Cronogramas de lançamentos estão mantidos, mas debate foi instaurado

Publicado no Midia News

A polêmica envolvendo a publicação de biografias não autorizadas ainda não alterou o cronograma de lançamentos das editoras brasileiras. Mas o debate certamente foi instaurado e, mesmo entre as companhias, não há consenso.

As biografias respondem por 1% do mercado literário, que movimentou R$ 4,984 bilhões em 2012. O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) defende a proposta de mudança do Código Civil , que permitiria a publicação de obras sem necessidade de autorização do biografado ou de sua família.

O argumento é que o artigo atual atenta contra a liberdade de expressão e deixa o País a mercê de livros “chapa-branca”. Mas também há editores que consideram o apoio do biografado ou de seus herdeiros crucial na busca por informações confiáveis.

“Não é questão de escolha, é questão de juízo. Buscar autorização é um compromisso moral meu. Prefiro trabalhar direito para não me queimar”, afirmou Fróes, em entrevista ao iG . “É uma coisa de respeito ao público buscar as melhores fontes, procurar a família, os amigos, o próprio biografado. Se você fizer (o livro) sem apoio, não vai fazer um trabalho honesto. Só uma pesquisa não basta, até porque nossa imprensa dos anos 1950 e 1960 era boba, ingênua. Tinha muita mentira, muita fofoquinha nada a ver.”

Para Fróes, a autorização não compromete a veracidade do conteúdo da obra. “O fato de ser uma biografia autorizada não quer dizer que o biografado tenha cobrado alguma coisa ou mesmo censurado trechos – às vezes basta você conversar com ele”, argumentou.

“Vamos ter boas biografias escritas por bons jornalistas em boas editoras. Se abrir a porteira (liberar a publicação sem autorização), qualquer um vai ser biógrafo e qualquer gráfica vai virar editora. Mas um bom jornalista, um grande jornalista, não vai ser curvado pelo biografado”, completou.

“Todo mundo sabe tudo”

Radicalmente contrária é a opinião de Henrique Farinha, diretor-presidente da Editora Évora, que já publicou tanto obras autorizadas (como “A Biografia de Roger Federer”) como não-autorizadas (caso de “Nos Bastidores do Pink Floyd”).

“Normalmente a não autorizada é mais saborosa”, opinou. “Quando é autorizada, o personagem quer controlar a história – quer controlar o que você pode dizer e o que não pode dizer”.

Para Farinha, a tentativa do Procure Saber, grupo de artistas que defende o veto às biografias não autorizadas, é até um pouco anacrônica em tempos de internet e redes sociais.

“Se o Chico Buarque quer controlar o que dizem de sua imagem, ele devia controlar a sua imagem em sites de fofocas para que, então, ninguém possa falar”, afirmou. “Hoje em dia todo mundo sabe tudo, boa parte do que acontece está nas mídias sociais, as pessoas não controlam mais.”

O editor acredita que a raiz da polêmica sobre as biografias está no fato de ainda existir “muita preocupação em se contar a história oficial” no Brasil.

“A gente tem pouca tolerância com a divergência, com aquilo que eventualmente não é nossa visão sobre nós mesmos, as coisas ou os fatos”, afirmou. “O brasileiro não gosta de transparência, gosta de articulação. Discutir abertamente não faz parte da nossa cultura.”

“Balcão de negócios”

Quem também criticou o Procure Saber foi o editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz. Em texto publicado no site da empresa, ele afirmou que o grupo “ofendeu os profissionais do livro ao defender a permissão apenas da publicação gratuita dos livros pela internet, apresentando editores e escritores como argentários e pilantras profissionais.”

No texto, Schwarcz relembrou a proibição à biografia do jogador Mané Garrinha, “Estrela Solitária”, que só voltou às lojas após “volumoso acordo” com a família do atleta, sem que houvesse qualquer condenação judicial. Depois do pagamento, disse Schwarcz, o conteúdo não preocupou mais as filhas do biografado.

“Pela lei vigente, os herdeiros se transformam em historiadores, editores e, desculpe-me, censores, sim”, escreveu. “O fato é que a atual lei brasileira permite, singularmente, que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações.”

Outros lançamentos

Apesar da polêmica, a Companhia das Letras manteve a publicação do terceiro volume da biografia de Getúlio Vargas, marcada para agosto de 2014. Segundo a assessoria de imprensa da editora, o autor Lira Neto teve acesso e entrevistou a família do político, mas não submeteu o livro a uma pré-aprovação.

A editora Planeta, que publicou a agora vetada biografia “Roberto Carlos em Detalhes” (2006), tem duas publicações do gênero previstas para o próximos meses – ambas autorizadas: a autobiografia de Usain Bolt e a história de Minotauro e Minotouro, escrita pela mãe dos lutadores.

A Editora Record, responsável pela publicação da biografia “Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim”, também vetada, não respondeu aos pedidos do iG para entrevista sobre o caso e detalhes de próximos lançamentos.

 

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