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Deanna Ribeiro, no Livros e Afins

Frases cheias de braços, tentáculos, cordas e amarras por todos os lados: penso que assim deve ser o primeiro parágrafo de um texto. Qualquer deles, tenha uma, duas, trinta e quatro ou quinhentas e vinte e nove páginas. Cordas que não aprisionam, braços que não impedem, amarras que não ferem, antes, convidam, deixam ficar, chamam. E o leitor vai ficando por ali, permitindo-se seduzir. Ele só chega ao final após vencer as primeiras palavras, são elas – decisivas – quem induzem nossos olhos ao restante da leitura, então, o charme inicial é indispensável.

Como um sorriso ao primeiro contato, daqueles que nos fazem sentir à vontade, o ideal parágrafo de abertura desperta em nós a vontade de puxar uma cadeira, pôr as pernas para cima – ou buscar a posição mais confortável possível – e imergir no universo paralelo das letras. Somos pescados por essa isca – saborosa como todas as outras – com o diferencial de que não é a desesperança que nos aguarda friamente.

Não desmerecendo o restante da obra, mas as primeiras frases me parecem ser as mais importantes, até mais do que a última. O nascimento é mais relevante que a morte. O que se faz durante a vida pode ser maravilhoso? Sim. Mas é o vir à luz que faz isso acontecer. Caso contrário, seria o vazio.

Germinar é encantador: a alvorada, o início dos relacionamentos, os primeiros passos de uma mãe ou de um pai quando assim se tornam, o começo de um livro. Ali mora a expectativa sobre vidas e idéias, o desenrolar de histórias e estórias; é uma promessa. E, por isso, os maiores cuidados devem ser reservados a estes instantes primeiros. Li uma vez, há uns anos, que não se deve prometer um elefante e parir um rato. Não me recordo das palavras exatas, nem quem as pronunciou, mas internalizei essa idéia. É isso: a introdução jamais pode destoar do restante do texto, ela deve ter a grandiosidade necessária para fixar os olhos do leitor, e o desprendimento exato para deixá-lo seguir adiante naqueles escritos.

Elaborar o início de um texto é obedecer a um ritual quase místico. Cada autor com a própria particularidade, até algum delírio é bem-vindo. Tudo é válido para que resulte belo e natural o dito parágrafo, com abraços fortes e envolventes.

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