Escritor participa da mesa de abertura da Festa Literária de Cachoeira.
Evento acontece de 23 a 27 de outubro, no Recôncavo Baiano.

Danutta Rodrigues no G1

Cristóvão Tezza (Foto: Ana Tezza)

Cristóvão Tezza (Foto: Ana Tezza)

É possível enfrascar o cotidiano? Essa foi a primeira pergunta feita ao escritor Cristóvão Tezza em entrevista ao G1. “A literatura dá uma forma fechada ao caos da realidade”, responde. Na quarta-feira (23), primeiro dia da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), o escritor estará ao lado do poeta Fabrício Carpinejar para discutir sobre literatura e crônica na mesa intitulada “Enfrascar o cotidiano”. A Flica acontece de 23 a 27 de outubro, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Autor de romances premiados como “O Filho Eterno”, que já foi lançado em oito países, e tem edições contratadas na Dinamarca, Estados Unidos, China, Macedônia, Ucrânia e Sérvia, o catarinense de Lages, radicado em Curitiba, é um dos mais importantes escritores brasileiros da contemporaneidade. Atualmente dedica-se com exclusividade à literatura e não se arrepende disso. Confira a entrevista na íntegra:

G1 – É possível “Enfrascar o cotidiano”? De que forma?

Cristóvão Tezza – A literatura faz isso – dá uma forma fechada ao caos da realidade. E a crônica faz isso com as miudezas cotidianas.

G1 – Você irá fazer parte da abertura da Flica ao lado do poeta Fabrício Carpinejar. Será uma mesa de “compadres” nas ideias?

Cristóvão Tezza – Faz tempo que não converso com o Carpinejar. Como ele é sempre uma  metamorfose ambulante, não sei o que vai acontecer. Mas vai ser divertido, espero!

G1 – Dissociar as experiências pessoais do processo criativo da ficção é uma utopia? “O Filho Eterno” pode ser considerado autobiográfico?

Cristóvão Tezza – “O filho eterno” é um romance escancaradamente autobiográfico – o único livro que escrevi baseado realmente em fatos da minha vida. Mas dá, sim, para separar a vida pessoal, pelo menos a sua parte visível, da literatura. Quem lê meus outros livros pode perceber que não há nada “pessoal” ali. Mas sempre deixamos algumas pistas da experiência pessoal em tudo que escrevemos. É que a literatura disfarça bem, até quase o crime perfeito.

 

G1 – Sua publicação mais recente é a coletânea de crônicas “Um Operário em Férias”. Como é a sua relação entre a crônica, literatura e jornalismo?

Cristóvão Tezza – Sou um cronista tardio. Minha experiência com jornalismo é quase nula – só depois de velho comecei a escrever em jornal, basicamente resenhas e críticas literárias. Durante um tempo mantive uma coluna na Folha de São Paulo. Depois, fui convidado pela Gazeta do Povo para escrever crônicas e aceitei, com um pouco de medo. Não é fácil. Mas acabei sobrevivendo. Não consigo ver a crônica – pelo menos a crônica do tipo que eu faço – como plena literatura. Ela é uma mistura de muitas linguagens e acaba sempre tendo uma objetividade, uma direção, que a literatura nunca tem. Minha crônica na verdade se apropria eventualmente da literatura para encurtar caminho. Mas como alguém que pede uma roupa emprestada…

G1 – O ofício de escritor como atividade principal e exclusiva é um privilégio para poucos autores no Brasil, diante da vasta oferta que o país tem. Você é um deles. Quando e como você se deu conta de que estava na hora de se dedicar exclusivamente à literatura?

Cristóvão Tezza – Sempre alimentei o plano de me dedicar totalmente à literatura, desde o tempo em que ainda não havia escrito nada que ficasse em pé. Fui descobrindo emprego até me refugiar na universidade, onde fiquei durante mais de 20 anos. O sucesso de “O filho eterno”, para mim inesperado, acabou abrindo o caminho da liberdade. Ou pelo menos eu me senti seguro para arriscar a vida sem o guarda-chuva do emprego. Não me arrependi.

G1 – Qual o seu conselho para os autores que ainda não conseguem se dedicar exclusivamente ao ofício de escritor, pois precisam manter seus empregos para sobreviver? Essa não-exclusividade atrapalha o processo de criação?

Cristóvão Tezza – Cada escritor é um caso, uma linguagem, um projeto pessoal. O ideal é conseguir manter um meio de sobrevivência mais ou menos seguro e reservar um tempo bom e regular para a literatura. De repente a gente consegue soltar a amarra. Mas é importante considerar a reserva de tempo para a literatura. Sem esse tempo, vamos como que nos diluindo. Sobre atrapalhar o processo de criação: tudo “atrapalha” – mas é esse atrapalhar que é o filé mignon de quem escreve. Escritor sem problema não precisa escrever.

G1 – O teatro e a Marinha fazem parte da sua trajetória. Duas experiências distintas e um tanto antagônicas. Esses dois universos têm ou teve alguma influência na sua obra? Quais as suas principais influências literárias? 

Crisóvão Tezza – A Marinha foi uma passagem rápida na escola de Marinha mercante do Rio de Janeiro, mas nunca me formei piloto nem fui marinheiro. Abandonei antes. Não suportei o regime militar da escola, na época da ditadura. Mas o teatro, sim, foi uma experiência muito forte na minha formação. E eu acho que, de alguma forma, influenciou bastante minha literatura. Há um lado “dramático” no meu texto, uma certa intensidade emocional, que parece ter vindo diretamente do teatro. Não por acaso, meus livros são facilmente adaptados para o teatro: “Trapo”, uma montagem de 1990, com direção de Ariel Coelho, foi uma ótima montagem. E “O filho eterno”, nas mãos do excepcional ator Charles Fricks, está correndo o Brasil. É um sucesso. E recentemente houve a montagem de “Beatriz”, pelos Atores de Laura, no Rio de Janeiro, de que gostei muito. Sobre influências literárias, é uma longa história que começou com Monteiro Lobato e chegou, digamos, até J.M.Coetzee. A literatura continua me tocando, livro a livro.

 

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