Polinizadora cultural, Ute Lemper faz música com Pablo Neruda

Ubiratan Brasil, no Estadão

Um crítico inglês definiu bem a trajetória da cantora, compositora e atriz Ute Lemper: polinizadora cultural. Afinal, como uma borboleta, ela busca inspiração em trabalhos de artistas de diversos países para, depois de reformulá-los, oferecer como nova obra. É o que poderá ser visto hoje na Sala São Paulo, onde Ute apresenta canções inspiradas na poesia de Pablo Neruda (1904-1973)

Karen Kohlberg/ Divulgação Ute. Paixão pelo ritmo da poesia de Neruda

Karen Kohlberg/ Divulgação
Ute. Paixão pelo ritmo da poesia de Neruda

São melodias compostas por ela a partir de 11 poemas de amor do poeta, “que escreveu para servir à vida do homem, inaugurando esperanças, repartindo a ternura, de palavra ardente quando se erguia para defender tudo o que fere e mancha a grandeza da condição humana”, no entender do também poeta Thiago de Mello, amigo fraterno do escritor chileno.

Considerada a melhor intérprete de Kurt Weill da atualidade, Ute nasceu em Münster, pequena cidade alemã, em 1963. Logo deixou a família para estudar balé, em Viena, onde foi convidada, em 1983, para a versão austríaca do musical Cats. Três anos depois, interpretando Sally Bowles, em Cabaret, ganhou o prêmio Molière. Participou de outros musicais, como Chicago, além de trabalhar com importantes cineastas como Peter Greenaway (A Última Tempestade). Nada, porém, a motiva mais que a música, como revela na seguinte entrevista, por telefone, desde Nova York.

Como nasceu essa paixão pela poesia de Pablo Neruda?

Adoro não apenas seus poemas como também seu legado humanitário, especialmente a luta pela liberdade. Falando apenas da poesia, ele conseguiu impactar a literatura mundial no século 20 pela forma com que uniu política e amor. Para esse espetáculo, decidi musicar apenas os versos amorosos, 11 deles. Há quatro anos, quando adaptei textos de Charles Bukowski, a intenção era fazer algo de vanguarda; agora, minha intenção era fazer um trabalho no contexto da Chanson francesa, algo que lembrasse Jacques Brel ou mesmo as melodias de Astor Piazzolla. Trata-se de uma melodia bem melancólica e acreditei que esses 11 poemas se encaixavam bem.

Como foi a escolha dos poemas?

Bem, preciso dizer que li diversos tipos de poesia e de poetas, um material fantástico como literatura mas que não se encaixava. Até descobrir os versos de Neruda, que primeiro li traduzidos para o inglês. É uma poesia compacta, pequena, mas extremamente bela em sua força literária, além de muito realista. Percebi que era um caminho em que eu poderia trilhar e, com a contribuição do músico argentino Marcelo Nisinman, ao longo de um ano e meio, musicamos esses 11 poemas.

Você se lembra quando foi a primeira vez que teve contato com a poesia de Neruda?

Eu já havia cantado canções sul-americanas e, quando estava em turnê com um espetáculo inspirado na música de Astor Piazzolla, percebi uma necessidade de tratar da poesia latina escrita ao longo dos anos 60 e 70, porque era algo extremamente forte. Como disse, li vários escritores até descobrir Pablo Neruda. O que primeiro me fascinou em sua obra foi observar como era tênue a linha entre sua biografia e seus versos, o que também conduziu a escolha dos poemas.

Muitos críticos observaram um certo paralelo entre a obra de Neruda e o trabalho de Kurt Weill, que é um de seus compositores favoritos. Qual sua opinião sobre essa comparação?

Neruda viveu no exílio, vivendo na Europa, colaborando com artistas em geral. Ou seja, houve uma conexão com a cultura europeia. Weil exilou-se primeiro em Paris, depois em Portugal até chegar a Nova York enquanto Neruda esteve na Espanha, na Itália, passando por Paris. Acredito que no contexto físico ele é, por isso, mais próximo de Weil, enquanto que no contexto político, acredito que Neruda está mais conectado com Bertolt Brecht.

Como é o trabalho de criar melodias para textos já prontos?

Dependo muito das palavras, que é o início de tudo: quando são fluentes, poéticas, e me permitem entrar em seu âmago, a melodia sai mais fácil. Passei muitos anos interpretando grandes compositores, poetas da música como Jacques Prévert, Jacques Brel, Brecht. Ou seja, vivo dentro da melodia e da música, dentro do contexto da criação musical em torno das palavras – esse é o meu universo. Como disse antes, eu queria fazer algo em torno da chanson e, com Neruda, isso aconteceu naturalmente, ainda que eu tenha pensado muito sobre o ritmo do original, até encontrar a progressão de acordes e o sentimento melódico. Por isso, mantive algumas poesias em espanhol e, em outras, há algumas interferências em inglês ou francês. Mas a maioria está no idioma original, pois eu queria manter o contexto emocional da poesia.

Você canta em alemão, inglês, francês, espanhol – o idioma não parece ser uma barreira em sua trajetória, não?

Eu diria que é intuitivo descobrir qual língua é a melhor para determinados tipos de canções. Por exemplo, quando vou cantar algum blues, o inglês desponta como melhor idioma para manter o contexto. Quando a canção é mais melódica, o francês sai na frente. Algumas pessoas podem estranhar a escolha que fiz do tango para certas canções, mas Neruda viveu exilado também na Argentina, onde nasceu, aliás, seu grande amor, Matilde. Assim, optei por uma versão mais argentina.

Suas leituras parecem indicar qual será o rumo de seus próximos trabalhos – foi assim com Bukowski, agora com Neruda. Qual seria o escritor que agora te inspira para um projeto futuro?

Realmente, sou uma grande leitora, gosto de encontrar sempre novos autores. Nesse momento, confesso estar apaixonada pela obra de Paulo Coelho. Leio agora Manuscrito Encontrado em Accra e vou sublinhando as frases que mais me encantam. Fiz isso também com outros livros dele e sinto imensa identificação com seu trabalho. Espero fazer um trabalho conjunto com ele.

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