Xia Yeliang, professor da Universidade de Pequim, deve ser demitido por causa de suas críticas ao regime

Xia Yeliang, professor da Universidade de Pequim, deve ser demitido por causa de suas críticas ao regime

Andrew Jacobs, no The New York Times [via UOL]

É difícil saber exatamente qual foi a transgressão de Xia Yeliang, economista da Universidade de Pequim, que o fez mudar de um acadêmico com opiniões próprias para um inimigo declarado do Partido Comunista governante. Houve a carta pública de 2009, na qual zombou do diploma de escola técnica do ministro da propaganda do país e também a entrevista que ele deu no ano passado à Rádio Free Asia, descrevendo a China como uma “ditadura comunista de partido único”.

Mas Xia, que foi da Guarda Vermelha quando adolescente e virou defensor do livre mercado, diz que provavelmente ultrapassou os limites no ano passado, quando postou uma queixa online pedindo que os intelectuais chineses se reunissem em praças públicas para debater a reforma política. “Isso pareceu realmente irritar os administradores da escola”, disse ele recentemente. Também, aparentemente, chateou figuras poderosas do Partido Comunista.

Nas próximas semanas, ele deve ser demitido do cargo de professor da Universidade de Pequim, uma das mais prestigiadas do país, em uma medida que, segundo Xia e outros, reflete a determinação do governo de controlar o discurso intelectual nas instituições de ensino mais importantes do país.

Os administradores disseram a ele que seu destino seria decidido por um conselho de colegas. Para ele, isso não passa de um teatro que se destina a evitar as críticas de que sua punição tem motivação política. “Eu não estou terrivelmente otimista sobre o meu futuro”, disse Xia, 53, um homem animado cuja palestras sobre macroeconomia muitas vezes são salpicadas por pequenos golpes ao Partido.

O esforço para silenciar Xia colocou em evidência os desafios que enfrentam as faculdades e universidades de elite, como a Universidade de Pequim, presa entre os controles políticos e suas ambições de conquistar o respeito internacional como um grande centro de ensino. Nos últimos anos, a universidade vem empreendendo um esforço grande e bem financiado para aumentar a sua visibilidade global através de parcerias e intercâmbios com algumas das principais instituições do mundo.

No ano passado, a Universidade de Stanford abriu um centro de pesquisa de US$ 7 milhões (em torno de R$ 14 milhões) no campus da Universidade de Pequim e uma lista crescente de outras faculdades e universidades, incluindo as universidades de Cornell, Yale e a Escola de Economia de Londres, estabeleceram programas de diplomação dupla ou de maior colaboração acadêmica.

Zhang Qianfan, professor de direito da Universidade de Pequim, disse que a punição de Xia provavelmente iria prejudicar os esforços da universidade em elevar a sua estatura no exterior.

“Transmitiria uma mensagem de que a universidade não é capaz de resistir a interferências políticas e é incapaz de separar a política da academia, que é um requisito básico para quem tenta realizar um trabalho acadêmico digno”, disse ele.

A campanha para silenciar Xia não passou despercebida no exterior. Sua situação alertou o Comitê de Cientistas Preocupados e, no mês passado, mais de 130 membros do corpo docente do Wellesley College assinaram uma carta aberta exortando os administradores a reconsiderarem a sua parceria com a Universidade de Pequim, caso Xia fosse demitido.

Nem o reitor da Universidade de Pequim, nem o departamento de economia responderam aos pedidos de entrevista.

Um autor prolífico e comentarista frequente em programas de notícias da China, Xia atraiu pela primeira vez a ira das autoridades da universidade em 2008, quando foi um dos signatários de um manifesto que exigia o fim do governo de partido único. A petição, chamada de Carta 08, contou com 300 assinaturas e irritou profundamente os líderes do partido, que promoveram a perseguição de seu autor principal, Liu Xiaobo, prêmio Nobel que está cumprindo uma sentença de 11 anos de prisão por subversão. Um ano depois, Xia postou sua carta aberta ao czar da propaganda na China, comparando os esforços de seu departamento com o dos nazistas.

Desde então, Xia disse ter passado por momentos de prisão domiciliar e ter sido seguido por agentes de segurança do Estado. Mas ele diz que, em grande parte, foi deixado sozinho. Nos últimos anos, os administradores universitários lhe permitiram passar longos períodos no exterior como professor visitante, inclusive na Universidade de Stanford até o mês passado.

Mas, no ano passado, depois de ter publicado a carta on-line pedindo uma discussão pública sobre a reforma política, os administradores da universidade exigiram que ele retornasse para a China e, em seguida, o advertiram a reduzir suas invectivas contra o governo.

Desde então, ele continuou a criticar o Partido Comunista enquanto defendia uma democracia ao estilo ocidental por postagens em microblogs, que muitas vezes são apagadas assim que são emitidas. (Seu microblog atual sobre Sina Weibo chama-se “Xiayeliang, o nono”, porque suas oito contas anteriores foram fechadas.)

“Eu nunca defendi uma revolução”, disse ele. “Só uma mudança pacífica”.

Se for punido, ele será o mais recente intelectual chinês preso em uma campanha contra a crescente dissidência, que levou à detenção de dezenas de advogados, ativistas e intelectuais públicos. A repressão, que se intensificou desde que Xi Jinping tornou-se, em março passado, o primeiro novo presidente da China em uma década, tem sido acompanhada por um movimento para eliminar o que os líderes do Partido veem como correntes subversivas na sociedade. Estas foram identificadas recentemente em um memorando secreto: a defesa da democracia eleitoral, da independência da mídia e de “valores universais”, como os direitos humanos.

Em entrevistas, vários estudantes da Universidade de Pequim disseram que não tinham conhecimento do caso de Xia, e os poucos que estavam cientes de seu caso foram antipáticos, dizendo que ele tinha ultrapassado os limites, provocando repetidamente o Partido.

“Eu posso entender por que o governo sacrificaria um pouco da democracia e da justiça”, disse Chu Yiqi, um estudante de pós-graduação em física. “Eu acho que eles fizeram a decisão certa”.

Mas muitos dos estudantes que estavam na aula de economia institucional de Xia em uma noite recente disseram que apreciavam seu estilo de falar sem restrições, mesmo que algumas vezes suas declarações pareçam tão didáticas. (Em certa altura durante a palestra, ele disse: “Quando os valores comunistas substituem os valores tradicionais, a consequência mais grave é que as pessoas perdem a consciência, como durante a luta de classes do passado, quando os filhos foram instruídos a matar seus pais”.)

Enquanto a sala de aula ia se esvaziando, Grace Zhang, uma estudante de pós-graduação em economia, disse que ficou chocada ao saber que Xia poderia ser demitido por seus comentários. “É impensável que a universidade possa sufocar esse tipo de voz”, disse ela. “A educação universitária deveria ser exatamente o acolhimento dessas vozes”.

Tradução: Deborah Weinberg

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