Compreendo, Senhor. Estava pensando que gostaria de ter tido uma ascendência mais honrosa.

– Descende de Adão e Eva – tornou Aslam. – É uma honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também vergonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra. Dê-se assim por satisfeito”

“-Que vergonha, não acha? Tinha certeza de que era você. Mas eles não quiseram acreditar…

[…]

-Oh Aslam, acha que eu errei? Como é que eu… podia deixar os outros e vir sozinha encontra-me com você? Não olhe para mim desse jeito…. bem…. de fato… talvez eu pudesse. Sei que com você não estaria sozinha. Mas ia adiantar alguma coisa?”

“-É o que quer que eu faça?

-É, minha criança – respondeu Aslam.

-E os outros também vão ver…. você?

-A princípio, não. Talvez mais tarde.

-Mas aí eles não vão acreditar!

-Não faz mal.

-Ora essa, ora essa! E eu que estava tão feliz por tê-lo encontrado de novo. Pensei que ficaria a seu lado. Pensei que você viria rugindo e que os inimigos fugiriam de medo…. como da outra vez. Afinal, vai ser horrível

-Será difícil para você, querida, mas as coisas nunca acontecem duas vezes da mesma maneira. Todos nós já passamos omentos difíceis em Nárnia.

Lúcia escondeu o rosto na juba. Mas devia haver nela algum poder mágico, pois ela se sentiu invadida pela força do Leão.”

O cavalo e seu menino:

É mais uma metáfora ao que se refere a Moisés na Bíblia. Shasta também foi abandonado quando bebê e criado por uma família diferente. Os dois são protegidos por Aslam/Deus em “segundo plano” quando crianças e é notável que ambos foram fatores de libertação para povos. Os dois fugiram de seus países de nascença e, coincidentemente, ou não, são príncipes, sendo Shasta príncipe da Calormânia e Moisés do Egito.

Trecho sobre o abandono de Shasta:

“-… Levantei-me da enxerga e fui tomar o ar fresco da praia e contemplar o luar sobre as águas. Foi quando percebi um ruído de remos na minha direção e ouvi um choro miúdo. Pouco depois, a maré trazia à praia uma canoa, onde estavam apenas um homem vergado de fome e sede e que parecia ter morrido havia poucos instantes – pois ainda estava quente -, um cantil vazio… e uma criança, que ainda vivia.”

– A viagem do Peregrino da Alvorada:

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A transformação de Eustáquio em dragão e sua “destransformação” com o arrependimento, toma contraste com os pecados e a confissão. A notável mudança de comportamento da criança desde o início da Crônica é “lindamente” mostrada no sentido de como essa “viagem” mudara a vida dele. Também, no próprio final do livro/filme, Aslam deixa uma mensagem no qual ele diz que os jovens reis ainda poderiam encontrá-lo no mundo “real”, entretanto, lá ele teria outro nome e imagem.

Há um diálogo – com Lúcia, ressaltando o dito em “O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa” em que Aslam dá indícios da metáfora a qual faz parte:

“-Que bom ter vindo, Aslam!
-Estive sempre aqui. Mas você acabou me tornando visível.

-Aslam! – exclamou Lúsica, quase com reprovação. – Não brinque comigo! Como se eu fosse capaz de fazê-lo visível!
-Pois fez. Acha que eu não obedeço às minhas próprias leis?”

E aqui a parte em que Aslam fala sobre sua imagem em nosso mundo:

“-Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia. – Como poderemos viver sem vê-lo?

-Você há de encontrar-me, querida. – disse Aslam.
-Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.

-Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.”

– A cadeira de prata:

Vê-se novamente outra provação de fé. Aslam dá missões para Gil e Eustáquio que, por esquecimento – e falta de fé por saberem as consequências específicas de cada -, não as executam, e assim, tudo que havia sido prometido, começa a dar errado. Após perceber que devia ter realmente seguido as ordens de Aslam, e seguindo-as agora, tudo torna a seguir o rumo correto.

“-Vou lhe dizer. Estes são os sinais pelos quais hei de guiá-la na sua busca. Primeiro: logo que Eustáquio colocar os pés em Nárnia, encontrarão um velho e grande amigo…”

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Aqui se segue um trecho, onde Brejeiro, um narniano de certa forma exagerado e depressivo, que os guiava, fala sobre o fato:

“ -Provocamos a ira de Aslam – disse ele. – É o que acontece quando não obedecemos aos sinais…”

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– A Última Batalha:1

Neste livro Suzana é a única que não pode mais voltar a Nárnia devido a sua descrença ao país e em Aslam.

A trama pode ser comparada ao do apocalipse, em partes. Temos o macaco Manhoso e o jumento Confuso que encontram uma pele de leão na floresta. O macaco sendo mais “tinhoso” usa de seu amigo, o jumento Confuso, para vesti-la e fingir ser Aslam.

“Na verdade, porém, Confuso era mais um empregado que amigo de Manhoso. Era ele quem fazia todo o serviço.”,

“-Tanto faz, Manhoso – disse Confuso. – Mesmo que seja a pele de um leão mudo e selvagem, por que não devemos dar-lhe um funeral decente? Quer dizer, quando a gente conhece Ele, todos os leões são dignos de respeito, você não acha?

– Não comece a meter minhocas na cabeça, Confuso – retrucou Manhoso. – você bem sabe que pensar não é o seu ponto forte. Vamos pegar esta pele e fazer uma capa bem quentinha para você usar no inverno.”

Passando-se pelo Leão, eles dão ordens aos narnianos: uma comparação quanto à vinda do anti-Cristo. O macaco, esperto, para não causar polêmicas/conspirações, dá ordens ao cavalo, como apenas aparecer à noite, ou responder apenas o combinado etc. Alguns poucos desconfiam de que ele não era o verdadeiro Aslam, pelos motivos ditos acima.

“- Ah! Aí está você. Pois bem – falou o macaco com um olhar de desdém -, quero…. isto é, Aslam deseja…. mais nozes. Essas que você me trouxe não dão nem para o cheiro. Você tem que me trazer mais, ouviu bem? Duas vezes mais! E elas têm de estar aqui amanhã, antes do pôr-do-sol. E cuide para que não haja entre elas uma única noz pequena ou estragada

[…]

– Por favor, será que o próprio Aslam não poderia conversar conosco sobre isso? Se ao menos nos fosse permitido vê-lo….

-Bem isso não vai dar – respondeu o macaco. – Mas pode ser que ele, num ato de muita generosidade, resolva sair um pouquinho hoje à noite, embora isso seja muito mais do que a maioria de vocês merece”

.Estes poucos que acreditavam no verdadeiro Aslam sofrem perseguições.

“Ele pretendia perguntar como o terrível deus Tash, que se alimentava de sangue do seu povo, podia ser a mesma pessoa que o bom Leão, que dera o próprio sangue para salvar Nárnia inteira. Se lhe tivesse sido permitido falar, o domínio do macaco teria acabado naquele mesmo dia, pois os animais teriam percebido a verdade. Antes, porém, que pudesse dizer uma palavra mais, dois calormanos taparam-lhe a boca com toda a força, e um terceiro veio por trás e deu-lhe um chute nas pernas, derrubando-o bruscamente. Ao vê-lo cair, o macaco começou a guinchar, furioso e aterrorizado.
-Tirem ele daqui! Levem-no embora! Carreguem-no para onde ninguém posa ouvi-lo e nem ele a nós! Amarrem-no a uma árvore! Eu vou…. isto é, Aslam vai…. fazer-lhe justiça mais tarde.”

Com o final da história, todos estavam em um estábulo, presos no escuro, esperando o deus Tash – credo pelo povo calormano – chegar e matá-los. Porém, os que acreditavam em Aslam, são salvos por ele, e enviados para o país de Nárnia. O Leão então, destrói toda a Nárnia, levando apenas os bons narnianos para a verdadeira Nárnia, conhecida também como o País de Aslam, onde todos não se esforçam, não envelhecem, são felizes, livres e a vida é eterna.

“Viram só? – disse Aslam. – Eles não nos deixarão ajudá-los. Preferem a astúcia à crença. Embora a prisão deles esteja unicamente em suas próprias mentes, eles continuam lá. E têm tanto medo de serem ludibriados de novo que não conseguem livrar-se. Mas, venham comigo, meus filhos.”

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Para finalizar, Lewis utilizou dessas analogias para reformular o gênesis cristão e torna-lo atrativo e viável para crianças. Além de, obviamente, criar uma obra magistral. Tais relações em “As crônicas de Nárnia” foram notadas por pesquisas, por grandes estudiosos e até por visão própria – não só minha, mas como você ou outrem pode ter notado algo.

E aí, o que acharam? Deixem seus comentários e possíveis outras analogias que vocês tenham percebido.

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