Divagações sobre um livro que talvez nunca seja escrito

Danilo Venticinque, na revista Época

Convido o leitor a parar o que estiver fazendo por alguns segundos e a imaginar como seria o mundo sem uma biografia de Caetano Veloso. Prometo que será rápido: poucos têm o luxo de poder desperdiçar tempo com um assunto tão pedestre. Caetano é um deles. Eu, aparentemente, também sou. Desde a adesão do cantor baiano ao grupo Procure Saber, que defende as restrições à publicação de biografias não autorizadas e o pagamento a biografados, tenho dedicado meus instantes de ócio a imaginar motivos para ler uma biografia de Caetano Veloso. Não encontrei nenhum até agora – daí minha decisão de pedir ajuda ao leitor. Talvez minha conclusão seja precipitada, mas a impressão é que não perderemos nada se a vontade de Caetano se realizar e sua história jamais virar um livro.

Nada contra Caetano, que fique claro. Gosto muito de suas canções. Pagaria para assistir a um show dele. Só não tenho a menor curiosidade para saber mais sobre sua vida, nem entendo por que alguém poderia se interessar por ela. A música é a melhor contribuição que um músico popular pode dar à cultura do país em que vive. Não há motivo para ler um livro sobre Caetano se podemos simplesmente ouvir uma canção de Caetano enquanto lemos algo de fato interessante.

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Por que, então, tanto barulho sobre as biografias de artistas? Por que não deixar que os protagonistas dessas histórias impeçam sua publicação, se esses livros são muito mais importantes para os próprios artistas, com suas vaidades e delírios de grandeza, do que para qualquer um de nós?

Um dos argumentos mais fortes que tenho ouvido contra a proibição dessas biografias é o precedente perigoso que ela cria. Não há como permitir que Caetano impeça a publicação de sua biografia ou exija dinheiro por ela sem dar o mesmo direito a políticos, criminosos ou qualquer outro indivíduo que tenha uma história relevante e queira escondê-la. É um motivo forte, com o qual concordo totalmente. Escrevi um artigo sobre o assunto na edição desta semana de ÉPOCA. Seria o suficiente para descartar a censura às biografias de artistas, por mais desinteressantes que elas sejam.

Pensando melhor sobre o assunto, percebi que essa não era a única razão para discordar de Caetano. Mesmo se todas as outras biografias do mundo fossem liberadas, exceto a de Caetano, a proibição me incomodaria. Eu ficaria indignado com a censura a um livro que não me desperta o menor interesse. Não só por princípio, mas por não suportar a ideia de que Caetano ou qualquer outro músico da MPB possa decidir o que eu leio ou deixo de ler.

Quero ter a liberdade para exercer o meu desinteresse pela vida e pelo pensamento de Caetano. Quero poder ignorar livros sobre ele como ignoro suas declarações a jornais e fotos de seu carro estacionado no Leblon. Não quero que ele me tire o prazer de pegar sua biografia na livraria, checar o preço e decidir que é mais útil gastar meu dinheiro com outra coisa. E depositá-lo de novo na prateleira, para que seu sorriso na capa tente enganar o próximo incauto. Eu jamais poderia fazer isso se sua biografia fosse proibida.

Quero que os biógrafos também possam ter essa alegria. Que eles cogitem escrever sobre Caetano e, logo em seguida, pensem melhor e resolvam fazer outra coisa. Que deixem de se debruçar sobre a história de Caetano simplesmente por ter mais o que fazer. Histórias melhores para escrever, vidas mais interessantes para esmiuçar, fortunas para ganhar com outros livros. Quero que a biografia de Caetano não exista por falta de interesse de biógrafos e leitores, e não por melindre do biografado.

O mundo perderia muito pouco se ninguém escrevesse ou lesse uma biografia de Caetano Veloso. Mas a escolha não deve ser dele, e sim dos autores e leitores.

 Imagem: internet

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