Wilhan Santin, na Folha de S.Paulo

Até o final desta semana o escritor Domingos Pellegrini, 64, enviará para 1.800 endereços de e-mail o livro “Passeando por Paulo Leminski”.

A distribuição eletrônica foi a forma encontrada para publicar a obra de 161 páginas que escreveu nos últimos três meses, sem fazer as alterações reivindicadas pela família do poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989).

“Fui convidado pela editora Nossa Cultura para escrever uma biografia de Leminski, que foi meu amigo, autorizada pela família”, diz o escritor à Folha.

Arquivo familiar / O poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989) em foto de arquivo

Arquivo familiar / O poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989) em foto de arquivo

“Já no segundo capítulo percebi que, ao invés de autorizada, na verdade, seria monitorada. Isso me tiraria a paixão. Recusei e não assinei o contrato.”

Ainda decidido a transformar as memórias em livro, Pellegrini escreveu o que ele intitula uma mistura de lembranças vividas com o poeta.

Antes de terminar “Passeando por Paulo Leminski”, Pellegrini enviou o livro a outra editora, que teve interesse em publicar desde que com a autorização da família.

“As editoras já não aceitam biografias não autorizadas. A Alice Ruiz [viúva de Leminski] pediu alterações, inclusive na parte que fala sobre o problema dele com o alcoolismo. Isso transformaria o livro em chapa-branca. Decidi disponibilizar na internet como contribuição civilizatória.”

Vencedor de dois prêmios Jabuti, na categoria contos com “O Homem Vermelho” e na categoria romance com “O Caso da Chácara Chão”, Pellegrini fala em amizade de “rusgas e rugas” com Leminski.

Os dois escritores se tratavam por apelidos. Leminski chamava o londrinense Pellegrini de “Pé Vermelho”, em alusão à cor da terra do norte do Paraná. Pellegrini tratava o curitibano por “Polaco”, por sua ascendência polonesa.

Os encontros entre “Pé Vermelho” e “Polaco” norteiam o livro, com Leminski falando muitas vezes em primeira pessoa sobre a sua história. Em outros trechos, o narrador é Pellegrini, contando histórias vividas com o amigo.

Avesso às redes sociais, o escritor diz que recorrerá só ao e-mail. Ele autoriza, como está expresso na primeira página do arquivo digital, a reprodução total da obra.

A Folha entrou em contato, por e-mail, com Alice Ruiz e com sua filha, Aurea, para falar sobre o livro.

“A Alice está em Frankfurt e por isso provavelmente não poderá responder o e-mail. Como resolvemos todos os assuntos sobre o Paulo conjuntamente, não daremos entrevista até o retorno dela”, respondeu Aurea à reportagem.

Outra obra sobre Leminski também foi barrada pela família: a quarta edição de “Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim” (ed. Record), de Toninho Vaz.

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