Diferença entre notas chega 25%. Quanto mais horas semanais de expediente, menor a média do aluno na redação

Luana da Silva, moradora do Pavão Pavãozinho, estagia no Tribunal de Justiça do Rio vai fazer a prova Camilla Maia

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Fábio Vasconcellos em O Globo

RIO – Os candidatos ao Enem que trabalham ou já trabalharam têm pior rendimento na redação. Analisando dados do exame de 2011, os mais recentes disponíveis, O GLOBO percebeu que 50% dos participantes informaram exercer ou já ter exercido atividade remunerada. Este grupo obteve média de 332 pontos na redação. Entre as pessoas que afirmaram nunca ter trabalhado, a média foi de 416. Uma diferença de 25%. Além disso, o número de horas trabalhadas influencia diretamente na média. Quanto mais longo o batente, menor a nota.

A baixa renda das famílias pode ser um dos fatores que mais levaram os alunos a trabalhar. Nesse caso, eles enfrentariam não só condições desfavoráveis para a sua formação em razão da baixa renda familiar, como também podem se dedicar menos aos estudos, por causa do trabalho. No grupo das famílias com renda até 2 salários mínimos, a proporção de candidatos que trabalhavam ou já haviam trabalhado chegou a 62%. Esta porcentagem cai à medida que sobe a renda da família.

Entre estudantes de famílias com renda entre 15 e 30 salários, por exemplo, o percentual de jovens que afirmaram trabalhar ou já terem tralhado foi de apenas 17%. A rede municipal tinha até 40% dos estudantes exercendo alguma atividade remunerada no Enem 2011. Entre os alunos da rede estadual, esse percentual chegou a 30,6% e, na rede federal, a 22%. As escolas privadas apresentaram a menor proporção de alunos que trabalhavam: 13%.

— Quem precisa trabalhar enfrenta uma situação muito mais vulnerável porque precisa encontrar tempo para estudar para as provas. Mesmo quem passa no Enem, mas enfrenta dificuldades econômicas, terá que trabalhar para se manter — observa Ernesto Martins Faria, coordenador de projeto da da Fundação Lemann.

A nota da redação também varia de acordo com o número de horas trabalhadas. No grupo dos estudantes que disseram exercer alguma atividade com até dez horas por semana, a média na redação foi de 510 pontos. A nota chega a subir para 527 pontos da faixa de quem trabalha entre 11h e 20h semanais, mantém esse patamar no grupo dos que exercem atividades remuneradas entre 21h e 30h semanais, mas declina nas faixas seguintes. Quem afirmou que já ter exercido ou exercia algum trabalho com mais entre “31 e 40 anos semanais” a nota média na redação foi de 513 pontos. Entre os estudantes que trabalham mais de 40 horas semanais a nota caiu para 498 pontos.

Outro fator que também chama a atenção é o impacto nas notas de redação de quem precisou parar por no mínimo um ano o estudos no ensino médio. Quem disse que não precisou interromper os estudos obteve média na redação até 24% acima de quem afirmou ter parado quatro anos. Mesmo quem interrompeu os estudos por um ano obteve nota inferior de quem não precisou parar. A rede municipal e estadual concentravam os maiores percentuais de alunos que interromperam os estudos e trabalhavam. Entre as escolas municipais o percentual foi de 27%, na estadual foi de 21%; privada 14% e, na federal (8,7%).

Para o professor da UFMG Francisco Soares a informação sobre quem trabalha e faz o Enem precisa ser ponderada, já que muitos podem trabalhar em atividades menos exigentes, como um negócio da própria família, com baixa carga horária, enquanto outros precisam de fato se dedicar a longas horas de trabalho. Por causa disso, Soares acredita que esse pode não ser um bom indicador sobre o efeito no desempenho dos alunos. Rodrigo Travitzki, doutor pela USP em educação, por sua vez, afirma que a correlação entre trabalho e desempenho nas provas pode ser indireta.

— Quando a relação é direta, quem decide trabalhar tem menos tempo para estudar. Numa situação de desigualdade socioeconômica, o estudante de baixa renda tem que trabalhar e trabalhar muito porque ele precisa de recursos para se manter ou manter a sua família. Nesse caso, há uma relação indireta com o seu desempenho nas provas. Todo sistema de meritocracia tem essa distorção. Num país desigual como o Brasil, a meritocracia tem esse efeito colateral: quem mais trabalha, terá menos condições.

Aluna do Colégio Estadual Pedro Alvares Cabral, Luana da Silva Lopes, de 16 anos, mora na favela do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul, com suas duas irmãs e a mãe. Desde o ano passado, ela dedica suas tardes durante a semana a um estágio no Tribunal de Justiça, pelo qual recebe bolsa de R$ 520. A ideia era usar o dinheiro para pagar um cursinho, mas não foi possível.

– Fico angustiada em ver que a universidade não é acessível para quem não tem dinheiro. Mesmo com as cotas, não é fácil. Vou fazer a prova para ver como me sairei, mas não me sinto preparada. Ano que vem, pretendo conseguir um emprego que me dê um salário para pagar um bom cursinho e tentar novamente – lamenta a candidata.

Luana passou por várias dificuldades na escola ao longo do ensino médio. Ela conta que já fez prova sentada em banquinho, apoiando a folha na perna, teve diversos professores trocados num mesmo ano e sofreu com a falta de aulas.

– O ensino nas escolas públicas não visa ao vestibular e, por melhor que sejam os professores, eles não conseguem aprofundar o conteúdo. Para se ter uma ideia, temos apenas dois tempos de química, e só comecei a ter aulas de redação no terceiro ano. Queria ter sido preparada desde o 1º ano do ensino médio, mas isso não acontece. Os instrumentos de ensino não nos ajudam – diz a garota, que deseja cursar Engenharia Civil.

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