Gustavo Fioratti, na Folha de S.Paulo

Deve haver algo que possibilite identificar um Hamlet em qualquer jovem contra o sistema. Qualquer menina de 15 anos sabe por que Julieta acaba enfiando em si mesma um punhal. Qualquer pai zeloso compreende o drama de um rei chamado Lear.

Desde o século 16, esses e outros personagens percorrem palcos do mundo todo, nas páginas de uma obra que atravessou quatro séculos até aqui. Em abril do ano que vem, completam-se 450 anos do nascimento de William Shakespeare (1564-1616).

As celebrações serão acompanhadas por uma enxurrada de produções e publicações, justificadas também pela proximidade de outra efeméride: em 2016 fecham-se os 400 anos da morte do maior dramaturgo que o mundo já conheceu.

 Divulgação Versão de "Hamlet" do Globe Theatre, cuja turnê internacional prevê passagem por 205 países Versão de "Hamlet" do Globe Theatre, cuja turnê internacional prevê passagem por 205 países

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Versão de “Hamlet” do Globe Theatre, cuja turnê internacional prevê passagem por 205 países
Versão de “Hamlet” do Globe Theatre, cuja turnê internacional prevê passagem por 205 países

HAMLET NA MOCHILA

As celebrações já ganharam destaques nos jornais ingleses e americanos. O “New York Times” publicou, há pouco mais de um mês, artigo sobre uma invasão de peças do bardo inglês na Broadway. O jornal deu destaque, também, à versão em que Alan Cumming faz vários personagens de “Macbeth”.

Nos EUA, na França, no Japão e também no Brasil, a quantidade de projetos com peças de Shakespeare aumentou. Mas é da Inglaterra, terra natal do autor, que vem o mais ambicioso deles.

O Globe Theatre, famoso palco em Londres onde Shakespeare trabalhou, hoje um dos pontos turístico mais conhecidos da cidade, divulgará em novembro detalhes da turnê do “Globe to Globe Hamlet”, um projeto que pretende viajar para 205 países com “Hamlet” na mochila.

A versão “pocket” da peça, retratada na foto acima, foi concebida para chegar a pontos quase inacessíveis do planeta. “O roteiro passa por diversos lugares, de teatros nacionais a ruínas, de praças urbanas a clareiras no meio da selva”, afirma Tom Bird, diretor do projeto.

A turnê começa em abril de 2014 e segue por dois anos, até o dia que marca os 400 anos de morte do dramaturgo -23 de abril. “Os oito atores do elenco viajarão de barco, trem, jipe, ônibus, aeroplano”, diz Bird.

Segundo o diretor, o projeto será financiado por três tipos de suporte. “O Globe não recebe subsídio do governo, então precisaremos receber de diversas fontes: pode ser por patrocínios, recursos públicos e venda de ingressos.”

No Brasil, afirma, estão previstas apresentações em pelo menos duas cidades, que ainda serão escolhidas. A intenção é apresentar o espetáculo com legendas.

Divulgação  Mayara Magri e Chico Carvalho em cena de "Ricardo 3º"

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Mayara Magri e Chico Carvalho em cena de “Ricardo 3º”

VERSÃO BRASILEIRA

A crítica Bárbara Heliodora, tradutora da obra de Shakespeare, apoia o vale-tudo que promete varrer o mundo.

“Sempre há versões modernas, com trajes contemporâneos, e há as versões de época. O importante é fazer uma boa leitura do texto. Mostre a peça. Não faça outra coisa, porque se não é o texto do Shakespeare, não é Shakespeare”, diz, em relação às adaptações diversas.

No Brasil, as experimentações de desconstrução de “Hamlet” foram comuns. Houve, por exemplo, “Ensaio.Hamlet”, da Companhia dos Atores, com diálogos bem coloquiais. E, mais recentemente, “H.A.M.L.E.T”, do Club Noir, recriação com um príncipe anestesiado.

Heliodora já viu dezenas de atores fazendo o Hamlet original. Elogia Tiago Lacerda pela atuação na peça que estreou em 2012, e elege como mais marcante entre as brasileiras a versão com Sérgio Cardoso, dos anos 1940.

Atualmente, ela orienta dois projetos sobre o bardo inglês. Supervisionou “Shakespeare – Projeto 39”, que pretende encenar todas as peças do autor durante os próximos dez anos, e também está à frente de uma versão para “Timon de Atenas”.

Inicialmente, a crítica dirigiria com o encenador Bruce Gomlevsky a montagem de “Timon”, que tem adaptação assinada pelo National Theatre de Londres. Mas preferiu ficar de fora e atuar como supervisora. A peça estreia em março, mas ainda não foi decidido se primeiramente em São Paulo ou no Rio.

“Shakespeare – Projeto 39” dá seu pontapé inicial nesta quinta, com montagem de “Ricardo 3º”, assinada por Marcelo Lazzaratto. Para o diretor, a “ganância desenfreada” do personagem central “é algo que a gente encontra em qualquer lugar”. “Até dentro da nossa família, se procurarmos direito.”

Segundo Heliodora, ainda há peças de Shakespeare não encenadas no Brasil. De algumas ela nem gosta. “Os Dois Nobres Parentes, por exemplo, é bem fraca”, diz.

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