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Marco Antônio Martins, na Folha de S.Paulo

Diante da correria do quartel central da Polícia Militar do Rio, o coronel Íbis Pereira, 50, desce de um carro particular em trajes civis.

Sua figura de pouco mais de 1,60 m, voz pausada e ar professoral nem parece ser o expoente de uma geração que busca novos rumos para a corporação, envolvida em uma série de denúncias nos últimos três meses -de truculência em manifestações à tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, 43, na Rocinha.

Crítico do que chama de “Bopelatria”, a veneração de jovens pelo Bope, o Batalhão de Operações Especiais famoso após o filme Tropa de Elite (de 2007), o coronel cita filósofos e pensadores modernos para defender que as manifestações têm tudo para transformar não apenas a sociedade, mas também a própria polícia.

“Só o pensamento pode enfrentar essa barbárie. Vivemos um ódio que explode dos dois lados”, diz o diretor de ensino da PM. “A polícia precisa aprender a lidar com isso. Acertar mais a mão.”

Esta é uma das teses do coronel, para quem o pensamento evita a violência policial. “Pensar dói”, diz, apelando a Fernando Pessoa.

O coronel levanta uma série de “poréns” a práticas atuais da polícia.

Não esconde, por exemplo, seu incômodo com o símbolo do Bope, a caveira. Se pudesse, acabaria com a imagem, garante ele.

“É impressionante como uma crítica à violência se tornou um glamour. Uma Bopelatria”, analisa Pereira.

O coronel sugere: “Trocaria por algo que representasse a agilidade, a destreza. O símbolo traz a ideia da transcendência. É associado à guerra. Não pode ser da polícia.”

LIBERTAÇÃO

Filho de uma dona de casa e de um pai ferroviário, que não chegou a conhecer, o coronel foi criado no bairro de Anchieta, subúrbio na zona norte da capital fluminense.

Influenciado pelas ideias da Teologia da Libertação, diz adorar a “militância cristã”. Até hoje, usa um anel de tucumã num dedo da mão direita, adereço comum a católicos praticantes.

O coronel Pereira ingressou na PM em 1983, influenciado pelas ideias do antropólogo Darcy Ribeiro e do então comandante-geral Carlos Nazareth Cerqueira, um dos primeiros oficiais no país a defender uma “polícia próxima ao cidadão”.

Formou-se em direito e filosofia. Agora, faz um mestrado em história na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

“A dignidade da pessoa não é valor no Brasil. É apenas retórica, discurso. A pessoa vomita isso, mas não acredita. Os direitos humanos são um conceito em crise”, avalia o policial.

As ideias do coronel são compartilhadas por um grupo fiel de cerca de 50 seguidores. Um deles é o também coronel Antônio Carlos Carballo, com quem divide o ideal de que a literatura pode convencer a corporação da polícia dos benefícios de se evitar a violência.

“Isso humaniza todos eles, cria um pensamento”, diz, citando os escritores Machado de Assis, Guimarães Rosa e o russo Dostoievski.

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